Ensaio

Análise dos vasos comunicantes entre a arte do cinema e educação

A Obra Pro dia nascer feliz é um documentário, de João Jardim, em que a educação é o tema central

00:00 · 09.11.2014

A narrativa descreve realidades escolares brasileiras, de diferentes contextos sociais, econômicos e culturais; imagens e relatos colocam em evidência as diferenças e desigualdades na esfera da educação, no Brasil . A fragilidade do sistema educacional brasileiro é exposta no documentário, que focaliza instituições de ensino em três estados: Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. O contraste entre escolas com estruturas precárias, como a Escola Estadual Cel. Souza Neto (em Manari, Pernambuco) e escolas com estrutura moderna, como a do Colégio Santa Cruz (em São Paulo) é imenso, assinalando a desigualdade social e uma realidade marcada, quase sempre, por violência e pobreza.

Inquietações

Os autores de "A chave do saber" elaboram uma reflexão crítica sobre um dos capítulos do Relatório: Educação: um tesouro a descobrir da Conferência de Jomtien ( Conferência Mundial, ocorrida na Tailândia, em 1990, organizada pela ONU e que contou com a participação de outros organismos internacionais, tendo como tema o slogan: Educação para todos), a partir do qual são apresentados os quatro eixos da educação: "aprender a conhecer", "aprender a fazer", "aprender a conviver" e "aprender a ser", eixos que deverão fundamentar o campo da educação, no século XXI. As mudanças econômicas, políticas e sociais, em escala global, acontecem num cenário em que o contexto da pedagogia é afetado, desencadeando reformas educacionais que se desdobram e se estruturam na ideia de competência, o que implica uma aprendizagem de conteúdos, atitudes e habilidades, para a qualificação profissional. O que exige,assim, outros atributos além do conhecimento e da capacidade para aplicá-los, tais como saber conviver, agir de forma colaborativa e solidária e desenvolver uma condição de autonomia. É nesse sentido que a nova proposta pedagógica enfatiza, em seu conteúdo, os quatro eixos da educação: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver; aprender ser.

Primeiro eixo

O "aprender a conhecer" diz respeito à capacidade cognitiva de aprendizagem, focando no acúmulo de conhecimentos teóricos relacionados a uma prática que possa gerar e gerir, assim, informações tecnicamente úteis e instrumentalizáveis. Os grandes contrastes entre a nova pedagogia e as escolas tradicionais, dentro deste aspecto de aprendizagem, dizem respeito, sobretudo, a uma formação teórica descontextualizada e desvinculada da sua dimensão prática, o que torna a aprendizagem estagnada e potencialmente infértil, sendo possível constatar um ensino desinteressante, já que a apropriação de um conhecimento está plenamente comprometida.

A proposta da nova escola, "aprender a conhecer", se articula no fornecimento de meios para o desenvolvimento de determinada habilidade que inclui a capacidade de comunicação, visando fins que serviriam à educação promovendo um agir que parte da compreensão do mundo, transcendendo um simples saber instrumental. Na nova escola, o mais importante seria aprender a aprender, o que leva os alunos a se implicarem no processo de aprendizado, desenvolvendo um interesse em produzir um conhecimento sobre a realidade que os cerca. No filme, o eixo "aprender a conhecer" ainda está estruturado com base no modelo bancário, com aulas em que os professores discorrem sobre um determinado conteúdo (a função é de transmitir), enquanto os alunos, de forma passiva, recebem aquele conteúdo. Vemos, portanto, que quanto a esse aspecto, ainda prevalece o modelo tradicional.

Segundo eixo

No que concerne ao aprender a fazer, é possível ver que na escola que está voltada, de forma tradicional para a profissionalização, com a predominância da atividade prática, o homem como habilidade se sobrepõe, de forma evidente, ao homem como cognição. O ponto máximo dos abusos notadamente influenciados por esta tradição antiga atinge seu clímax nos contextos administrativos e fabris do taylorismo e fordismo, onde o trabalho manual excessivo leva à estagnação da criatividade inibindo a inovação, elementos que são decisivos para o desenvolvimento da nova escola.

A dimensão "aprender a fazer" é vista, na nova escola, sob a ótica da criatividade e da inovação. Dessa forma, as ações práticas (que movimentam o meio fabril, ou mesmo educacional), devem estar relacionadas à atividade intelectual, com fins de expandir e melhorar os próprios meios práticos de produção.

Nesse sentido, a técnica e os instrumentos ganham uma nova dimensão, deixando de ser usados de forma mecânica.

Quanto a esse aspecto, o filme em questão não nos auxilia a identificar como esse pilar estaria orientando a escola, já que as escolas apresentadas não desenvolvem cursos profissionalizantes.

Mas, sabemos que em nossa sociedade, tanto na escola como no trabalho, o que geralmente ocorre é um uso alienado da técnica.

SAIBA MAIS:
CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000.
JARDIM, João. Por dia nascer feliz (filme vídeo).BRASIL; 2006. 88 mim. Color. Som
TOURANE, Alain. Crítica à modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995

Neidelamar Lucena; Inês Detsu; e Luziana Vieira
Especial para o ler*
Alunas do Curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor)

 


 

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