Ensaio

Análise do vestuário em obra de ficção

00:00 · 02.02.2014 por LÍDIA FREITAS

Durante o século XIX, o Brasil sofreu influência direta e indireta dos hábitos franceses. Segundo Corrêa (2013), essa influência aconteceu não só devido à política expansionista de Napoleão Bonaparte, que ocasionou a vinda da família real portuguesa para o Brasil, mas ocorreu mesmo após a queda de Napoleão, quando houve uma reaproximação entre portugueses e franceses. A família real portuguesa, ao chegar à colônia, desejava viver em um ambiente europeu ao qual já estava acostumada. A arte e a arquitetura foram revistas e reformadas, de tal forma que o Brasil se adaptasse para oferecer à Corte um ambiente europeu influenciado pela França.

Modismos europeus

A cultura francesa também exerceu influência sobre a moda e os modos de vestir no Brasil durante o século XIX. Ainda graças à vinda da família real para a colônia, houve uma maior difusão dos modismos europeus para os brasileiros. A sociedade brasileira ambicionava se parecer com a sociedade europeia e, ao mesmo tempo, procurava diferenciar-se das camadas mais abastadas através da vestimenta, como afirma Corrêa (2013): (Texto I) Incorporar os costumes franceses, principalmente na vestimenta, era sinônimo de desenvolvimento, de refinamento, como aponta Rodrigues (2011): (Texto II)

Em Helena, de Machado de Assis, a personagem Estácio anuncia que seu amigo, Mendonça, recém-chegado de Paris, escreveu-lhe comunicando que iria visitá-lo em breve.

As minúcias

À descrição da chegada do personagem, Machado de Assis acrescenta não só o detalhamento de suas vestes, mas também o porte afrancesado. Mendonça traz consigo as características de um parisiense, vestindo-se com rigor e elegância: (Texto III)

No Rio de Janeiro, o clima quente não favorecia o uso de adereços como as luvas; mas era de reconhecido bom gosto utilizar um acessório europeu: "usar luvas denotava nobreza de berço, educação privilegiada, distanciamento dos trabalhos manuais. (Rodrigues, 2011, p. 106).

Da Universidade Federal do Ceará

Trechos

TEXTO I

À época em que a família real portuguesa aqui vivia, muitas informações sobre o estilo de vida europeu se disseminavam, criando um espaço privilegiado para a difusão da moda daquele continente. Assim, pode-se afirmar que os brasileiros assimilavam os modos de vestir da sociedade industrial europeia. A população era formada por uma aristocracia rural que ambicionava se vestir como as elites do velho continente, tendo França e Inglaterra como principais referências. A roupa - como sempre fez - servia como diferenciação social, de modo a determinar à qual camada cada grupo pertencia, e não se pode negar a grande preocupação em se distinguir de escravos e camadas mais baixas da sociedade brasileira. (CORRÊA, 2013, p. 24)

TEXTO II

O fetiche da moda francesa que vinha com a tarja de "excelência de qualidade" e "última novidade de Paris" - embora tal realidade nem sempre fosse verdadeira - oferecia à nossa sociedade o gostinho de pertencer (pelo menos um pouquinho) à mesma cultura da elite refinada e desenvolvida dos parisienses.

(RODRIGUES, p. 119, 2011)

TEXTO III

Mendonça [...] vestia com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao grand boulevard, ao café

Tortoni e às récitas do Vaudeville.

A mão larga e forte calçava fina luva cor de palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho, pousava um chapéu de fábrica recente.

(Assis, Helena, 1987)

FIQUE POR DENTRO

A moda no universo masculino

A ensaísta Gilda de Mello e Souza, em "O espírito das roupas" (São Paulo: Companhia das Letras, 1987), dentre outros aspectos, aponta que o uso de acessórios, como luvas e chapéus, pelo universo masculino, serve como meio de compensar a indumentária enxuta da qual os homens faziam uso. O homem deixa de lado elementos decorativos que faziam parte da vestimenta nos séculos anteriores, para se dedicar a novos artifícios narcisistas, como decorar o rosto com o uso de bigodes. Evidencia-se a cultura do simulacro.

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