ARTIGO

Amor nos romances sentimentais

00:15 · 21.09.2008
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Nos romances sentimentais, enquanto o mundo se transforma rapidamente, só o amor permanece como garantia de felicidade

Senhores, agrada-vos ouvir uma bela história de amor e morte?. Assim, inicia-se a saga de Tristão e Isolda, narrativa celta do século XII, que conta as desventuras de dois jovens que se amam loucamente e acabam, ao sucumbirem a uma paixão impossível, morrendo. Com certeza, até hoje, nada no mundo nos agradaria mais ouvir do que a doce e trágica história de Tristão e Isolda. Em verdade, o fascínio que cercava a população camponesa, que escutava em expectativa a dramática história desses dois apaixonados, não é diferente do feitiço que rodeia os romances sentimentais que elegem o amor como temática central de seus enredos.

Esse termo genérico, que engloba inumeráveis teorizações tão variadas quanto as formas de sua expressão, é o terreno privilegiado sobre o qual a literatura sentimental se move. O amor que vimos contado pelos poetas gregos, narrado em seus mitos pelos seus filósofos, o amor distante dos provençais, o amor trágico dos amantes modernos encontra lugar privilegiado nos romances-folhetins do século XIX. Da estrutura desses romances nascem os atuais romances sentimentais ou mais comumente conhecidos como romances cor de rosa. Estes romances, associados freqüentemente ao imaginário feminino, contam história de amor de mulheres e para mulheres.

Nestes romances, enquanto o mundo se transforma rapidamente, só o amor permanece como garantia de uma humanidade que atravessa os séculos. Na contemporaneidade, é a principal promessa de felicidade dos indivíduos. Não é à toa, pois, que o amor aparecerá como o grande tema da literatura de massa. Supõe-se, assim, que este seja não só universal, mas, também o refúgio onde resistem todos os ideais de transcendência, felicidade e solidariedade que o desenvolvimento do capitalismo liquida. Amores fervorosos, adultérios, traições, gestos arrebatadores, destinos que se cruzam, virtudes não descobertas, mas, subitamente reveladas desfilam pelas páginas dessa literatura destinada às mulheres e por elas avidamente consumida.

É, pois, a descoberta do amor entre as personagens que prepara a leitora para o recorrente final feliz. Enquanto a mulher não encontra o seu par ideal, ela é ainda um ser incompleto. O amor, para as heroínas dos ´romances do coração´ é o amor à primeira vista. As protagonistas passam boa parte da sua vida se preparando para este momento que será vivido em plenitude. Esta preparação é necessária a fim de que ela possa identificar a sua chegada e, assim, lutar posteriormente por ele, ainda que, nos primeiros momentos da trama, ela possa, devido a intrigas ou ao choque da descoberta, não reconhecer no eleito de seu coração a sua alma gêmea. O enredo mais popular neste tipo de romance é aquele no qual o amor entre os protagonistas se dá, por meio da chantagem do herói que tenta salvar a heroína da ruína financeira, forçando-a a um casamento aparentemente sem laços emocionais.

O enredo desses romances passa, pois, por uma questão de identidade feminina perdida e restaurada. No início da narrativa, há uma desestruturação da vida familiar da heroína por morte, falência, doença grave na família, levando-a ao enfrentamento de dificuldades. Neste momento, ela encontra o herói que lhe oferece sua ajuda em troca de determinados favores. A heroína refuta emocionalmente ao macho dominador. A estória é marcada por um desejo sexual recíproco incontrolável, mas, ao acreditar que tal desejo não está emoldurado pelo amor, a heroína se afasta emocionalmente do herói até que ele se revele apaixonado. Assim, o casal se une e a identidade da heroína é restaurada. Mas, agora ela não existe por si só, a heroína só reconhece a si própria na relação que estabelece com o marido-amante.

Herói

Nos romances sentimentais, no que concerne à representação masculina, o herói é quase sempre posto como estabilizado na vida, já tendo alcançado a plenitude da carreira profissional e ampla experiência no campo sexual, estando, no momento em que se passa a história, pronto a assumir o verdadeiro amor. Este será abençoado pelo encontro da amante-esposa- mãe. Geralmente, o herói é bem mais velho que a mocinha da história, daí a razão de sua ampla experiência e de seu papel de professor no exercício da sexualidade e de protetor no âmbito sentimental.

Os romances cor de rosa tratam, quase sempre, da história de um homem e de uma mulher que se encontram e se enamoram, mas até a concretização desse amor deverão superar obstáculos. Assim, o amor tem que ser mais forte do que o tempo, a distância e as desgraças mais terríveis, devendo superar todos os obstáculos que possam ser encontrados nas diferenças econômicas, culturais e sociais. Localizar o paraíso no interior dos próprios indivíduos e abstrair as condições sociais em que isso se dá são objetivos que o discurso amoroso da literatura sentimental deve realizar. Nas histórias românticas esta ´ordem do coração´ invalida qualquer forma de luta contra as desigualdades sociais, apesar de sua existência ser admitida, porque difunde a idéia de que somente o amor ultrapassa barreiras. Não somente a solução é individual - nunca coletiva - mas está sempre ligada a um milagre. O amor passa a ser a explicação universal que resolve as contradições sociais, negando-as. Em geral, trata-se de um amor impossível que se possibilita pela força do destino. São as estrelas que orientam o seu curso e imprimem um sentido à sua sorte.

Na maior parte das vezes, os sujeitos apaixonados pertencem a famílias de características sociais, culturais e econômicas basicamente diferentes, com o agravante de dois homens disputarem o amor de uma mulher ou vice-versa. Os erros de compreensão e as desconfianças são, em geral, a causa das demoras da reunião do casal. Os amantes, vítimas de um mundo hostil e indiferente, pensam encontrar no eleito do seu coração um refúgio, mas a vida apresenta muitas provas a vencer: o ódio, a inveja, o ciúme. O encontro deve ser um processo, no qual vemos os indivíduos gradualmente superarem as intrigas, as desconfianças e as suspeitas, até atingirem a maturidade final e estarem aptos à recepção da recompensa de um final feliz.

Apelo à paixão

Assim, nestes romances, o amor é o caminho da integração entre os indivíduos e a sociedade, a possibilidade de realizar aquelas promessas que o mundo da competição econômica, da desintegração social e individualismo havia suprimido. O apelo à paixão torna-se lugar comum, e o amor é visualizado com uma intensidade arrebatadora cuja expressão oferece a garantia de legitimidade da experiência amorosa. Essa legitimidade passa pelo ideal do casamento.

O amor deve ser sempre a base do casamento, e as dificuldades da relação do casal sempre superadas. Entrementes, embora o mundo romântico tenha inaugurado a certeza de que o casamento por amor seja a forma mais legítima da união durável entre duas pessoas, a força desse amor não pode converter-se paulativamente em serena convivência colorida pela amizade íntima que resulta do prazer e dos planos partilhados. Para o amor arrebatado dos romances sentimentais, esta conversão é concebida como degradação e só o amor intenso, vivo e apaixonado pode justificar a permanência do casal. Este estímulo à intensidade vem acompanhado de receitas que os romances sentimentais divulgam como fórmulas garantidas para assegurar a sobrevivência dessa paixão. A intensidade amorosa volta-se para a glorificação de um momento que pretende-se eterno.

Desta forma, a solidão que o amor promete compartilhar, o vil interesse que o amor deseja destruir, a separação dos corpos que o amor acredita dissolver são a base estrutural que garante aos romances sentimentais sua popularidade e sua passagem para o século XXI. Os romances sentimentais nos indicam, enfim, que é no encontro apaixonado que se pode aprender o sentido do mundo. Assim, o amor é a chave de compreensão dos mistérios da vida, sentimento arrebatador a que todos podem ter acesso independente da raça, credo, origem ou condição social dos indivíduos. Entrementes, para muitos, este encontro só acontece ao se folhear as páginas dos ´livros do coração´.

MANUELA BARROS
Especial para o Caderno 3


A autora é socióloga e Sócia-Pesquisadora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação.

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