Amelinha, forró e folia - Caderno 3 - Diário do Nordeste

entrevista

Amelinha, forró e folia

19.06.2003

A CANTORA Amelinha, voz do Ceará, que ganhou projeção nacional no final da década de 70: “O cearense gosta de coisa de fora, de estrangeiro, mas não tenho queixa por isso”
A CANTORA Amelinha, voz do Ceará, que ganhou projeção nacional no final da década de 70: “O cearense gosta de coisa de fora, de estrangeiro, mas não tenho queixa por isso”
Divulgação
Os festejos juninos trazem de volta aos palcos da cidade a cantora cearense Amelinha. No dia 24 de junho, ela é a principal atração da “Fortaleza de São João”, o “arraiá” montado no aterro da Praia de Iracema, que oferece arras-tapé até o dia 29. Em seus 27 anos de carreira, Amelinha contabiliza altos e baixos. Estourou nacionalmente no final dos anos 70, e passou quase uma década com pelo menos uma música nas paradas. Entre seus sucessos, estão as eternas “Frevo Mulher”, “Foi Deus que fez Você” e “Mulher Nova...”. Atualmente distante da mídia, a cantora critica a prática utilizada na divulgação de discos, mas se diz feliz com o momento de sua carreira. Por telefone, do Rio de Janeiro, a cantora concedeu entrevista ao Caderno 3. Confira os principais trechos

— Caderno 3 - Depois de muito sucesso, no final dos anos 70 e em boa parte dos anos 80, você ficou um tempo distante da mídia. O que andou fazendo a Amelinha enquanto esteve mais sumida?

Amelinha — Atravessei um deserto. Mas fiz muitos shows, nunca parei. É verdade que se a gente não aparece na tevê o cachê fica em baixa, embora o show seja o mesmo. Nesse período, cantei até em cima de caminhão, em comícios. Mas fiz apresentações em boas casas e muitas cidades do interior, sempre com bom público. Animei muitas quadrilhas, no Rio e em Minas. Continuei o meu trabalho e estou vivendo um bom momento. No dia 10 de julho vou fazer um grande show na “Bauhum”, uma casa muito em evidência no Rio.

— Muitos cantores já reclamaram do público cearense, que só prestigiaria o artista que está em alta. Como é a relação com o público de sua terra? Alguma queixa?

Amelinha — O cearense gosta de coisa de fora, de estrangeiro, mas não tenho queixa por isso. Já saco esta característica há muito tempo, desde que iniciei a carreira. Por isso, em meu primeiro show em Fortaleza, procurei tirar proveito disso: levei quatro músicos de São Paulo e explorei o fato de já ter viajado com o Vinícius (de Moraes). Isso pesou muito para encher o show. Mas, antes, ainda tive receio de dar pouca gente e não dei cortesia para ninguém. Até minha mãe pagou. No final, depois do sucesso, escolhi o cheque de um cearense para guardar de lembrança. Tenho o cheque até hoje comigo. Nunca descontei.

— Quando foi o último show que você fez em Fortaleza?

Amelinha — Estive aí no mês passado. Fui cantar em um evento privado, na inauguração de um grande edifício. É sempre legal cantar em Fortaleza. O povo é muito ligado. E, hoje, os espaços são mais democráticos. As pessoas se misturam. Antes, havia uma divisão social muito clara. Vejo que Fortaleza cresceu e se abriu para o turismo. Tem uma imagem especial, no Brasil e no Exterior. É uma cidade badalada.

— Quando se fala na badalação de Fortaleza, não se pode esquecer o forró, que está mais em moda do que nunca. O que você acha do forró eletrônico? Ele distorce nossa cultura ou ajuda a vender a imagem do Ceará?

Amelinha — Essa onda foi importante para acordar o forró pé-de-serra, uma riqueza que deve ser preservada. Já o forró eletrônico tem uma coisa mal acabada. Todo mundo canta do mesmo jeito, veste-se igual, é estereotipado. É uma mistura do Nordeste interior com a absorção de modismos urbanos. Os shortinhos, os cabelos louros. Mas não é a mesma coisa de colocar o chapéu de cangaceiro, uma coisa forte, vivida. O figurino das bandas de forró eletrônico tem a história de uma garotada que vive esta realidade, mas não tem cultura. O pessoal destas bandas não sabe nem falar sobre o trabalho. Se copiam muito e copiam os baianos naquela coisa aeróbica, igual, de colocar mão pra cima. Até o padre Marcelo Rossi entrou nessa.

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