Ensaio

Algumas reflexões sobre a publicidade e os diversos saberes

A publicidade e a propaganda invadem nosso cotidiano, dele fazendo parte, como uma engrenagem

00:00 · 03.08.2014

Estamos rodeados de propagandas e de ações publicitárias. Somos tão conscientes disso que, às vezes, nem sequer notamos, ou melhor, não nos incomodamos. Os anúncios estão cada vez mais invasivos no nosso cotidiano. Eles nos mapeiam e sabem do quê e quando precisamos; sugerem marcas e produtos sem nem mesmo pedirmos. Assim mesmo, continuamos sem nos incomodar, apenas nos adequando conscientemente, fugindo dos comerciais, e de modo inconsciente, criando mecanismos de defesa que sem nos apercebermos informam ao nosso cérebro para, assim, não registrar tais informações.

A outra face

E se em algum momento alguém se preocupa em nos consultar sobre esta invasão, externamos toda a nossa contrariedade, a mesma que parecia não existir. Assim foi a reação das pessoas consultadas sobre a intervenção da publicidade na literatura. Ainda na escolha do tema, perguntamos o que as pessoas achavam se houvesse presença de marcas e suas publicidades nos livros literários. As reações mais extremistas foram totalmente contra, compararam essa ação a um break comercial, como se ao final de cada capítulo fosse entrar uma vinheta anunciando um produto. Os mais conformados com o rumo que a publicidade tomou, disseram que era possível desde que houvesse cuidado em não tirar o foco do livro. Um terceiro grupo, totalmente consciente da presença publicitária no nosso dia a dia, defendeu que isso já acontecia, muitos autores já utilizam marcas em seus livros.

Nossa pesquisa partirá dessas opiniões. Para as pessoas que acham que a publicidade já está nos livros, apresentamos a diferença entre propaganda e publicidade. Para os que defenderam a possibilidade, mas receiam que o foco do livro seja perdido, mostraremos como percepção subliminar, merchandisign, neuromarketing e product placement podem ser adaptados e aplicados para este objetivo. E para os que se disseram contra, apresentaremos casos em que a literatura e a publicidade estiveram juntas e obtiveram sucesso, como no cinema e em peças publicitárias.

A jornalista Lilian Gonçalves (2013), pós graduada em Comunicação e Marketing, e os publicitários Raul Santa Helena (2012), executivo de contas da Gerência de Publicidade e Promoções Petrobrás, e Antonio Jorge Alaby Pinheiro (2012), diretor-sócio da Mídia1 Comunicação, através dos seus livros "Neuromarkenting aplicado a Redação Publicitária" e "Muito Além do Merchan!", são os nossos guias e nossas bases teóricas para pôr em ação a publicidade nas entrelinhas da literatura.

De priscas eras

Não é a primeira vez e não será a última que a publicidade e a literatura se unirão. Grandes escritores brasileiros, como Olavo Bilac (apud SILVA, 2006, p. 2), trabalharam como verdadeiros redatores publicitários, doando sua criatividade para a promoção de um produto. Autores contemporâneos, como Roberto Drummond, se valeram de marcas e produtos famosos para deixar suas obras mais próximas possível do mundo real. Uma via de duas mãos, como toda relação de investimento. A Publicidade nas Entrelinhas da Literatura pretende reatar esse laço, dando mais uma opção para os profissionais de marketing chegarem ao seu público e reaquecer o mercado editorial.

Publicidade & propaganda

Equivocadamente no Brasil, os termos publicidade e propaganda são empregados como sinônimos, o que em alguns casos dificulta a comunicação acadêmica do comunicólogo brasileiro com os demais países: ( Texto I) A diferença entre Propaganda e Publicidade pode ser historicamente explicada. Propaganda, por definição, é "ato ou efeito de propagar ou difundir uma ideia, opinião ou doutrina".

É o termo mais antigo e foi o primeiro a ser utilizado quando a Igreja Católica, preocupada com o crescimento das ideias luteranas, decidiu criar a Ordem da Congregação para Propagação da Fé Católica, cujo objetivo era disseminar pelo mundo os ideais da Igreja e evitar a perca de fiéis. Já o termo Publicidade, "que significa tornar público um produto, um fato ou uma ideia, é um conjunto de meios e técnicas cuja finalidade primeira é divulgar um serviço ou uma empresa, orientando-se, ao mesmo tempo para a angariação, alargamento ou manutenção de uma clientela".

A Publicidade foi primeiramente empregada na Revolução Industrial, quando os fabricantes começaram a produzir mais do que o necessário para o meio, causando o desequilíbrio da oferta e da procura. Com produtos em estoque, era necessário tornar público à população que ela podia comprar mais do que precisava, assim, os comerciantes resolveram utilizar o espaço dos jornais e revistas da época para expor suas ofertas. Os donos dos veículos de comunicação, por sua vez, cobravam por esta inserção.

*Do Curso de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda da Unifor

Sâmia Maia de Oliveira Evangelista
Especial para o Ler

 
TRECHOS
 
A origem do equívoco que vem sendo cometido desde que nossas primeiras agências foram sendo criadas, inspiradas nas agências americanas que vieram para o Brasil, é de uma indevida tradução de publicity, propaganda e advertise, que se tornaram vocábulos usados pelos nossos profissionais e logo passaram ao domínio público. (GOMES, 2001, P.113)
 
 
FIQUE POR DENTRO
 
Delimitações de uma fronteira entre saberes 

Através dos fatos históricos, podemos perceber que somente a publicidade envolve capital nas suas origens e é assim até hoje. Assim, a distinção dos termos faz total diferença em seus objetivos; um deles é mostrar a possibilidade de uma relação comercial (publicidade) entre as marcas, os autores e as editoras de livros literários. A partir da nova visão proporcionada pela Revolução Industrial, as marcas passaram a ser inseridas no nosso cotidiano, porém a super exposição do nosso cérebro a elas fez com que criássemos resistência e não nos deixássemos seduzir por um simples anúncio.
 
 

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