Ensaio

Alexandre O´Neill: a estética surrealista

00:40 · 10.08.2013
Em Alexandre O´neill, há uma busca por liberdade, característica do surreal. Esta busca começa na libertação da palavra e termina na libertação do homem

O poema "Há palavras que nos beijam", de Alexandre O´Neill, é composto de cinco estrofes, de quatro versos livres, com rimas cruzadas e algumas órfãs. Há figuras de efeito sonoro, como aliteração, isto é, a repetição da mesma consoante ao longo da estrofe. O texto é bastante simples, de linguagem coloquial e de fácil entendimento. No sintático, temos a presença de períodos curtos. O único verbo presente no texto sofre diversos complementos. No plano semântico nota-se uma figura de similaridade, comparação ou símile, presente no primeiro verso: Há palavras que nos beijam/Como se tivessem boca... A antítese se insere no discurso: ( Texto I)

Leitura do poema

O sujeito lírico emite os seus sentimentos na defesa das palavras, daquelas que, consoante ele, valem a pena. Defende as que nos beijam e nos trazem felicidade que são as palavras de amor, de esperança; palavras estas que não permitem que nós sucumbamos ao desgosto. As palavras sofrem personificação, pois nelas foram colocadas bocas para que nos tocassem e beijassem. Segundo o eu lírico essas palavras podem aparecer inesperadamente ou não tal qual o amor e a poesia. Imprime-se uma relação entre o surgimento dessas palavras e o surgimento do amor ou da poesia. O nome da pessoa amada é outra palavra importante que "nos beija" ao ser escrito no mármore ou no papel, ou seja, a palavra, independente de ser escrita numa superfície duradoura ou não, sempre terá um grande significado, pela capacidade de nos transportar a lugares maravilhosos, mágicos, onde podemos estar com quem desejamos e realizarmos tudo o que queremos, inclusive vencer a morte e tudo que está fora de nossa ação ou até de nosso pensamento.

Singularidades

Poeta urbano, descontraído, com uma harmonia entre a linguagem e o espaço, concentra-se, amiúde, no corpo feminino, captado este sob ângulos os mais diversos. Encara a vida de forma cômica, grotesca e descontraída, dando ênfase, no espírito citadino, a questões eternas, mas que são muito mais visíveis em nossa contemporaneidade, como, por exemplo, a temática do "Poema pouco original do medo". (Texto II)

Nesse poema, observamos uma enumeração de elementos que se unem com o objetivo de amiudar uma nova realidade e criticar a vulgaridade do cotidiano. No surrealismo, isso é denominado de inventário, ou seja, lista que torna compatíveis elementos aparentemente incompatíveis. Percebe-se com facilidade o uso figuras de efeito sonoro como por exemplo: a aliteração(ter tudo, cautelosas, ...etc.) e a repetição de palavras(o medo vai ter tudo, vai ter, assim assim, talvez, tudo tudo, a ratos).

Leitura do poema

O poema é de atmosfera estática, isto é, usa apenas um verbo em toda sua composição, cessando ações. O que caracteriza de forma geral quanto ao léxico é uso abusivo dos adjetivos. Ao lermos certas expressões como pernas, ambulâncias blindado, ouvidos nas paredes o leitor associa diferentes impressões sensoriais que fazem com que ele entenda o porquê do poema se chamar "Medo".

Quanto ao ritmo, o poema pode ser classificado como assimétrico por ter ritmos soltos, fugindo das regras métricas . Os seus versos são livres, pois fogem à regra métrica, à posição das sílabas fortes e à regularidade das rimas. No que diz respeito às estrofes, neste poema encontramos de todas as classificações: da quintilha a décima. O autor usou poucos sinais de pontuação ou quase nenhum: apenas o ponto de exclamação quando quis destacar sílabas isoladas, encontradas entre parênteses.

No primeiro parágrafo, o eu-lírico apresenta o medo em sua forma externa, do lado de fora de nossas casas. Já no segundo parágrafo vemos o medo acontecendo no interior de nossos aposentos, de nossas prisões domiciliares. Na estrofe seguinte, temos o medo psicológico, e este faz com que precisemos recorrer às religiões, a livros de autoajuda, às tecnologias, aos congressos e finalmente a última estrofe relata o medo generalizado, atingindo a todos.

FIQUE POR DENTRO

Alguns aspectos do autor e de sua obra

Alexandre Manuel Vahía de Castro O´Neill (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986), ou simplesmente Alexandre O´Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista. Autodidata, O´Neill foi um dos fundadores do Movimento Surrealista de Lisboa. É nesta corrente que publica a sua primeira obra, o volume de colagens A Ampola Miraculosa, mas o grupo rapidamente se desdobra e acaba. As influências surrealistas permanecem visíveis nas obras dele, que além dos livros de poesia incluem prosa, discos de poesia, traduções e antologias. Não conseguindo viver apenas da sua arte, o autor alargou a sua ação à publicidade. É da sua autoria o lema publicitário «Há mar e mar, há ir e voltar». Foi várias vezes preso político.

Trechos

TEXTO I


Há palavras que nos beijam/ Como se tivessem boca/Palavras de amor, de esperança/ De imenso amor, de esperança louca///Palavras que nos beijam/ Quando anoite perde o rosto/Palavras que se recusam/Aos muros do teu desgosto/// De repente coloridas/Entre palavras sem cor/Espetadas, inesperadas/Como a poesia do amor/// O nome de quem se ama/Letra a letra revelado/No mármore distraído/ No papel abandonado/// Palavras que nos transportam/Aonde a noite é mais forte/ Ao silêncio dos amantes/Abraçados contra a morte.

TEXTO II

O medo vai ter tudo/pernas/ambulâncias/e o luxo blindado/de alguns automóveis/Vai ter olhos onde ninguém o veja/mãozinhas cautelosas/enredos quase inocentes/ouvidos não só nas paredes/ mas também no chão/no teto/no murmúrio dos esgotos/ e talvez até (cautela!)/ ouvidos nos teus ouvidos///O medo vai ter tudo/fantasmas de ópera/ sessões contínuas de espiritismos/ milagres/ cortejos/ frases corajosas/ meninas exemplares/ seguras casas de penhor/ maliciosas casas de passe/ conferências várias/ congressos muitos/ ótimos empregos/ poemas originais/ e poemas como este/ projetos altamente porcos/ heróis/ (o medo vai ter heróis !)

/ costureiras reais e irreais/ operários/ (assim assim)/ escriturários/ (muitos)/ intelectuais/ ( o que se sabe)/ a tua voz talvez/ talvez a minha/ com a certeza a deles/// Vai ter capitais/ países/ suspeitas como toda a gente/ muitíssimos amigos/ beijos/ namorados esverdeados / amantes silenciosos / ardentes/ e angustiados/// Ah o medo vai ter tudo/ tudo/ (Penso no que o medo vai ter/ e tenho medo/ que é justamente/ o que o medo quer) /// O medo vai ter tudo/ quase tudo/ e cada um por seu caminho/ havemos todos de chegar/ quase todos/ a ratos Sim/ a ratos.

RUBENS LIMA DOS SANTOS
COLABORADOR*

*Do Curso de Letras da Uece

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