Audiovisual

Além do cinema, a vida

Com prêmios na bagagem, filme "A Vizinhança do Tigre" estreia nesta semana em Fortaleza

00:00 · 08.03.2016
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Cenas de "A Vizinhança do Tigre", que aborda a vida e as escolhas de cinco jovens moradores da periferia de Contagem, em Minas Gerais
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Por trás da simplicidade dos nomes Juninho, Menor, Neguinho, Eldo e Adílson há a força de uma história sensível e inspiradora. Há também a expressão do olhar de cada um e a forma como os garotos sentem, falam e vivem no mundo.

Sob a câmera atenta do cineasta mineiro Affonso Uchôa, são essas travessias de vida que constituem o filme "A Vizinhança do Tigre", longa que estreia no próximo dia 10 no Cinema do Dragão-Fundação Joaquim Nabuco.

Produzido e distribuído de forma independente, o trabalho, misto de documentário e ficção, narra a história de cinco jovens moradores do bairro Nacional - periferia de Contagem (MG) - que, entre a violência do meio onde vivem e a esperança de encontrar melhores ares de sobrevivência, têm suas emoções e sentimentos reais impressos na tela.

"É um filme que preza pela fidelidade em retratar a juventude na periferia como ela é, especialmente no período do rito de passagem entre a adolescência e a fase adulta, quando tudo flui com mais força", resume o diretor Affonso Uchôa.

"A produção, assim, além de oferecer um recorte real do lugar onde aqueles personagens vivem, é um elemento que colabora para o desenvolvimento de outras formas de fazer de cinema", completa.

O filme chega aos cinemas depois de uma bem-sucedida recepção pelos festivais por onde passou. Na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes, foi vencedor do Prêmio Itamaraty de Melhor Filme tanto pelo Júri da Crítica quanto pelo Júri Jovem. Faturou prêmios ainda en festivais como II Olhar de Cinema Festival Internacional de Curitiba (PR) e I Fronteira Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental, em Goiânia (GO).

Produção

Tanto prestígio por parte da crítica especializada deve-se muito ao processo de filmagem da obra, que primou pela paciência no acompanhamento da vivência dos atores/personagens, arrancando, assim, uma forte e profunda carga dramática de suas atuações.

Cinco anos separaram a concepção da finalização do projeto. Estrategicamente sem contar com um roteiro prévio esquematizado, o esforço de Uchôa foi extra, já que precisou reunir seus próprios amigos - todos sem nenhuma experiência cênica profissional - para desenvolver e protagonizar a história.

"Sempre alimentei essa vontade de fazer um filme com os meus amigos, e no próprio lugar onde vivemos, justamente para mostrar, além da grandeza e do potencial dos moradores do bairro Nacional, o quanto suas vidas dizem do nosso tempo e do nosso País", explica o diretor.

"Com esse intuito, eu não poderia filmar as cenas baseado no processo tradicional, com tudo organizado antes mesmo das filmagens. Não me parecia verdadeiro se assim o fizesse e foi uma maneira que eu achei de aproximar a vida do cinema", justifica.

O trabalho foi bancado com recursos do próprio diretor, recebendo apoio financeiro do Governo do Estado de Minas Gerais apenas em sua finalização.

Alcance

Perguntado sobre a expectativa da recepção da película por parte do público, Uchôa se revela bastante animado, ao mesmo tempo que reflete sobre as dificuldades enfrentadas por ele para que o filme chegasse aos circuitos de exibição nos cinemas.

"Não vou ser quixotesco esperando que muitas pessoas vejam o filme. Ele tem bastante potencial, mas, infelizmente, ainda há grande resistência dos circuitos cinematográficos brasileiros em exibi-lo. Isso porque nós temos uma cultura no País que prioriza aquelas produções que geralmente não tem nada a dizer de útil e que são recheadas de publicidade", critica.

"Um filme como o nosso não se encaixa nesse padrão e, por isso, têm pouquíssimas chances de emplacar uma grande bilheteria", afirma.

E completa: "No entanto, penso que quem for conferir vai gostar bastante do resultado, já que ele traduz muitos aspectos da realidade de tantos. E é exatamente isso que precisamos para o cinema nacional: que ele contribua com a retomada do imaginário popular para que a arte continue sendo uma forma de afirmação das pessoas".

Trajetória

"A Vizinhança do Tigre" é o segundo filme de Affonso Uchôa, cineasta conhecido pelo seu trabalho em "Mulher à tarde", lançado em 2010, que conta a história de três jovens mulheres que vivem juntas numa grande cidade.

Sua nova obra, além de ter passado pelo Brasil, esteve presente também em eventos internacionais, como o Festin - Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa, em Portugal; e o Festival Internacional Cosquin Córdoba, na Argentina

"Fizemos do filme uma ilha de silenciosa resistência ao curso normal do mundo, em que experimentamos a criatividade, o companheirismo, a autonomia e um cinema mais pobre e humano, em que cada imagem tem o valor de uma cicatriz", finaliza o diretor sobre o novo longa.

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