Exposição

Além das fotografias

Alunos do Porto Iracema expõem fotografias sobre a resistência à violência em seus corpos

00:00 · 06.09.2018
Fotografias dos alunos Kauani Silva (topo), Kinberlly Pereira (acima) e Jonathan Freire: imagens promovem olhares sobre a representação corporal, tônica de "Escorpo"

O curso Percurso de Fotografia 2018, do Porto Iracema das Artes, rendeu muito mais que belas fotografias de seus alunos. A turma formada por 25 jovens foi mais longe e criou o Coletivo Cassão, cujo resultado é a primeira exposição das produções fotográficas, sediada na Casa Vândala - Cafés e Cervejas.

Intitulada "Escorpo", a abertura da mostra - a primeira realizada pela maioria dos alunos - acontece nesta sexta-feira (7), às 17h, com a participação de todos os integrantes do grupo.

As 15 fotografias escolhidas pelas professoras e curadoras do projeto, Clara Capelo e Thais Mesquita, ficarão expostas durante um mês, a contar da data de abertura da exposição.

Na ocasião desta noite, a partir das 19h, o evento contará com a participação da banda Negra Voz, projeto criado em 2016 que reúne quatro cantoras negras cearenses: Carolina Rebouças, Lorena Lyse, Luiza Nobel e Roberta Kaya. Em seguida, quem continua a animar a noite é o DJ e rapper Negocélio, há mais de 15 anos nas pistas.

As fotos ficarão dispostas no varal da Casa Vândala e estarão à venda para o público. Quem comparecer à abertura também poderá adquirir a cerveja artesanal criada especialmente para a ocasião, a "Molotov Arpão - Sem Tinta de Lula".

"A gente está fazendo a exposição, testando mesmo, metendo as caras, e já estamos pensando nas próximas. Vai ser um coletivo que vai rodar. A gente quer visibilidade. Somos estudantes, fotógrafos e estamos atrás do nosso momento. Fortaleza vai ser pequena pra gente", comemora Caroline Sousa, uma das alunas do curso e integrante do Coletivo Cassão.

Coletivo

Durante o curso - que aconteceu entre março e junho deste ano - os estudantes já se animavam em criar algo que ultrapassasse o período de formação.

"Nos conhecemos no curso e sempre tivemos bons encontros. Éramos uma turma que tínhamos assuntos em comum, como a nossa resistência perante às violências que o nosso corpo passa todo dia", recorda Caroline.

"Estávamos o tempo todo juntos e algumas pessoas falaram: 'Gente, criem um coletivo para vocês'. Então nos sentamos, conversamos e vimos quem podia abraçar essa ideia, porque não é fácil", conta.

Foi ao perceber que, mesmo nas diferenças, os integrantes tinham uma unidade que podia render bons trabalhos, que o Coletivo nasceu, contando com a contribuição das professoras do curso, Clara e Thais.

A palavra cação é uma nomenclatura vulgar atribuída aos tubarões para maquiar a proibição de captura e consumo desse peixe. A inspiração para intitular o grupo veio daí.

"Cação é uma mentira, é uma carne que é proibida, mas que é maquiada para passar por outro tipo de comida", ressalta a professora Clara Capelo, que esteve presente no momento da escolha do nome.

A motivação veio também "dessa coisa de descolonizar", já que o grupo entende a questão gramatical, que o ato de "escrever certo" parte da colonização do outro, e brincam com a escrita do cação, que neste caso recebe dois "s", cassão.

"Chegamos num momento em que a sala de aula não comportava tanta coisa que a gente viu que podia criar. Conseguimos expandir, sair da casinha", comenta Caroline.

Já a professora e curadora Clara Capelo prevê: "Vejo nesse coletivo uma juventude que está prestes a encontrar e tomar o seu lugar. Sinto que o grupo vai perfurar com o seu arpão as paredes brancas das galerias e de paredes como a da Casa Vândala, que se deixou ser perfurada".

Curadoria

Conforme explica Clara Capelo, o processo de curadoria considerou importantes questões.

"A gente viu que todas as imagens passavam por uma questão de resistência. Vimos que os ensaios sempre se passavam pela questão do corpo e de como eles resistem", dimensiona.

"Esses corpos são: o corpo da mulher, o corpo do gay, da mulher negra, da mulher negra lésbica, o corpo do homem negro e o corpo da periferia", enumera.

A exposição perpassa, então, três eixos temáticos: corpos, territórios e resistência. A partir do mote que ia surgindo com as fotografias, os integrantes do coletivo começaram a pensar em seu nome definitivo.

Veio, então, "Escorpo", palavra inspirada em "escopo", que significa alvo. É esse conceito que integra as imagens dos 15 integrantes que toparam dar início ao Cassão e que pretendem continuar a fomentar a cena artística da Capital.

Mais informações:

Abertura da exposição fotográfica "Escorpo". Nesta sexta-feira (7), às 17h. Na Casa Vândala (Rua Instituto do Ceará, 164 - Benfica). Período de exposição: um mês, a partir da abertura. Entrada gratuita. Contato: (85) 99773.1503

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