Ensaio

Airton Monte: o cotidiano como elemento-chave da escritura

Airton Monte (1949-1912) sedimentou a crônica como um gênero da expressão cotidiana

00:00 · 07.12.2014
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Ficcionista, cronista e poeta, o psiquiatra Airton Monte participou, intensamente, da vida cultura de nossa cidade, integrando revistas literárias, como "O Saco" ou entidades como a "Academia do Beco" ou o "Grupo do Estoril". Foi também compositor

Apesar de haver se dedicado, com maestria, ao conto, à poesia e ao teatro, foi na crônica que Airton Monte obteve o reconhecimento imediato do público. Sua escritura, nesse território, foi marcada, sobremaneira, pela presença de elementos recorrentes: o discurso lírico, a fina ironia, a valorização dos contrastes e o gosto pela circularidade, consoante a leitura de "Os passarinhos fujões": (Texto I)

Leitura da composição

A crônica é, sobretudo, uma conversa - com hora e lugar marcados - amena que o cronista estabelece com seu leitor; por isso, a linguagem se apresenta natural e espontânea, comportando, ainda, laivos de coloquialismo e / ou fragmentação sintática: "Domingo, nem o velho e grande gato gordo, que habita o telhado em frente, persegue inutilmente os pombos..."(4º§)

Imprime-se, portanto, um tom confessional, mesmo quando suas experiências reais ou imaginárias não são o motivo do texto - o Autor, a rigor, fala de si mesmo: "A verdade verdadeira é que sou um domingueiro típico, suburbano, um domingueiro de anedota". (3º§)

O discurso literário de Airton Monte possui um feixe de possibilidades. Nessa crônica, "Os passarinhos fujões" destaca-se, sobremaneira, a técnica da superposição de assuntos, que consiste em, a princípio, apresentar um interesse textual, (nesse caso, o dia de domingo) cuja função é apenas a de criar uma atmosfera propícia para receber o motivo maior do texto (aliás, já anunciado no título da crônica): os canários fujões, com toda a carga simbólica que abrigam.

Nos quatro primeiros parágrafos, em tom confessional, o sujeito da escrita divaga acerca de si mesmo, registrando hábitos, preferências estéticas, naturezas de comportamento etc.

A gênese

No primeiro parágrafo, há uma curiosa profusão temporal, intencionalmente construída pelo sujeito da escrita.

À primeira vista, a partir do emprego do presente do indicativo, tem-se a impressão de que, insone, ele haja atravessado a madrugada, sendo, agora, surpreendido pelo amanhecer: "Escrevo e já é domingo". No entanto, ao afirmar que "Hoje (domingo) não bati o ponto na tradicional macarronada...", faz transparecer a ideia de que, em verdade, o domingo já se encontra avançado; o que, de chofre, é dissolvido por "Hoje, anseio apenas... Um cantinho sossegado pra ler um livro, ouvir um disco, fazer um poema..." - ações que, naturalmente, exigem tempo prolongado, ressaltando que, a rigor, o dia apenas começa. Tal procedimento é comum em Airton Monte - o de fundir o temporal e o intemporal -, pois sua escritura brota de sua voz interior, espaço onde se dissolvem as linhas do tempo.

O quarto e o quinto parágrafos são digressões de notas anteriormente construídas.

No terceiro parágrafo, afirma: "O máximo esforço a que me permito é andar até a cozinha, pegar uma cerveja no congelador. Isso, se não tiver quem vá."

No quarto parágrafo, amplia esse traço: ao deparar um "velho e grande gato gordo", com este se identifica, atribuindo-lhe marcas que, também, são suas, dele cronista, sintetizadas no neologismo "macunaímico" - numa intertextualidade com Mário de Andrade, o criador desse herói nacional, sendo este a síntese do brasileiro, em seus contrastes.

FIQUE POR DENTRO

Notas acerca da crônica enquanto gênero literário

A partir do modernismo, a crônica passou a ocupar, predominantemente, as colunas de jornais e de revistas; somente depois, sofre um processo de seleção, para, assim, integrar o volume de um livro. Gravita, quase sempre, em torno de um fato do cotidiano - fenômenos naturais, sociais, políticos, éticos, econômicos, lúdicos, introspecções etc -, sendo, portanto, um forma literária marcada, essencialmente, por uma natureza híbrida, uma vez que pode assumir as formas as mais diversas, aproximando-se, dessa maneira, do conto, da poesia, da carta, da notícia jornalista, de uma entrevista... Mas sua fronteira mais natural se entende entre a narrativa e a poesia.

Trecho

TEXTO I

Escrevo e já é domingo. Hoje, não bati o ponto na tradicional macarronada com galinha à cabidela do vetusto Solar dos Monte. Hoje, anseio apenas e indispensavelmente um cantinho sossegado pra ler um livro, ouvir um disco, fazer um poema, escrever uma carta besta de amor, um bilhete de suicida.

Ou, simplesmente, postar-me diante da janela escancarada e desfrutar da paisagem quando me bate esse cansaço de nada, esse tédio absoluto de tudo, essa benevolente preguiça, esse estar no mundo despido de compromissos urgentes.

A verdade verdadeira é que sou um domingueiro típico, suburbano, um domingueiro de anedota. O máximo esforço a que me permito é andar até a cozinha, pegar uma cerveja no congelador. Isso, se não tiver quem vá. Domingo, nem o velho e grande gato gordo, que habita o telhado em frente, persegue inutilmente os pombos ilusórios pousados nos beirais. Sim, sou igual ao velho e grande gato gordo, folgado, macunaímico, lagarteando sob o sol. Aliás, um felino muito mais sábio do que muitos bípedes ditos pensantes.

Domingo é o dia mais apropriado pra se ler poesia. Afinal, poesia é o pão do espírito, se bem que certos poetastros nos fazem comer o pão que o diabo amassou.

Não é o caso desses versos que me emocionam profundamente sempre que os leio, do poeta Soares Feitosa: "Abram-se as janelas, que aqueles canários fugidos da gaiola podem voltar". Por isso, não crio canários e odeio todas as gaiolas, a não ser a do meu peito onde bate asas meu coração eivado de um romantismo incurável e renitente.

Canários são palavras, gestos perdidos na distância, adeuses esquecidos na janela de um avião, o odor inesquecível de uma mulher depois que a gente faz amor.

Aos domingos, escancaro todas as janelas da casa e da alma. Pássaros fujões podem voltar em busca de ninho. Quem sabe uma palavra, frase, ponto final de um poema, um conto, uma canção, uma crônica.

Sim, manter perenemente as janelas abertas, porque os poetas sabem que os passarinhos fujões quase sempre voltam ao local do crime, pombos-correio do inesperado.

Carlos Augusto Viana
Editor*

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