Entrevista com José Eduardo Agualusa *Escritor

Agualusa: ficção deve discutir a realidade

00:49 · 17.07.2013
O escritor acredita que a realidade é mais poderosa que a ficção. Por e-mail, o angolano respondeu às questões

Já se tornou célebre a frase de Cortázar: "O romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute". Observando essa seleção, qual conto foi mais exigente no processo de escrita? Por quê?

Os contos representados nesta antologia são muito diversos entre si. Além disso, foram escritos ao longo de vinte e cinco anos. Como é natural, os contos mais recentes são, provavelmente, os mais apurados e complexos. A Educação Sentimental dos Pássaros, que dá título a um dos livros, e é narrado em parte por Jonas Savimbi, o dirigente guerrilheiro morto em combate contra as forças governamentais angolanas, em 2001, e em parte pelo próprio escritor, deu-me uma certa luta. Esse exercício de me colocar na pele de um sujeito tão complexo quanto Savimbi não foi fácil. Savimbi era um homem brutal, louco, um assassino sem escrúpulos, mas que também podia ser afável, cativante, exuberante, inteligente e extremamente corajoso. Ele começa a contar a história da sua vida no instante em que uma bala o atinge.

Para o escritor angolano José Eduardo Agualusa, "a condição minoritária leva a pessoa a se questionar, a pensar, a se afirmar, e isso pode ser bom para a literatura e as restantes expressões artísticas"

Ordenados em ordem cronológica de publicação em livro, os contos parecem que vão ficando, com o passar do tempo, mais enxutos e, portanto, mais afiados. Concorda com essa afirmação? Qual análise você faria dessa evolução na sua escrita?

Nunca tinha pensado nisso, mas parece-me natural. Uma boa parte do meu esforço, enquanto escritor, é o despojamento. Gonçalo M. Tavares, um escritor que eu admiro muito, diz que escreve de rajada, sem parar, numa espécie de transe, atropelando a gramática, e que só depois corrige. Eu vou corrigindo cada frase, até lhe tirar a gordura toda. Quando termino um conto, ou o capítulo de um romance, já não há muito a tirar. Creio que com o tempo vamos ganhando voz e, claro, aperfeiçoando estratégias. O desafio é apurar a técnica, mantendo a emoção, o que só se consegue se continuarmos apaixonados e deslumbrados pela escrita.

Muito presente em seus textos, o tema da identidade parece assumir um caráter mais interrogativo do que afirmativo, concorda?

Sim, é isso mesmo. Não creio numa literatura cheia de certezas. Escrevemos para tentar compreender o mundo, ao menos o nosso mundo íntimo. Continuamos a escrever porque, felizmente, as questões nunca se esgotam. Num pais jovem, como Angola, a questão da identidade ainda é importante. Para aqueles que, como eu, são vistos como minoritários, a questão da identidade é importante a vida inteira. Por que é que você acha que existem tantos escritores, bons escritores, judeus, em países como os Estados Unidos ou mesmo no Brasil? Um judeu - quer dizer, aquele a quem os outros lembram como judeu - é confrontado todos os dias com questões de identidade. A mesma coisa com as minorias sexuais. A condição minoritária leva a pessoa a se questionar, a pensar, a se afirmar, e isso pode ser bom para a literatura e as restantes expressões artísticas.

Estou certo ao pensar que seus contos, especialmente os que figuram em Fronteiras Perdidas, assumem a perspectiva do presente, desconstroem as "versões oficiais" sobre os acontecimentos reais? Ou seja, seguindo o mesmo caminho apontado por Walter Benjamin na sua proposta sobre como ler o passado?

O passado é pessoal e intransmissível. Estados totalitários, e eu, infelizmente, entendo alguma coisa sobre estados totalitários, defendem, pelo contrário, um passado coletivo, grandioso, confeccionado à medida dos seus interesses. Para quem, como eu, viveu à sombra pesada e deformadora de um estado totalitário, a reação natural, quase instintiva, é a de reagir contestando esse passado oficial. Opondo a esse passado único, a esse pensamento único, "bem comportado", os pequenos passados das multidões ruidosas.

Você concorda com Ernest Hemingway, para quem o bom conto tem de ser como um iceberg: o mais importante da história não deve ser contado, deve ficar oculto bem abaixo da superfície da água?

Sim, sim, concordo. Gosto de elipses. Gosto de silêncios. Gosto do que fica por dizer. Um conto, para ser poderoso, para ser memorável, deve ter algo de animal noturno. Uma presença que você não compreende por inteiro. Um corpo na sombra. Mais uma vez, o importante não são as respostas - mas as interrogações.

A arte do conto foi desenvolvida por escritores notáveis. Arrisco apontar Chekhov e Carver como meus preferidos. E você?

Gosto das suas preferências, em particular Chekhov. Mas eu sempre fui borgesiano, sempre me fascinou essa coisa meio paradoxal, a concisão extrema, e um raciocínio quase matemático, ao serviço de um universo exuberante e mágico, do qual me sinto mais próximo. De resto, acho que os meus mestres, no conto, são todos latino-americanos: além de Borges e de Cortázar, que você citou há pouco, também Garcia Márquez ou o Rubem Fonseca. Nos últimos anos li contos do Roberto Bolaño de que gostei.

Não lhe parece impressionante o poder que a ficção tem de interferir na realidade e, até, de criar novas realidades?

Sim. Acreditar, como eu acredito, que um conto, ou um romance, pode transmitir inquietações, da mesma forma que um mosquito transmite a malária, é acreditar no poder transformador da ficção.

Ubiratan Brasil
Agência Estado

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.