Estreia

Afeto em tempos de descarte

Com "Na Praia à Noite Sozinha", o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo realiza seu filme mais íntimo

00:00 · 07.10.2017 por Diego Benevides - Crítico de cinema
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A atriz Kim Min-hee, premiada no Festival de Berlim com o Urso de Prata, estrela filme de Hong Sang-soo com traços autobiográficos do relacionamento que viveu com o diretor em questão

Hong Sang-soo tem um fascínio por aquilo que parece banal. Suas histórias nascem de propostas simples, que se desdobram de maneira espontânea em novas visões sobre as relações afetivas. Seus personagens, sempre atingidos por sentimentos difíceis de conduzir, são verborrágicos, mas ainda permitem que a imagem contemplativa fale por si.

Em "Na Praia à Noite Sozinha", seu mais recente trabalho lançado nos cinemas brasileiros, o cineasta invade sua própria intimidade ao contar a história de fuga de Young-hee, vivida pela atriz Kim Min-hee. Após se envolver com um diretor de cinema casado, ela busca retomar sua estabilidade emocional, embora existam coisas não resolvidas. O banal, na verdade, transforma-se em assunto escorregadio, já que o próprio Sang-hoo foi notícia nos jornais coreanos por ter tido um relacionamento extraconjugal com a própria Min-hee.

Sang-hoo, então, leva para a ficção sua versão dos fatos em uma obra dividida em dois momentos. O primeiro mostra a protagonista em rota de fuga pela Alemanha, que conversa com uma amiga sobre assuntos comuns, como relacionamentos, desejos e futuro. Não sabemos direito o que aconteceu entre ela e o tal diretor de cinema, mas a busca da personagem por um recomeço é evidente. A segunda parte mostra Young-hee de volta à Coreia, convivendo com pessoas comuns de seu cotidiano, sabatinada pelas circunstâncias decorrentes da exposição do caso amoroso.

Entre saquês e cervejas, Young-hee encontra força paras externalizar suas frustrações sentimentais. "Amor sufocante também deve ser descartável", fala em determinada cena. Ao contrário da artificialidade com que o cinema americano trata temas semelhantes, neste filme a relação entre os dois transita entre o desejo e a culpa, entre o erro e o acerto, entre o antes e o agora. A divisão em segmentos brinca com a percepção do público acerca de uma mesma história, coisa que Sang-hoo aplicou com maestria no excelente "Certo Agora, Errado Antes" (2015).

Sentimentos

O roteiro parte da fragmentação emocional da protagonista e dos personagens periféricos que a cercam para falar sobre o afeto, sobre o início das coisas. Sem tomar partido do adultério ou da santidade de seus personagens, o longa aborda os encontros sentimentais que acontecem, muitas vezes em contextos inesperados.

A ruptura de uma relação gera marcas, mas também faz com que as pessoas amadureçam. O futuro é algo constantemente questionado pela protagonista e a externalização de seus sentimentos é o catalisador de uma série de questionamentos propostos pela trama.

Como sugere o próprio título, "Na Praia à Noite Sozinha" também fala sobre solidão e isolamento, processos naturais de quem ainda está tentando superar um término. O grande acerto de Sang-soo é de não romantizar demais a dor da perda e dar aos personagens a chance de falar por eles mesmos. O roteiro ainda dignifica o papel das mulheres no filme, sujeitas a erros e que querem ser amadas, como qualquer pessoa, independente de gênero.

A interpretação de Kim Min-hee é fundamental para esse mergulho na persona complexa de Young-hee, tanto que a atriz foi reconhecida com o cobiçado Leão de Prata do Festival de Berlim.

É prazeroso ver o confronto entre sensibilidade estética e ferocidade verbal se assentar na tela. As paisagens pelas quais os personagens passam, outra marca do cineasta, são essenciais na construção da história e nada está ali por acaso. Até mesmo seus incômodos zooms sublinham gestos ou elementos importantes para a apreensão das cenas, como quando Young-hee se ajoelha para fazer uma oração à beira de uma ponte. O poder das imagens de Song-hoo é forte e suas narrativas não acabam quando sobem os créditos finais.

Com produção incansável, Sang-hoo encontrou uma forma pura de contar histórias aparentemente simples, mas que evidenciam a psicologia de seus personagens com beleza e honestidade. É fundamental conhecer suas obras anteriores para entender o que o estimula a fazer cinema, bem como seus modos de produção, que costumam agradar apreciadores do bom cinema contemporâneo.

Mesmo que "Na Praia à Noite Sozinha" funcione bem como obra única, ele também está inserido na filmografia de um diretor, que tem presenteado o público com experiências muito particulares, sendo sempre delicioso acompanhar as provocações que ele mesmo se faz entre uma obra e outra.

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