Samba

A volta do malandro

01:50 · 02.03.2012
( )
Moreira da Silva é considerado um dos grandes nomes da música brasileira de todos os tempos
Moreira da Silva é considerado um dos grandes nomes da música brasileira de todos os tempos ( )

O sambista Moreira da Silva tem seus primeiros LPs reeditados pelo selo Discobertas em duas caixas

Parece até uma ideia fixa: “O Último Malandro” (1958), “A Volta do Malandro” (1959), “Malandro em Sinuca”
(1961), “Malandro Diferente” (1961), “O ‘Tal’... Malandro (1962)”. Os primeiros lançamentos em LP do sambista Moreira da Silva exploram, sem pudor, o tipo do malandro, que terminou por virar sua marca registrada, seja nos trajes, nas letras de seus maliciosos sambas de breque.

O compositor e intérprete – que ao contrário da figura que vendeu, sempre andou dentro da lei, bebia pouco, não fumava e ainda que fosse mulherengo, passou mais de cinquenta anos ao lado da mesma mulher – ganha agora reedição de oito destes discos em duas caixas, reeditados em CD pelo selo Discobertas. Os quatro primeiros citados foram lançados em 2011 na caixa “O Último Malandro”. “O ‘Tal’... Malandro” soma-se a “O Último dos Moicanos” (1963), “Morengueira 64” (1964) e “Conversa de Botequim” (1966) para compor a segunda caixa da coleção, “O Tal Malandro”, lançada este ano.

Os discos foram remasterizados a partir das matrizes de gravação e trazem reprodução de capas e contra-capas originais, além do selo que acompanhava os vinis, relação de músicas e ficha técnica da primeira edição. Para as reedições, foram incluídas em cada disco músicas lançadas na época por Moreira da Silva apenas em compactos simples. Kid Morengueira, como era conhecido, viveu 98 anos, de 1902 ao ano 2000, produzindo intensamente desde os 30 anos, com o último disco, “Os três malandros in Concert”, lançado em 1995 em companhia de Bezerra da Silva e Dicró, os “três tenores do samba”. Antes, Moreira lançou cerca de 25 álbuns (entre CDs e LPs) e mais de 80 compactos em 78 rotações, o primeiro ainda em 1931, pela Odeon, com as músicas “Ererê” e “Rei da Umbanda”.

Daí por diante, até o fim da vida, não teve uma só década que ele não lançasse discos.

Filho do trombonista Bernardino de Sousa Paranhos, que pertencia à banda da Polícia Militar, ele descobriu a música nas serenatas e rodas de samba dos anos 20, convivendo com a nata da malandragem do bairro do Estácio, no Rio de Janeiro. O primeiro sucesso veio em 1933, com o samba “Arrasta a Sandália”, de Aurélio Gomes e Baiaco.

Músicas

Autointitulado o criador do samba de breque – formato de samba balançado, com sucessivas pausas instrumentais com contrapontos falados – ele tem nos quatro primeiros discos, da caixa “O Último Malandro”, uma boa mostra desta marca.

No disco “O último malandro”, mais antigo da série (antes dele, Morengueira havia lançado apenas o LP “O Tal!”, pelo selo Santa Anita, que ficou de fora das caixas, que incluem apenas LPs da Odeon), ele traz sambas de breques como “Que Barbada”, de Walfrido Silva e suas parcerias com Ribeiro Cunha, que narram divertidas situações por quais teria passado o malandro Moreira da Silva.

Figura central em todos os discos da caixa, o malandro aplica sua malícia e tira vantagem nos gramados de futebol, em “Pé e Bola”, nos filmes de Hollywood, “Filmando na América”, no Japão, “Fui ao Japão”, nas galerias de arte moderna da alta sociedade, com “O conto do pintor” e, é claro, no dia a dia carioca.

A malandragem é celebrada ainda em parceria com outro que fez dela sua marca, Wilson Batista (autor do hino “Lenço no Pescoço), que assina com Moreira “Esta Noite Eu Tive Um Sonho”. Dele também, “Acertei no Milhar”, juntamente com Geraldo Pereira, e “Averiguações”. Da segunda leva reeditada, o disco “Conversa de Botequim” é um capítulo à parte. Reunindo alguns clássicos do samba, nele Kid Morengueira foge um pouco do balanço do samba de breque. No repertório, compositores do início do século XX, como a música homônima ao disco, de Vadico e Noel Rosa; “Avisa Maria que Amanhã Tem Baile”, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, lançada na década de 1940; ainda “Homenagem”, do próprio Moreira, dedicada à Noel; e Piston de Gafieira, única lançamento já da década de 1950, de Billy Blanco.

O disco rendeu um artigo do cronista, compositor e pesquisador da música brasileira Sérgio Porto, também conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Publicado na contra-capa do original (e transcrito no encarte da reedição) o texto faz uma espécie de defesa da opção pelo repertório que, embora fuja do samba de breque, traz “lídimos representantes da fase áurea do samba” e alfineta experiências como a bossa-nova, que despontava na época agregando ao samba influência do jazz norte-americano. A reedição traz ainda três faixas bônus lançadas em 1965 em compacto e no LP “Carnaval 66”. Do LP, entraram “Leonora”, samba de Moreira da Silva e a marcha de carnaval “Ah! Se Eu Fosse Macaco”, de Jararaca e João Correia que, curiosamente, ganhou versão no primeiro disco de Babau do Pandeiro rebatizada por “Baracho” e com letra modificada. Uma inspiração, talvez involuntária, que rende boas risadas e dá pistas do sucesso que fez.
A caixa vem também com “Morengueira 64”, também com menos sambas de breque que o de costume, com pérolas como “Gilda”, de Erasmo Silva e Mário Lago, que traz a personagem oposta a da música “Ai, que Saudades da Amélia”, também de Mário Lago; e ainda a valsa “Vamos Dar Um Passeio” (de Salgado, Jaime Zulay e Roberto Muniz) e dois sambas canções do próprio Moreira, “Judia Rara” e “Mulher Má”, outro “Escravo do Amor”, de Aidran Carvalho e Paulo César Feital e até música de Lupicínio Rodrigues, “Cigana”.

BOX

O Último Malandro
Moreira da Silva

DISCOBERTAS
2012, 4 CDs
R$ 69,90

O Tal Malandro
Moreira da Silva

DISCOBERTAS
2012, 4 CDs
R$ 69,90

SAIBA MAIS

Box 1 - O Último Malandro

“O Último Malandro” (1958)
“A Volta do Malandro” (1959)
“Malandro em Sinuca” (1961)
“Malandro Diferente” (1961)

Box2 - O Tal Malandro

“O Tal... Malandro (1962)
“O Último dos Moicanos” (1963)
“Morengueira 64” (1964)
“Conversa de Botequim” (1966)

Fábio Marques
Repórter

ENTREVISTA

Moreira da Silva é fruto de contexto histórico

É possível falar em uma “cultura da malandragem” no Brasil?

Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil passou a achar uma boa ideia se representar em termos “nacionais”, valorizando tudo o que era diferente da Europa. Nesse contexto, coisas como samba, mestiçagem e capoeira passaram a ser valorizadas como “tipicamente brasileiras”. A malandragem entrou nessa onda.

Como a malandragem foi absorvida na obra de sambistas como Moreira da Silva?

Moreira da Silva é fruto desse contexto. Nunca teve, na vida pessoal, um perfil de malandro, apesar de boemia. Mas, ele foi percebendo que se apresentar como o rei da malandragem era interessante para o mercado.

Em que consistia essa figura do malandro?

Acho que o grande segredo dessa figura é sua polivalência. O malandro é um esperto, algo que pode ter uma conotação boa ou ruim. Assim, isso o permite aparecer em muitos contextos diferentes.

Tiago de Melo Gomes
historiador

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.