Ensaio

A túnica da senhora das trevas

00:00 · 22.11.2013

A derradeira estrofe endossa tal raciocínio. "Deus" é evocado como último apelo ao inevitável, ou pelo menos como busca de última resposta, não como pedido de salvação, de clemência para que se permaneça vivo, mas como elo transcendental entre um estado de profundo desinteresse pela vida e a religiosidade (as referências, no Romantismo, a figuras cristãs, mais caracteristicamente, católicas, não são raras). A morte aproximada leva o sujeito lírico a desejar que com ele possam ir seus "cândidos amores", já que a "triste mocidade" não os fez materializarem-se. O plano espiritual remedia qualquer perspectiva terrena, concreta, efêmera. A escolha de "estrela" retoma a referência ao ultrarromantismo, que ligado ao anseio de morte, configuram a última marca de libertação de todas as ausências existenciais, metonimicamente representados por "murchas flores".

A morte

Acentuando o sentimento de morte, "Se eu morresse amanhã" é um rico exemplo dessa temática, sob o viés de outra reflexão (Texto II)

Leitura do poema

Este poema foi escrito trinta dias antes da morte Álvares de Azevedo, com apenas 20 anos de idade, acometido pela tuberculose. A composição foi lida em seu funeral, o que contribui mais ainda para criar a área de poeta das desilusões, das dúvidas, do desconsolo da alma. Assim como em "Adeus, meus sonhos!", a temática da morte está presente nesta composição, sob outro viés de reflexão, mas mantendo a ânsia de morrer romanticamente. Aqui são feitas, pessimistamente, referências aos entes familiares de maior apreço do sujeito lírico que, embora uma invenção, não se pode negar que com a vida de um jovem prestes a morrer tem estreita relação. A "mãe", a "irmã", que num quadro fúnebre seria a responsável por fechar-lhe os olhos. Tanto se pode entender que em o verso 3 significa uma hipérbole quanto se pode entender como um fato real, físico, isto é, a mãe morreria.

Segundo movimento

O eu lírico ratifica, na segunda estrofe, contraditoriamente uma visão de futuro, uma "glória" que não será alcançada. As referências às palavras que semanticamente apontam para claridade, para a vida, como "manhã", "sol", "azul", apoiam-se na contradição do espírito do sujeito lírico que, sabedor da proximidade da morte prematura, parece sublimar a escuridão, o que não consegue, pois, finalizando todas as estrofes "Se eu morresse amanhã!" surge como um eco fatal, prestes a consumar-se. É importante notar, embora com a ressalva de não necessariamente partir para um biografismo gratuito e igualmente idealizador da análise, que o penúltimo verso do poema age como uma ambiguidade: "A dor no peito emudecera ao menos".

Considerações finais

Torna-se lício apontar este verso como ambíguo na medida em que tem uma significação ligada à unidade do poema, isto é, ao conjunto de lamentos e certezas que farão com que a existência sucumba todas as possibilidades de "porvir" e que a morte fará com que essa "dor" de existir finde-se, quanto também pode significar uma relação com a própria vida de um poeta tuberculoso, que sente fisicamente as consequências de um mal sem curso, dores que lhe faziam sucumbir organicamente.

E assim foi que, de fato, muito jovem faleceu o maior talento da segunda geração do Romantismo brasileiro, ligando os elos de um "Amor" para alguma "Ela!" e dando "Adeus" aos sonhos, que realmente morreram naquele "amanhã", mas que reverberam ainda hoje, e, com certeza, sempre. (T. L. B)

Saiba Mais

AZEVEDO, Álvares de. Lira dos Vinte anos. São Paulo: FDT, 1994.

BARBOSA, Onédia. C. C. Byron no Brasil: traduções. São Paulo: Ática, 1974.

.ROCHA, Hildon. Álvares de Azevedo: anjo e demônio do romantismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.

Trechos

TEXTO II

Se eu morresse amanhã, viria ao menos /Fechar meus olhos minha triste irmã; /Minha mãe de saudades morreria /Se eu morresse amanhã!///Quanta glória pressinto em meu futuro! /Que aurora de porvir e que manhã! /Eu perdera chorando essas coroas /Se eu morresse amanhã!///Que sol! que céu azul! que dove n´alva /Acorda a natureza mais loucã!/Não me batera tanto amor no peito/Se eu morresse amanhã!////Mas essa dor da vida que devora/A ânsia de glória, o dolorido afã.../A dor no peito emudecera ao menos /Se eu morresse amanhã!

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