Ensaio

A transfiguração do real no imaginário

00:00 · 24.01.2014
Seja pelo apelo sensorial ou pelos processos metonímicos, sua poesia cria imagens, exala odores, abre fendas na imaginação do leitor. Nas que se seguem, os sentidos são aliciados pelo seu canto: (Texto III)

Os verbos, portanto, denotam ações de procura, como se lê em "Escaninhos" (p.11), cujo sujeito poético denuncia que seu amor anda a "vasculhar", "garimpar", "farejar", "fustigar" seus "escaninhos", suas "grutas", suas "conchas", "trilhas e tramas". É a saudade que se faz poesia e se materializa nas ´cenas´ prenhes de conotações sensuais: "Andas... a garimpar relíquias ocultas nas grutas / Onde dedos, abrindo conchas, catam pérolas."

Recursos expressivos

A sutileza com que se fala do ato amoroso mostra a capacidade criativa de Hermínia Lima, conhecedora das teorias literárias, mas nem por isso menos lírica e mais técnica; ao contrário, ela utiliza recursos estilísticos de forma consciente, mas sem perder a sensibilidade e a capacidade de transfiguração do real no imagístico, de forma sensível e apurada. Os apelos sensoriais constantes vivificam as ´sugestões e dão consistência ao que, por si, é abstrato, intangível: (Textos de IV a VII)

As sinestesias reiteram as imagens, confirmando a ideia de que "os sentidos são instrumentos especiais do nosso corpo para que o espírito entre em contato com as realidades que nos cercam como a música, o amor, o prazer" (Mª José Zanini). O cruzamento dos campos sensoriais, de fato, aparecem como um exercício de sensibilidade, aguçando os sentidos do leitor com as diversas sugestividades, que, inusitadamente, ganham carnação ao apelarem sempre para os lances corpóreos: (Textos VIII a XII) E, assim, entre cores, sons, toques e odores, constroem-se metáforas para celebrar, de modo intenso, a beleza do amado e utilizam-se os deuses gregos como referência do belo e do prazeroso.

Singularidades

Mesmo quando ausente, o amado corporifica-se na saudade que vira verso. Os verbos "beber" e "sorver" quebram a possível ´serenidade´ das lembranças e, até nela, o amado é razão de posse: (Texto XIII)

O ritmo dos versos é perene, pois a musicalidade é reforçada no insistente uso de aliterações e assonâncias, marcando o movimento do texto que, na maioria das vezes, constitui-se no próprio ritmo dos corpos amantes: (Textos XIX a XVI)

Nessa trilha de sonoridades e movimentos, o sujeito poético chega a comparar a dança - o tango, que tem ritmo e cadências extremamente sensuais - ao ato amoroso. Vejamos o percurso: (Texto XVII)

Sem desvencilhar-se da celebração do amor, Hermínia faz, ainda, reflexões metalinguísticas e, até nesse viés, por vezes árido na criação de alguns poetas, ela reflete seu ´relacionamento´ com a criação como com a própria pele; o ato amoroso se transfere para o papel, como se, ela, a poeta, fizesse amor com as palavras, como a mulher faz com seu homem:(Texto XVIII)

Considerações finais

Sem comedimento com a linguagem, embora sem ser literal, o eu-lírico descreve o clímax do ato amoroso, de forma visceral e intensamente pulsante: (Textos XIX e XX)

O erotismo está na própria tensão dos versos, na escolha de cada palavra, no ritmo das aliterações constantes, das sinestesias inesperadas, com a beleza do que não é velado, mas é sutil, na ideia que a poeta tem do amor como um sacramento, e da cama um "altar de linho" - uma bela metáfora que diz muito sobre a capacidade de transformar ato em palavra e vice-e-versa. Hermínia Lima é o nome da poesia sensual no Ceará - erótica, por que não dizer - porque ela coloca o sexo como estro dos seus versos.

Trechos

TEXTO III

Eu senti / O acelerar do fôlego / Trôpego como quem agoniza, / Quando sentiste o meu cheiro. /// Eu recebi / A oferenda das mãos atrapalhadas, / Indecisas, como quem peca / Roçando a pele do meu vestido. ("Prelúdio p. 10)

TEXTO IV

Andas a farejar raros odores e cores deste colo" ("Escaninhos" p. 11)

TEXTO V

O corpo, em ansiosas ventosas abertas, / Caça o cheiro que te anuncia ("Doação" p.13)

TEXTO VI

Quando houver, / Os poros exalarão perfume e néctar e inundarão / Em festa, as fendas. / Quando um dia... / Os corpos, em primavera, abertos e perfumados / exalarão campos e cheiros. ("Quando" p. 14)

TEXTO VII

Saltam saltos entre perfumes / E o linho se comprime (Tango" p. 39)

TEXTO VIII

A carícia roçava o tímpano / Sem tocar a pele... / E a pele ouvia a voz aviolada. / O cheiro de café clivava o perfume / Entre dois corpos... ("Ocaso" p. 18)

TEXTO IX

Na distância entre os corpos, faíscas cortavam o ar, / Enquanto raios azuis zuniam pela possibilidade nascida. / ("Encantamento" p. 20)

TEXTO X

As dríades me trarão das matas a maciez do verde / E o frescor perfumado das selvas ("Espera" p.23)

TEXTO XI

Crucificada estava / Sobre a brancura áspera do lençol ("Posse" p. 53)

TEXTO XII

O vermelho toca e tinge a tarde /.../ A noite vem e varre o rubro temporal. ("Tempestade" p. 65)

TEXTO XIII

Bebendo as imagens que consegui aprisionar da tua nudez / Sorvo-as em lentos e longos goles. / Embriago-me. ("Encontro" p.37)

TEXTO XIV

(Poemas pulam entre pernas / e pousam cansados) / ("Altar" p. 24)

TEXTO XV

Enquanto canto,/ Encanto. /// O canto, à cata, / Acha, em um canto, / Estrelas / E a cata / Para o ato. ("Sereia p.57)

TEXTO XVI

Fujo do real./ Fujo e forjo. /// A falta fincada é fato / Que enfraquece / Esfria e desfalece. / Só o sonho fortalece. ("Desejo" p. 28)

TEXTO XVII

O fim. / O começo. / A caça, / Os braços,/ As bocas, / Os beijos, / Os gritos, / A luta, / A glória. / Descanso. (Tango p.39)

TEXTO XVIII

Em busca desse toque, / Gazela, salto sobre o papel, seguindo as rápidas passadas do texto/ Amazona, caço as palavras cavalgando em pautas dissolutas, / No desespero alegre de mãe / Ante o momento do parto. / Na doce ansiedade das virgens / Ante a posse anunciada/// Enquanto devoro imagens / Sinto a carícia terna / De sons e significados / Que explodem em orgasmos / De pele e de palavras. ("Divindade" p. 70)

TEXTO XIX

Nesse cárcere, ungida com o teu sêmen, / Liberto-me num grito, / Encimando-me sobre a tua fortaleza ("Passagem" p. 16)

TEXTO XX

Bebendo o sorriso que se derramava, / Um beijo leve agradecia o vôo. ("Nirvana p.38)

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.