HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

A traição da literatura

00:49 · 14.03.2009
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Adaptações de obras da literatura para os quadrinhos voltam a interessar editoras que trabalham com o público juvenil

Na primeira década deste século, as histórias em quadrinhos seguem sendo um dos filões mais explorados pela indústria do cinema norte-americano. O casamento entre estas duas linguagens demorou a se concretizar, contando por quase um século de namoricos ocasionais. Se hoje ele se mostra sólido, é porque a compatibilidade é grande. O cinema e os quadrinhos são resultado de experiências que se intensificaram na segunda metade do século XIX. Surgiram pra valer na virada para o século XX e, tradicionalmente, trabalham com narrativas por meio de imagens.

No entanto, ainda hoje, este parentesco passa despercebido. Sem alcançar a legitimidade como linguagem de produção artística, tal qual o cinema, a duras penas, alcançou, as HQs tentaram negar suas origens. Procuraram estabelecer uma relação de parentesco que lhe conferisse uma origem mais nobre. Para que lembrar suas origens, ligadas aos meios de comunicação de massas (a imprensa e o cinema, notadamente), quando se podia ser herdeiro da literatura. Ou ainda, como preferem certos entusiastas das HQs, sustentar que eles não são outra coisa senão um tipo de literatura.

Este complexo de primo pobre, transformou a relação literatura-HQ numas das mais problemáticas experimentadas pelos quadrinhos. As conseqüências puderam ser sentidas mesmo no imaginário de artistas. Não foram poucos os autores que, ao se estabelecer no meio dos quadrinhos, migraram ou foram passear nos campos da literatura. Os ingleses Alan Moore e Neil Gaiman, bem como o brasileiro Lourenço Mutarelli são exemplos desta tendência.

Os resultados são irregulares: Mutarelli se firmou como um dos bons prosadores do momento; já Neil Gaiman oscila entre o brilhantismo nos quadrinhos que escreve e uma literatura de entretenimento redondinha, mas nada extraordinária.

Adaptações

O cinema costuma beber dos quadrinhos com freqüência. Estes pouco retribuem. A fonte privilegiada, desde a primeira metade do século XX, é a literatura. Nos primórdios da indústria americana dos “comix” havia um flerte aberto com as publicações pulp, que trazia “prosa descartável” (só depois elevada ao status de cult).

O namoro com obras da “alta cultura” se deu um pouco mais tarde. E, aí, pode-se ter uma dupla explicação. De um lado, os quadrinhos se aproximavam da literatura e, dela, adquiriam um pouco da legitimidade artística que lhe faltava; de outro, havia o interesse dos editores de se esquivar da crítica aos gibis, por muito tempo tidos como verdadeiros corruptores dos jovens leitores.

Tradição retomada

O resultado disso foi uma produção bastante irregular, tanto no Brasil, como no exterior. Tirando umas poucas adaptações felizes - como uma antiga versão de um romance de José de Alencar, “Iracema”, feito por André Le Blanc; e o “Moby Dick”, de Will Eisner - a maioria se limitava a simplificar o texto, substituindo descrições por desenhos. Depois de uns anos sem fazer a cabeça dos editores brasileiras, as adaptações de obras literárias para os quadrinhos voltaram de vez. Duas editoras tem dedicado muita atenção ao segmento - a Escala Educacional e a Companhia Editora Nacional. Em ambos os casos, o público alvo é o infanto-juvenil.

A escolha, ao que parece, não é das melhores. “Dom Quixote”, “O triste fim de Policarpo Quaresma” e “Memórias póstumas de Brás Cubas” repetem, em maior ou menor escala, os cacoetes das velhas adaptações da época da perseguição às HQs.

Os textos de Lima Barreto e Machado de Assis não vão muito longe na mão das respectivas equipes de quadrinhistas. Ao invés de recriarem as obras originais, se valendo dos recursos da mídia anfitriã, os autores se limitam a fazer um resumo da história. As páginas são carregas de texto. Balões e caixas de texto chegam a ocupar mais espaço que as ilustrações dentro dos quadrinhos.

Melhor se sai Bira Dantas, com “Dom Quixote”. Trata-se de uma versão comportada que ousa em dois pontos: ao incluir o próprio Miguel de Cervantes como narrador personagem, que dialoga com o leitor; e a dar ao desenho um peso autoral, próximo a tradição do quadrinho underground brasileira, que casa bem com a sátira do livro.

DELLANO RIOS
Repórter

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