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A tradição renovada

02:34 · 27.02.2004
( Divulgação/Chico Gadelha )
— Mas além dessa ajuda de distribuição, você avalia que o público gaúcho valoriza mais aquilo que ele mesmo produz, em termos de cultura?

Borghetti — O diferencial que eu noto é que, talvez a exemplo da Bahia, o pessoal no Rio Grande, além de todas as influências que vêm do Brasil inteiro e da música de fora, tem também um nicho, uma coisa muito forte ali, da cultura regional. Assim como na Bahia, que também tem muito disso, tem artistas que são da Bahia que vendem muito lá, mas que são desconhecidos em outros estados do próprio Nordeste. No Rio Grande do Sul, tem nomes superfamosos, que já não são conhecidos em Santa Catarina, no Paraná. Mas tem público pra todo tipo de música. O Gonzagão, por exemplo, fez muitas turnês no Rio Grande.

— Em nenhum momento você passou por conflitos entre esse lado da música nativista, de raíz, e outras influências, mais regionais?

Borghetti — No início sim. Até porque tem aquela coisa, mais novo, de querer convencer meio na marra. Então no início a coisa foi um pouco complicada. Mas não aconteceu de criar um atrito muito grande. O que se tinha era um certo receio de modificar o tradicionalismo, mexer na música folclórica. Mas convivi muito nesse meio da música de raíz, antes mesmo de tocar. E não estou inventando alguma coisa com essa música, com a intenção de fazer uma novidade só pro consumo, não. O que eu faço é totalmente espontâneo, pelas influências que tive, não só musicais, mas pelas vivências de campo, de lida com animas, que fazem a base da música folclórica gaúcha. Então, nunca quis me aproveitar de uma cultura já existente. A minha música veio como conseqüência desse vivência. Mas que houve um período mais nervoso, houve sim. Agora, isso passou, tanto que hoje, quando tem algum evento importante dessa turma do nativismo, eles me convidam, e eu vou. É uma convivência hoje harmoniosa. Assim como tenho um trabalho grande lá com orquestras, que no início também foi meio complicado, “o erudito com um cara de folclore”. E hoje é o contrário, a gente toca direto, e é muito bem aceito.

— Você já foi chamado a se apresentar em vários festivais de jazz. O que exatamente no seu som você acha que chama a atenção desse público jazzista?

Borghetti — Acho que a forma que eu toco. Na medida que tenho como opção fazer um trabalho de folclore, não é por isso que tenho que fazer uma coisa simples. O folclore pode ser complexo. Como também pode ser simples e bonito. O que chama atenção, acho, primeiro é a identidade da música, que não quero perder nunca, essa raíz. Depois o instrumental (música não-vocal, sem canto), que me facilita muito. Não existe a barreira do idioma. E claro, a forma de concepção, de tocar. E, no meu trabalho, o improviso é o mais próximo do jazz, já que eu não faço jazz. Mas o improviso é um elemento de proximidade.

— Há também uma proximidade entre a música nordestina e a música folclórica, a música gaúcha, de um modo geral?

Borghetti — Acho que tem muito mais semelhanças do que diferenças. Há muitos anos gravei com Luiz Gonzaga, a convite dele, um ano antes de ele falecer. Foi uma coisa muito importante pra mim. Toquei também com Dominguinhos, Sivuca, Hermeto, Zé Calixto... Talvez, além dessas coisas culturais, vejo que a sanfona, a gaita, é o elo mais forte, o maior elo. É supertocada aqui e lá também, nas músicas folclóricas, aonde quer que você vá.

— Mas o forró aqui sofreu um processo de industrialização, tanto que hoje em grande parte se descaracterizou, é bem diferentes das formas tradicionais. Em relação à música tradicional gaúcha, houve algo parecido?

Borghetti — No Rio Grande do Sul, tem a tchê music, que tentou fazer uma coisa em nível nacional. Ficou uma coisa mais regionalizada, mas é muito forte lá. Eu tenho opinião que tem que deixar tocar. Alguns músicos até me convidaram pra tocar em eventos deles, tipo pra apadrinhar. Não vejo problema nenhum. Até porque são músicos muito bons, individualmente. Talvez eu não goste muito da concepção, da idéia, mas são tudo gurizada nova. E tocam muito bem.

— Como estão os trabalhos para o próximo disco?

Borghetti — Depois do “Paixão no peito” (2002, ainda fiz um disco na Europa, onde a gente tem feito bastante coisa. Gravei lá um disco chamado “Ao vivo em Viena”, e a gente teve até um lançamento em circuito fechado, no Rio Grande do Sul. Mas agora em março estamos subindo de novo pra lá, pra gravar de novo na Áustria, desta vez em estúdio. O público de lá recebe bem esse tipo de música. Estou indo pra tocar o encerramento do festival de acordeon de Viena, agora 19, 20 de março, e aproveitando a ida fazemos a gravação. (DM)

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