Ensaio

A tessitura poética de José Telles

23:58 · 08.03.2013
A leitura de “A silhueta das areias”, do poeta José Telles, descortina um discurso que vai, de modo firme, em direção à maturidade estética

O poema de abertura “Entardecer” é composto por três estrofes assimétricas, com o metro livre, em versos predominantemente brancos, apenas tingidos por rimas ocasionais: (Texto I)

Leitura do poema

O primeiro verso “Estou ilhado de mortos” aponta uma constatação desoladora – a lâmina inexorável da morte a ceifar, aqui e alhures, os que são caros ao eu lírico; se este, por sua vez, encontra-se “ilhado de mortos”, é porque a ausência da matéria cristaliza ainda mais a imagem dos que se foram; e, assim, estes, em seu inefável silêncio, tomam conta de gestos e de pensamentos. Há, ainda, os que habitam a ante-sala da morte: “Adolfo”, sob a ameaça da longevidade; “Lana”, corroída por um câncer.

Na segunda estrofe, as aproximações sonoras dos termos “André” e “pé” tingem o poema com notas de humor negro. No segundo verso, o que ganha relevo são as elipses mentais, ordenadoras da mensagem, pois, a ausência do léxico verbal abre caminho a uma polissemia: teria “Elvira” também “amputado” um “tumor de ovário” ou estaria por este sendo invadida? Considerando-se a natureza circular da morte, com suas escolhas aleatórias, “Sérgio” percorre a mesma estrada que “Adolfo”. No último verso, “Helena” quebra a atmosfera geral que envolve a composição, implicando outra natureza de perda: o abandono pela poesia.

Na última estrofe, a vida, com sua sucessão de perdas, substitui a imponderabilidade da morte; é o momento em que o eu lírico depara o grotesco, incrustando em si a consciência de que no mundo nem as coisas nem os seres estão em plena harmonia: a loucura tomou conta de “Jonas”; não existem notícias de “Darília” nem de “Romeu”; e o Rui, indo “morar em Brasília”, optou pela fuga espacial, como perspectiva de mudança, mas, “ao lado do aeroporto”, continua entregue às lições de partir.

Jogos simétricos

Inúmeros são os poemas que, antes de sua leitura, já chamam a atenção por conta dos recursos formais. É o caso, por exemplo, de “Piano orvalhado com a solidão caseira”, cujas estrofes apontam a presença de dois movimentos, numa alternância entre pausas breves dos dois primeiros versos e o ritmo prolongado do terceiro: (Texto II)

No primeiro movimento, a metonímia “ouvir um piano”, como extrema necessidade, supõe um acordo da alma com o corpo. Quanto à construção do texto, imprime-se um curioso recurso: o deslocamento da inicial indeterminação de “um piano” para a determinação incisiva: “aquele piano”, pois, o que é empós enfatizado, é a sua associação com a transgressão, já que possui complacência com “as coisas proibidas”. Na última estrofe, os versos insinuam uma transfiguração, a partir da sugestão não de um “piano” enquanto instrumento musical, mas, sim, de um “corpo”, esclarecendo que, em verdade, é deste que se evolam as modulações; a música advém da própria mulher, da “paisagem” em que se misturam os elementos.

O paralelismo

José Telles é poeta de intrigantes recursos expressivos; consegue uma harmonia entre a forma dos poemas e suas respectivas mensagens. Vejam-se, então, os jogos de armar do emprego consciente do paralelismo sintático em “Choro por aqueles”: (Texto III)

O título do poema “Choro por aqueles” funciona também como o primeiro verso e se estende às demais estrofes. A princípio, o eu lírico alude a elementos configuradores da vida nas cidadezinhas do interior, onde a voz do “sino” – como um cronômetro coletivo – ordena o digladiar-se entre as forças da vida e da morte; depois faz referências ao contato livre com a natureza, quer nos banhos nas “lagoas”, quer nos movimentos da “chuva”, pois, esta, vinda do céu, fertiliza a terra e, sendo filha das nuvens pesadas e da tempestade, comporta em si os símbolos do fogo – pela ação dos relâmpagos – e da água, com toda a carga de renovação.

Mais um movimento

A segunda estrofe aponta como fundamental, enquanto riqueza da existência, o encontro do ser com as configurações de seu passado, representadas pela metáfora “mares avoengos”, bem como o ato de guardar a imagem da “lama generosa dos salgados” – metonímia da colheita árdua da sobrevivência diária; por fim, a ideia de que é mister percorrer o “labirinto das luas”, isto é, entregar-se ao devaneio, ao sonho, entrelaçando ao duro cotidiano o tecido da fantasia.

A imperiosidade de quebrar regras, de ir de encontro às ordenações que procuram regular a vida social, bem como os artifícios que brotam das relações humanas são a preocupação temática da terceira estrofe. É mister tirar do “rio” a “paz”, da mesma forma como é preciso, de quando em vez, iludir-se a si mesmo, bem como servir-se também das máscaras sociais.

Um tom de ironia, quase deboche, toma conta da quarta estrofe: “que nunca foram sagrados virtuosos coroinhas”. Antes, o sujeito da escrita lamenta a punição indelével de uma “infância apressada”, pois esta condena o ser à perda da fruição; e, por outro lado, ressalta a inutilidade de um mergulho profundo no “vazio das lembranças”.

Na última estrofe, a nota transgressora reaparece com “o estilhaço da pedra na vidraça”; há, ainda, um resgate do sadismo que palmilhava a infância dos tempos já idos, a partir do “fremir da palmatória”; o poema se fecha com uma intertextualidade com Machado de Assis, recuperando uma passagem do capítulo “O menino é o pai do homem”, de Memórias póstumas de Brás Cubas, em que o protagonista se reconhece um verdadeiro “Menino diabo”.

Trechos

TEXTO I

Estou ilhado de mortos / o Adolfo quase 100 anos / a Lana um câncer de mama. /// O André amputou o pé / a Elvira um tumor de ovário / o Sérgio é nonagenário / a Helena nunca mais fez um poema. /// O Jonas enlouqueceu / ninguém sabe que fim levou a Darília / e nem notícias do Romeu / o Rui foi morar em Brasília ao lado do aeroporto.

TEXTO II

Precisamos de algum tempo / para ouvir um piano / – aquele piano complacente com as coisas proibidas. /// Não preciso sequer / tocar tuas entranhas / dá-me apenas a paisagem de teu corpo para ser aplaudida.

TEXTO III

Que nunca tocaram o sino plangente das igrejas / que nunca se despiram no ventre das lagoas / que nunca dançaram no solo monacal das chuvas /// Que nunca navegaram em mares avoengos / que nunca pisaram a lama generosa dos salgados / que nunca se perderam no labirinto das luas /// Que nunca desafiaram o rio em sua paz / que nunca tiveram a ilusão de ser saudade / que nunca mentiram entre juras e jamais /// Que tiveram a infância apressada como o dia / que perderam a inocência no vazio das lembranças / que nunca foram sagrados virtuosos coroinhas /// Que não fruíram o estilhaço da pedra na vidraça / que não tremeram ao fremir da palmatória / que não cresceram como as magnólias e os gatos.

FIQUE POR DENTRO

Breve retrato do artista

José Telles nasceu na vila de Bitupitá que lhe serviu como a primeira professora de paisagem. Não à toa, em sua poesia, as imagens marítimas são recorrentes, da mesma forma como as fontes do passado estão sempre abertas às diversas possibilidades temáticas. O seu livro anterior, também de poemas, “O solo das chuvas” recebeu o Prêmio Osmundo Pontes – um dos mais cobiçados pelos escritores cearenses. É membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames – CE); da Academia de Letras e Artes do Nordeste – CE, de que já foi, por dois mandatos, presidente; e da Academia Cearense de Letras.

CARLOS AUGUSTO VIANA
Editor

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