Ensaio

A tessitura de uma ficção

01:19 · 18.05.2013
Anselmo, já velho, chorava, rezava, tinha pesadelos terríveis, não dormia à noite. Para completar seus tormentos, outros problemas também perpassavam constantemente sua mente: o fato de estar ali esquecido naquele lugarejo tão pobre, totalmente desconhecido, enquanto outros antigos colegas de seminário tinham ido para as grandes cidades e até mesmo para o exterior. Padre Anselmo sempre fora estudioso e havia se destacado em sua fase de seminarista. Por que estava se acabando tristemente daquela forma?

Uma preta velha que ajudara na sua criação ainda o chamava de "menino" e tomava conta de suas roupas, de sua alimentação, de sua casa. Quando o padre estava muito deprimido, fazia-lhe um chazinho, dava-lhe conselhos como se fosse sua própria mãe - embora, completamente analfabeta, nunca tivesse lido um livro sequer e o padre, ao contrário, sempre tivesse sido leitor de grandes autores, sendo seu livro de cabeceira A imitação de Cristo - que consultava a todo instante e a qualquer pretexto

Imagem reiterada

Na novela Longa é a noite, também havia a figura boa de uma preta velha que velava o rapaz e cuidava dele com o maior carinho. Normalmente, essas funções são executadas por uma mulher, embora Tolstói, em seu belo livro A morte de Ivan Ilitch, tenha conferido esse papel a um homem - um campesino forte e musculoso que tratava do senhor com total paciência e desvelo, enquanto a esposa e a filha desse senhor se ocupavam com uma intensa vida social. Ivan Ilitch, em suas meditações, e em meio às terríveis dores de uma grave doença, considerava que suas dores morais eram muito mais intensas que suas dores físicas.

O livro A vinha dos esquecidos trata, também, de outro problema ligado ao clero: o segredo da confissão. A tal ponto o padre era fiel à igreja, que jamais pensou em violar um segredo horrendo que guardara durante anos e que também lhe aumentava a culpa por sentir-se (de certa forma) cúmplice de um hediondo crime acontecido, há muitos anos, no lugarejo: uma menina havia sido violentada e, depois, esganada, por um importante homem do lugar. Só que ele não assumiu a autoria, jogando as suspeitas em um inocente pai de família, que ficou preso durante anos, até que, muito mal de saúde, teve que sair para o tratamento, sem saber se voltaria depois. E o Padre Anselmo sabia de todo o problema através da confissão e, insistentemente, instigava o verdadeiro assassino, com argumentos irrefutáveis, a entregar-se à justiça, sem obter resultado. Por conta do que acontecera no passado, Padre Anselmo não criava bichos em sua casa, desvelando-se, porém, no cultivo das plantas: (Texto III)

Jogos textuais

Ao lado da via-crucis do padre, em narração paralela, o livro aborda trechos da vida do negro Zacarias. Essa narrativa em encaixe, em que trechos vão-se alternando, ora da vida de uma personagem, ora da vida da outra, requer uma técnica narrativa afinada, para não embaralhar os fatos, a caracterização das personagens e as dimensões espaço-temporais, num jogo textual em que situações são suspensas - para manter o interesse do leitor - e mais adiante retomadas, assemelhando-se à técnica da novela moderna. Trata-se de um recurso cinematográfico adaptado à literatura que emprega algumas de suas estratégias, como o flash-back, o flash-forward, o escurecimento e a iluminação da cena, a câmera lenta, o close, os constantes cortes, dentre outros. O nouveau Roman deve muito à nouvelle vague, movimento surgido no cinema, entre 1950-60, em países europeus, como Itália, França, Espanha, quando despontaram grandes mestres da imagem, como Fellini, Antonioni, Visconti, Godard, tendo como principal representante no Brasil o cineasta Glauber Rocha.

Voltando ao núcleo narrativo de Zacarias, vemos que o foco principal é o problema da prostituição. As moças se prostituíam desde cedo e a mãe de Zacarias foi uma dessas vítimas. Desde menino, Zacarias tinha o sonho de tirar a mãe daquela vida. Começou logo a trabalhar duro, tendo que abandonar os estudos, com a satisfação, contudo, de poder levá-la para viver em outro local, numa rua respeitável, ambiente bem familiar.

A prostituição

O grande motivo dessa situação tão penosa era a falta de opção para as mulheres: analfabetas, não conseguiam emprego nas fábricas ou no comércio local - que ofereciam oportunidades bem restritas. Casamento também era outro problema, uma vez que os homens viviam desempregados, eram bem chegados a uma bebida, enfim, não tinham estrutura para organizar e sustentar uma família. Esse problema da prostituição nos remete ao livro Lucíola, de José de Alencar. A poderosa "sultana de ouro" do Império, como a chamava o escritor, teve os homens da Corte aos seus pés, mas abandonou essa vida de luxo e de luxúria para viver um grande amor com Paulo, um modesto rapaz vindo do interior para estudar na Corte. Como Alencar não abria concessão para a honra da moça, Lúcia é também uma mulher vitimizada pelo destino. Quando criança, houve uma grande epidemia que matou muitas pessoas de sua família e ela, desesperada, foi levada por um senhor que prometeu ajudá-la. Lúcia salvou a família, mas se prostituiu e o pai, ao saber dos fatos, enxotou-a de casa. Sua virtude reaparecerá na irmã mais nova, que ela colocou num internato e cuidou com grande desvelo de sua educação. Certamente irá casar e tentar reabilitar a honra da família.

Recursos expressivos

Assim acontece com a mãe de Zacarias, que se torna uma senhora respeitada por todos e cuida da casa e do filho com orgulho. Através do recurso do flash-bach nós nos inteiramos desses fatos, mas o presente da narrativa já indica uma tragédia: a morte da mulher e todo o sofrimento de Zacarias que sonha em se casar com Maria- mocinha recatada que trabalha na fábrica - mas acaba, inesperadamente, enredado por uma prostituta. Revê toda a história da mãe e põe fim a esse caso, vendo que há possibilidade de a história nefasta da mãe repetir-se na vida dele. Como se trata de uma pessoa honesta, trabalhadora e sensata, o final aponta para uma reconciliação de Zacarias com Maria.

Dessa maneira, a análise estrutural e temática dessa narrativa aciona dois tempos diferentes, de acordo com os estudos de Todorov, um dos grandes mestres da escola dos Formalistas Russos: O tempo do enunciado - em que fatos do passado são narrados, e o da enunciação - um tempo constantemente presente, em que ouvimos a voz do narrador, tecendo considerações, alegres ou amargas, sobre as etapas de sua vida. Observamos que a voz do narrador está sempre enredada a outras vozes - lembranças e ecos do passado - e que, ao final, temos uma multiplicidade de vozes que impulsionam o discurso narrativo, tornando-o um discurso polifônico.

Duas faces

No livro O direito de sonhar, Bachelard afirma que a sensação de plenitude e de alegria tem curta duração na vida das pessoas, uma vez que na "verticalidade" está contida a possibilidade de "queda". Por isso, ele declara que a "verticalidade nos esquarteja", pondo em nós, ao mesmo tempo, o alto e o baixo. Dessa forma, apercebemo-nos que, para o filósofo, o bem e o mal, o alto e o baixo estão intrinsecamente ligados e são, nitidamente, causa recíproca um do outro. O dia-a-dia trará sempre de volta esse "combate" e, se fizermos um balanço das metáforas de "ascensão" e de "queda" presentes no discurso literário, não deixaria de surpreender-nos o número muito maior dessas últimas, uma vez que o medo de cair é um medo primitivo.

Essa imaginação inconsciente constitui o elemento dinâmico dos nossos medos do dia-a-dia, como o da escuridão, o de encontrar pessoas, o de não conseguir apoio, etc, como uma variante do medo de cair. À menor regressão, trememos com esse medo infantil e nossos próprios sonhos, enfim, conhecem quedas vertiginosas em abismos profundos e insondáveis.

Considerações finais

João Clímaco inovou, nos dois textos citados, quanto à forma e a estrutura da narração: no recurso da alternância dos núcleos narrativos deixou o enredo mais instigante à leitura, proporcionando um desfecho aberto a muitas possibilidades, embora o narrador sugira uma escolha e aponte também para ela.

Sendo o seu romance marcadamente social e humano, os indivíduos são tipos que perdem a sua identidade, aparentando-se com tantos outros tipos semelhantes, que nascem e vivem em pequenos lugarejos desprovidos de leis, educação e saúde, lugar ainda regido pelo padre e suas carências e por flagrantes injustiças causadas pelo desnível social e cultural em que o povo está inserido - fato que o obriga a obedecer cegamente aos chefes e patrões, embora já apareça uma luz no fim do túnel: um dos empregados da fábrica tem a esperança de convencer os colegas a constituir um sindicato que os ensine a defender seus direitos como trabalhadores. As narrativas analisadas são marcadas pela circularidade: os enredos nem sempre avançam, mas estabelecem círculos concêntricos através das idas e vindas da memória, das repetições dos mesmos pensamentos e questionamentos (o que é um procedimento literário mais afeito à poesia), revelando idéias fixas que escavam sem cessar a matéria interior das personagens, impossibilitando que as histórias culminem num desfecho catártico. (V. M.)

SAIBA MAIS

BACHELARD
, G. O Direito de Sonhar. Rio de Janeiro: DIFEL, 1989

BOURDIEU, P. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

COMPAGNON, A. O Demônio da Teoria: Literatura e Senso Comum. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999

MAINGUENEAUX, D. Novas Tendências em Análise do Discurso. Campinas: Unicamp, 1992

NUNES, B. O Tempo na Literatura. São Paulo: Ática, 1995.

Trechos

TEXTO III

O pescador - reza o Evangelho - é divino e santo. Lança a sua rede. Mas não pode impedir que nela penetrem peixes bons e maus. Plantando as suas rosas, não. Só as belas, as olorosas devem florescer. Não consente que as parasitas, as ervas más, cresçam a seu redor. Para isso tem ele poderes. E deixar que suas rosas perfumem a manhã num canto ao sol, rivalizando com o irmão Francisco, o pobrezinho, o poeta. E riu o padre Anselmo: de onde lhe saíram aqueles pensamentos? Verdadeiros refrigérios no mundo de pecado em que vivia. (2005, p. 115).

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