Ensaio

A tessitura de múltiplas representações

00:00 · 08.06.2014

Na cultura nórdica há uma runa chamada Ehwaz cujo significado gira em torno da simbologia do cavalo. Esta runa simboliza a união perfeita e equilibrada entre duas energias diferentes para atingir um objetivo em comum. Dentre os atributos associados a ela está a confiança, a lealdade, o movimento, a modificação, as mudanças, as viagens, o ímpeto, a força, a tenacidade, a adaptabilidade, a fertilidade, o controle emocional e o equilíbrio. De acordo com Mirella Faur (2007) seu uso "possibilita o contato entre os mundos e a comunicação com os outros níveis de consciência (FAUR, 2007, p.226).

Mitologicamente é associada a Odin, a Loki, às Valquírias, aos Gêmeos Divinos, Freyja e Frey, Alcis ou Aclis, Hengst e Horsa. Os símbolos de Ehwaz, que iconograficamente se assemelha a letra "M", são as rédeas, a sela, as asas, as frutas geminadas e os objetos duplicados.

No xamanismo nórdico é considerada a runa do trânse e da viagem xamânica para os outros mundos e outros níveis de consciência. É relatado também por Faur a existência de um culto em que o xamã dançava com uma máscara de cavalo, consoante o excerto: (Texto I)

Acerca de um culto

Há também evidências históricas de um culto nórdico onde se utilizava o pênis de um cavalo para a prática de magia seidhr, realizado pelas sacerdotisas de Freyja.

A cooperação, cuja esta runa simboliza, é a relação entre cavalo e cavalheiro, entre homem e mulher. (Texto II)

Toda esta riqueza de símbolos em torno do cavalo se dá pelo fato de nas culturas antigas este animal participar de atividades essenciais da vida humana e do próprio processo civilizador dos povos. Presente como montaria, como principal meio de transporte terrestre até a chegada da Revolução Industrial, tanto nas guerras como nos momentos de paz, sua velocidade e força, assim como sua intuição e beleza são apreciados universalmente pelas culturas que tiveram contato com este animal; representado desde os tempos primitivos, a domesticação do cavalo transformou as possibilidades da vida humana.

Simbologias

De acordo com os Dicionários de Símbolos consultados nesta pesquisa, o cavalo é considerado um intermediário entre os planos superiores, médios e inferiores; era também um símbolo da abundância, da riqueza, presente em cerimônias agrárias. A Lua, cujo cavalo é associado, é um dos astros que regem a germinação e o crescimento das plantas. Na Índia está também associado a ritos de fertilidade que se utilizam de ovos, jogado na efígie de um cavalo dentro de um rio. Outra associação do cavalo é às águas correntes, às águas das fontes, e à imaginação. Em Roma era associado a Netuno, na Grécia a Poseidon.

Ao participar do segredo das águas fertilizantes, o cavalo conhece o caminho subterrâneo por elas percorrido; e isso explica que, desde a Europa até o Extremo Oriente, se acredite que ele tenha o dom de fazer brotarem fontes com a pancada de seu casco, conforme a passagem: (Texto III)

Por fim, há também uma ligação clara entre heróis e seus cavalos míticos. Hércules possuía o cavalo Arião, filho de Poseidon e das Fúrias; as Hárpias são as mães do cavalo de Aquiles e dos corcéis que Hermes oferece a Castor e Pólux; Belerofonte monta o Pégasos. Na mitologia nórdica, as Válquírias descem cavalgando os céus para recolher a alma dos guerreiros mortos; Loki metamorfoseado em égua acasala-se com o cavalo do gigante construtor do muro de Asgard para destraí-lo, gerando Sleipnir, o corcel de oito patas que Odin monta para atravessar os nove mundos de Yggdrasil, a Árvore Cósmica. Na Irlanda, a Deusa Macha monta o Casco Negro e o herói Cuchulainn, o Tordilho.

O cavalo montado pelo herói, os reis e os santos, é o cavalo branco, ou alado, solar ou uraniano. Ao passo que o cavalo infernal, considerado um demônio e denominado como Pesadelo é, nas culturas europeias, ctônico, infernal e lunar. Os cavalos vermelhos são considerados os cavalos de guerra e há ainda uma associação do cavalo com o erotismo, à impetuosidade do desejo, à energia que transita entre a morte e a vida.

Assim, verificamos que, em torno de todos estes símbolos, do seu papel erótico e da sua capacidade de unir os opostos, vital à existência do Cosmos, surgiram os mitos sobre a união sexual entre humanos e equinos.

Trechos

TEXTO I
Além de seu significado como representação do veículo físico, Ehwaz simboliza, no nível psicológico, a persona, ou seja, a "máscara" usada pela personalidade para se expressar no mundo externo, que, como meio de defesa, permite sua adaptação e sobrevivência e resguarda sua verdadeira identidade. (FAUR, 2007, p.227).

TEXTO II
O aprendizado contido na representação de Ehwaz é a necessidade de harmonização entre os princípios masculino e feminino, tanto dos sexos, quanto da psique. Somente assim a vida poderá fluir e as trocas energéticas acontecerem, de modo a complementar as polaridades e possibilitar a expressão criativa, no plano material, da essência espiritual. (FAUR, 2007, p.227).

TEXTO III
(...) O próprio Pégaso inaugura essa tradição ao criar a fonte Hippocrène - Fonte do cavalo - não longe do bosque sagrado das Musas; as Musas aí costumavam reunir-se para cantar e dançar, e a água corria, a fim de favorecer a inspiração poética. Neste caso a função do cavalo é a de despertar o Imaginário, assim como anteriormente ele despertava a natureza, no momento da renovação. (CHEVALIER E GHEERBRANT, 1988, p.208).

Saiba Mais

CHEVALIER, J. E GHEERBRANT, A.
Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988

COMMELIN, P.
Mitologia Grega e Romana. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

ELIADE, Mircea.
O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

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