Ensaio

A temática da confissão metalinguística e a presença do erotismo

00:23 · 06.07.2013
Tudo em Livro de Sóror Saudade emana a subjetividade de um universo confessional feminino. Para isso, é comum o eu poético metaforizar e se identificar com elementos da natureza: "cisne", "cipreste", "lírio"; ou com elementos intrinsecamente relacionados com seu senso errante e sombrio: "caravelas", "renda dum vitral". Outro recurso, para a confissão, é a construção de metapoemas, que, assim, identificam a criação poética com seus estados de espírito, o que pode ser lido em "Os versos que te fiz" (Texto IV)

Leitura do poema

Nesta composição, observa-se, logo de início, o recurso metalingüístico sendo posto em relevo, na medida em que os versos deixam de ser apenas a linha estrutural para ser motivo do próprio fazer poético. Na acepção do eu lírico, os "versos raros", por sua natureza única e específica para aquele ser amado, não se prestarão simplesmente a serem lidos, mas ouvidos, o que reforça a sensualidade com que se coloca, em seu afã sedutor. Para dar ênfase a tais sugestões sensuais, os versos 3 e 4, da primeira estrofe, e 1 e 2, da segunda, fazem um apelo sobre seu interlocutor, revelando a essência dos "versos", na evocação de "Paros", famosa cidade produtora de mármore da Grécia Antiga, simbolizando um retorno à beleza clássica e identificando a construção dos "versos", "cinzelados" pelos desejos do eu, como um trabalho minucioso. A atmosfera de volúpia em que se insere o discurso amoroso, tocando o erotismo, evidencia-se na comparação dos "versos" com "sedas brancas a arder" e as reticências que a seguem, pois bem mais que um simples recurso comparativo, o substantivo e o adjetivo, embora semanticamente relacionados com uma folha escrita, segundo uma leitura mais ingênua, também se identificam com as vestes de quem insinua suas vontades íntimas, erotizadas. O primeiro verso do soneto é repetido no terceiro, da segunda estrofe, havendo aí um esforço do eu, como num refrão, para reiterar o suspense gerado em dizer tais versos.

Há, entretanto, a impressão de que eles já estão sendo ditos e, assim sendo, é possível que já estejam deixando o outro a "endoidecer", apesar de que a terceira estrofe contradiga isso, ao explicitar o motivo da não revelação ainda. A estrofe 3, inclusive, deixa supor, uma sedução narcisista, como se quisesse, desde o início, mostrar-se para o outro, fazê-lo se interessar, seduzi-lo por completo, com sua "boca" mais "linda" justamente por criar o suspense e alimentar a chama amorosa do outro. Por mais óbvio que venha se revelando o desejo, o eu poético parece não querer despir diretamente o que sente, mesmo confessando o seu amor.

A estrofe final, mantém o sensualismo da "boca" como símbolo do encontro, tanto porque é por ela que os versos serão dito como porque o "beijo" acaba por ser o ponto para onde se dirige a ânsia de ter o amor concretizado, fonte de onde partirão as linhas do desejo de um amor em verso e em vida. Eis, pois, um criativo exemplo de confluência entre a elaboração de um poema e os sentidos colocados à disposição do próprio discurso poético-amoroso.

O narcismo

Em O Arco e a Lira (Nova Fronteira, 1982), assim se expressa o ensaísta mexicano Octávio Paz (Texto V)

A imaginação de Florbela, quando livre de sua sede saudosa e de sua melancolia voraz, também vociferou o grito de uma legião de mulheres de um Portugal ainda preso às tradições, que impunham sobre o sexo feminino a negação do desejo. Eis, enfim, a boca feminina, que diz e sente, que canta a liberdade e a comunica aos homens, convocando a si mesma a beijar a vida, como grita no último poema de Livro de Sóror Saudade: "Exaltação" (Texto VI)

É a própria existência que merece ser exaltada. A primeira palavra do poema já induz a essa conclusão, porquanto "Viver!" é um ato urgente, exclamativo. O uso de vários pontos de exclamação dão o tom do poema e parecem sugerir a resposta que o eu poético dá às dores contidas no restante do Livro de Sóror Saudade. "Beber o vento e o sol!" é uma bela imagem para significar a libertação da Sóror de seu claustro existencial. "O vento", "o som", enfim, a luminosidade de um dia em que os "corações" brilhem, em que os "braços" se dirijam a outros braços, e a boca (mais uma vez) exerça o que o eu poemático atribui como sua função maior: o beijo. Do primeiro para o segundo verso do poema, a partir da palavra "Erguer", há o uso de enjambement (encadeamento), que é uma construção, muito utilizada na obra de Florbela, em que o verso termina enquanto linha do poema, mas não do sentido e da sintaxe, vindo a ser completado pelo verso seguinte. Para acomodar as dez sílabas poéticas, o terceiro verso, da primeira estrofe, usa o coloquial "pra". Como na primeira estrofe, as rimas da segunda são todas pobres, essencialmente entre verbos no infinitivo, de segunda e terceira conjugações. Nela, o tom de libertação da sugestiva "chama", que deve ser erguida, posta no alto como os corações, conjuga o sentimento e o instinto sensual. Mais: é preciso que "asas" levem a liberdade a tocar "estrelas", a culminância do brilho de um instante, ou de uma nova vida, que se pretende instaurar sobre si. O uso do advérbio "alto", duas vezes, intensifica o sentido de vôo rumo à "Glória", à "fama" e à criação. Criação compreendida como um orgulho, da própria Florbela, de afirmar seu feminino ser poético.

Considerações finais

Antiteticamente, o eu reconhece, na terceira estrofe, o mel e o travo da vida, o que remete ao sentido de consciência, de evolução espiritual, mesmo diante de um estado de glorificação da existência. A mística cor violeta reforça o sentido da singela imagem de "lago dos meus olhos", que mais sugere que descreve, tendo o mel (brilho) e o travo (lágrima). Os "beijos" são "pagãos", posto que a dionisíaca alegria não reconhece nenhum valor convencional. A vida, propõe a voz lírica, deve ser celebrada em êxtase. A prosopopeia do verso 1, da última estrofe, tinge de vermelho as sensações do elemento "boca". E eis que os "Irmãos" (uso da letra maiúscula, sem necessidade ortográfica, para reforçar o substantivo, bem ao estilo neosimbolista da poetisa) da voz poética são "Boêmios", porque celebram a vida pós-crepúsculo; "vagabundos", porque marginalizados, convivas de seu mesmo destino; e "poetas" (estilisticamente o substantivo foi separado por vírgula, destacando-o), porque a Sóror Saudade, enfim, reconhece-se em todos os que têm "orgulho de criar". (T. L. B)

SAIBA MAIS

BESSA-LUÍS, Agustina. Florbela Espanca, a vida e a obra. Lisboa: Guimarães Editores, 1984

JUNQUEIRA, Renata Soares. Florbela Espanca uma estética da teatralidade. São Paulo: UNESP, 2003

LORENÇO, Eduardo. Mitologia da Saudade. São Paulo: Companhia das letras, 1999

NORONHA, Luzia Machado Ribeiro de. Entreretratos de Florbela Espanca: uma leitura biografemática. São Paulo: Annablume, 2001

OLIVEIRA, Ester Abreu Vieira de. Ultrapassando Fronteiras em metapoemas. Vitória: PPGL/ MEL, CCHN, 2004.

Trechos

TEXTO IV

Deixa dizer-te os lindos versos raros/Que a minha boca tem pra te dizer!/São talhados em mármore de Paros/Cinzelados por mim pra te oferecer.///Têm dolências de veludos caros,/São como sedas brancas a arder.../Deixa dizer-te os lindos versos raros/Que foram feitos pra te endoidecer!///Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda.../Que a boca da mulher é sempre linda/Se dentro guarda um verso que não diz!///Amo-te tanto! E nunca te beijei.../E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei/Guardo os versos mais lindos que te fiz!

TEXTO V

A relação entre erotismo e poesia é tal que se poder dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal. Ambos são feitos de uma oposição complementar. A linguagem - som que emite sentido, traço material que denota ideias corpóreas - é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal - é cerimônia, representação. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora. A imaginação é o agente que move o ato erótico e o poético

TEXTO VI

Viver! Beber o vento e o sol! Erguer/Ao céu os corações a palpitar! /Deus fez os nossos braços pra prender,/E a boca fez-se sangue pra beijar!///A chama, sempre rubra, ao alto a arder!/Asas sempre perdidas a pairar!/Mais alto até estrelas desprender!/A glória! A fama! Orgulho de criar!///Da vida tenho o mel e tenho os travos /No lago dos meus olhos de violetas,/Nos meus beijos estáticos, pagãos!///Trago na boca o coração dos cravos!/Boêmios, vagabundos, e poetas,/Com eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!

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