Ensaio

A rebeldia diante da passagem do tempo

02:54 · 28.09.2013
O sujeito lírico trava uma verdadeira batalha com o "tu"( Deus ), sem negar-lhe a existência de fato como fazem os ateus, mas lhe nega a condição de ser supremo, trazendo-o para um patamar de igualdade aos seres terrenos. Desse modo, Deus funciona apenas como uma presente ameaça, consoante o poema Desfecho: ( Texto II )

Detalhe da obra "Orfeu e Eurídice", de Tiziano Vecelli, em óleo sobre tela. Reproduzem-se nela,a partir da sugestão dos movimentos, elementos-chave de uma peleja que se alicerça na perda amorosa; no poeta, a luta é contra o tempo e a morte

O poema se constrói em cima de quatro quintilhas, onde as duas primeiras possuem métrica muito irregular. Já nas outras duas predominam as decassilábicas, com exceção do penúltimo verso que se apresenta como um hexassílabo.

Leitura do poema

O poema apresenta nas estrofes I e II, uma situação de luta em que se define uma temática religiosa, onde podemos identificar o Eu sempre a se opor ao Tu. Luta em que o Eu passou a vida a negar Deus e que já inicia o poema com antecipação do resultado( "Desfecho") "não tenho mais palavras"( V. 01 ). Na estrofe III, é apresentada, então, a maneira como se deu a luta, as armas usadas pelo Eu contra a incômoda, agressiva e sempre silenciosa presença de Deus ( "soltei a voz, arma que tu não usas," ) ( V. 14 )

A quarta estrofe traz como conclusão o resultado do combate: o tempo passou e os gritos do Eu se reduziram ao silêncio, tornando-se mudo como o seu opositor. Sendo agora dois teimosos frustrados, pois nenhum convenceu ao outro. As adjetivações presente nos versos (8, 9 e 10 ): "A divina presença impertinente do teu vulto calado e paciente..." consolida a subjetividade da problemática religiosa no poema.

Uma peleja

A rebeldia do poeta não é igual à de Orpheu, pois não se trata da perda de uma pessoa amada, mas, sim, de uma revolta incontrolável contra a morte e a passagem implacável do tempo. Sua poesia é uma espécie de pedido de socorro, um refúgio diante daquilo contra o qual é inútil lutar: a passagem sempre triunfante do tempo: ( Texto III ).

Leitura do poema:

Neste poema, "Orfeu Rebelde, vemos que, acometido de um sentimento de revolta contra a morte e a passagem do tempo, o Eu compara-se com "um possesso que na casa do tempo, a canivete, gravasse a fúria de cada momento"( v 2, 3 e 4 ). A força do tempo é avassaladora e inevitável: "Que o céu e a terra, pedras conjugadas do moinho cruel que me tortura"( v 10 e 11 ). Os verbos, cantar e erguer, no presente do indicativo, têm a função de sugerir algo em andamento, inacabável, em continuidade, o que causa revolta no poeta rebelde, cujo "canto" é o seu instrumento para combater em defesa de seus valores humanistas que não são de renunciar, mas sim de confrontar, nem que seja para deixar gravado "na casca do tempo" as marcas da "fúria de cada momento"( v 3 e 4 ), mesmo sabendo que será eterno o seu "sofrimento"( v 6 ). As aliterações do /c/, na primeira estrofe, remetem, portanto, a esse confronto que o poeta trava contra o seu destino certo. (M. A. C)

Trechos

Texto II

Não tenho mais palavras./ Gastei-as a negar-te.../ ( Só a negar-te eu pude combater / O terror de te ver / Em toda a parte. ) /// Fosse qual fosse o chão da caminhada. / Era certa a meu lado / A divina presença impertinente / Do teu vulto calado/ E paciente... /// E lutei, como luta um solitário/ Quando alguém lhe perturba a solidão. / Fechado num ouriço de recusas, / Soltei a voz, arma que tu não usas, / Sempre silencioso na agressão. /// Mas o tempo moeu na sua mó / O joio amargo do que te dizia... / Agora somos dois obstinados, / Mudos e malogrados, / Que apenas vão a par na teimosia.

Texto III

Orpheu rebelde, canto como sou: / Canto como um possesso / Que na casca do tempo, a canivete, / Gravasse a fúria de cada momento; / Canto, a ver se meu canto compromete / A eternidade do meu sofrimento. // Outros, felizes, sejam rouxinóis... / Eu ergo a voz assim, num desafio: / Que o céu e a terra, pedras conjugadas / Do moinho cruel que me tritura, / Saibam que há gritos como há nortadas, /// Bicho instintivo que adivinha a morte / No campo dum poeta que a recusa, / Canto como quem usa / Os versos em legítima defesa. / Canto, sem perguntar à musa / Se o canto é de terror ou de beleza.

SAIBA MAIS

MENDONÇA
, Fernando. A literatura portuguesa no século XX. São Paulo: Hucitec,1973

MUNIZ, António. Para uma leitura de sete poemas contemporâneos : Lisboa : Presença, 1992

TORGA, Miguel. Câmara Ardente. Coimbra: Coimbra, 1962

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