Ensaio

A rebeldia ante a passagem implacável do tempo

00:35 · 07.09.2013
A rebeldia do poeta não é igual a de Orpheu da mitologia Grega, pois não se trata da perda de uma pessoa amada, mas trata-se de uma revolta incontrolável contra a morte e a passagem implacável do tempo. Sua poesia é uma espécie de pedido de socorro, um refúgio diante daquilo contra o qual é inútil lutar: a passagem sempre triunfante do tempo. Como podemos ver no poema " Orpheu rebelde" ( texto IV ).

Leitura do poema:

Acometido de um sentimento de revolta contra a morte e a passagem do tempo, o Eu lírico destaca-se de forma expressiva ao comparar-se com "um possesso que na casa do tempo, a canivete, gravasse a fúria de cada momento"( v 2, 3 e 4 ). A força do tempo é mostrada no poema como algo avassalador e inevitável: "Que o céu e a terra, pedras conjugadas do moinho cruel que me tortura"( v 10 e 11 ). Os verbos, cantar e erguer, no presente do indicativo tem a função de sugerir algo em andamento, inacabável, em continuidade, o que causa revolta no poeta rebelde, cujo "canto" é o seu instrumento para combater em defesa de seus valores humanistas que não são de renunciar, mas sim de confrontar, nem que seja para deixar gravado "na casca do tempo" as marcas da "fúria de cada momento"( v 3 e 4 ), mesmo sabendo que será eterno o seu "sofrimento"( v 6 ). As aliterações do /c/, na primeira estrofe, remetem a esse confronto que o poeta trava contra o seu destino certo.

O poema é formado por três sextilhas de métrica e rimas irregulares, embora haja um predomínio dos versos decassílabos e das rimas cruzadas / ABCDCD / EFGHGH / IJJLJL / , havendo ainda uma predominância das rimas consoantes em todas as estrofes. Suas escrituras o denunciam como sendo um homem todavia apegado a natureza, pois é comum em suas obras a valorização da natureza com suas diversas paisagens e manifestação do sentimento telúrico pode ser percebida nas expressões do poema "São Leonardo da Galafura" ( texto V ).

Leitura do poema:

O poema é construído em três estrofes irregulares: a primeira com 11 versos de métricas irregulares; a segunda com composta de 9 versos também de métricas irregulares e a terceira com 7 versos que também possuem métricas irregulares, havendo em todas as estrofes, versos soltos e versos rimados. Essa irregularidade nas estrofes e nos versos nos remete ao espaço físico do qual o poema fala: um espaço geograficamente irregular, um lugar onde há "socalcos"(v 12 ). As estrofes representam as parte em que está dividido o poema, em três: a primeira represente a vagareza com que " S. Leonardo"( v 05 ) vai navegando " sem pressa de chegar ao seu destino"( v 08 ); na segunda parte temos o motivo pelo qual caminha devagar: " Lá não terá socalco nem vinhedos"( V 12 e 13 ), Lá os "doiros desaguados serão charcos de luz envelhecida"( v 15, 16 e 17 ) e na terceira parte temos uma retomada da imagem do início; uma caminhada lenta rumo a eternidade: " por isso é devagar que se aproxima da bem-aventurança. É lentamente que o Rabelo avança"( V 21, 22 e 23 ). No poema fica evidente o apego pela terra por parte do poeta, que conta a natureza como quem está impregnado nela, uma vez que estando ele a caminhar para a "eternidade", faz isso de maneire lenta, apreciando a beleza e até mesmo o cheiro do espaço citado, como que a declarar o seu amor pelos valores terrenos: "E cada hora a mais que gasto no caminho é um sorvo a mais de cheira a terra e a rosmaninho!"( V 25, 26 e 27 ). As expressões metafóricas presentes na primeira estrofe ao lugar, S Leonardo de Galafura, navegando para o céu, mas sem querer deixar para trás as belezas terrenas.

Nessa escritura o que fica evidente, assim como em outros poemas de Torga é a problemática da criação, como podemos acompanhar no poema "identidade" ( texto VI ).

Leitura do poema:

O Eu lírico se revela, nesse poema, como quem apresenta-se a si mesmo, de maneira autentica. Começa admitindo ter matado a "lua e o luar difuso" ( V 01 ), mostrando-se desinteressado pelo romantismo e construindo seus "versos" a "ferro e cimento"( V 02 ). Uma ruptura que é assumida pelo poeta com o que foi antes, o que é justificado pelo uso do verbo no presente do indicativo, como que a traduzir o exato momento dessa ruptura. O poema comporta, na sua totalidade, rimas consoantes e cruzadas (AB AB / CD CD / EF EF/ ) sendo ele constituído, como um todo, por três estrofes heterométricas.

Vibração cósmica

O ensaísta Massaud Moisés compreende que no embate em que se empenha o poeta, "Manifesta-se em estertores e brados ansiosos, apesar da calma ocasional (como em Bichos), produzindo um dos lirismo mais vigorosos", isto é, em teremos de produção literária portuguesa de sua contemporaneidade. Depreende-se de seu discurso a palpitação de uma vibração cósmica de remotas raízes ibéricas. Um apelo é feito afim de que haja uma proximidade entre céu e terra em "mergulho" ( texto VII )

Leitura do poema:

Constituído de apenas duas quadras onde a métrica predominante é o decassílabo, o poema apresenta-se com rimas cruzadas ( AB AB ) ( CD CD ) ( EF EF ) E ( GH GH ), as quais, com exceção dos versos 2 e 4, que são toantes, as demais são rimas consoantes´.

O poeta se mostra mais uma vez revoltado e faz um apelo ao soltar um grito de socorro: "Tirem o céu da sua altura triste; " ( V 01 ) e mais uma vez faz menção à mitologia grega: "Deve ser o cristal que viu Narciso" ( M. P. A. C. S. C.)

Trechos

Texto IV

Orpheu rebelde, canto como sou: / Canto como um possesso / Que na casca do tempo, a canivete, / Gravasse a fúria de cada momento; / Canto, a ver se meu canto compromete / A eternidade do meu sofrimento. /// Outros, felizes, sejam rouxinóis... / Eu ergo a voz assim, num desafio: / Que o céu e a terra, pedras conjugadas / Do moinho cruel que me tritura, / Saibam que há gritos como há nortadas, / Violências famintas de ternura. /// Bicho instintivo que adivinha a morte / No campo dum poeta que a recusa, / Canto como quem usa / Os versos em legítima defesa. / Canto, sem perguntar à musa / Se o canto é de terror ou de beleza.

TEXTO V

À proa dum navio de penedos, / A navegar num doce mar de mosto, / Capitão no seu posto / De comando, / S. Leonardo vai sulcando / As ondas / Da eternidade, / Sem pressa de chegar ao seu destino. / Ancorado e feliz no cais humano, / É num antecipado desengano / Que ruma em direção ao cais divino./// Lá não terá socalcos / Nem vinhedos / Na menina dos olhos deslumbrados; / Doiros desaguados / Serão charcos de luz / Envelhecida; / Rasos todos os montes / Deixarão prolongar os horizontes / Até onde se extinga a cor da vida. /// Por isso, é devagar que se aproxima / Da bem-aventurança. / É lentamente que o Rabelo avança / Debaixo dos seus pés de marinheiro. / E cada hora a mais que gasta no caminho / É um sorvo a mais de cheiro / A terra e a rosmaninho !

TEXTO VI

Matei a lua e o luar difuso. / Quero os versos de ferro e de cimento. / E, em vez de rimas, uso / As consonâncias que há no sofrimento. /// Universal e aberto, o meu instinto acode / A todo coração que se debate aflito. / E luta como sabe e como pode: / Dá beleza e sentimento a cada grito. /// Mas como as inscrições nas penedias / Tem maior duração / Gasto as horas e os dias / A endurecer a forma da emoção.( p 97 ).

Texto VII

Tirem o céu da sua altura triste; / Olhem a cor do inferno aqui no chão: / Verde-esmeralda que , se não existe, / É um milagre de luz em cada mão. /// Anjo de barro, o nosso espelho apenas / Deve ser o cristal que viu Narciso: / Água dum poço de ilusões pequenas / Onde morra e renasça o paraíso.

SAIBA MAIS

CÂNDIDO,
Antonio: O estudo analítico do poema. São Paulo : Humanistas, 2004

DUCROT, Oswald.. Dicionário das ciências da linguagem. Lisboa:

Dom Quixote, 1973

MENDONÇA, Fernando. A literatura portuguesa no século XX. São Paulo: Hucitec,1973

MUNIZ, António. Para uma leitura de sete poemas contemporâneos : Lisboa : Presença, 1992

TORGA, Miguel. Câmara Ardente. Coimbra: Coimbra, 1962

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