Ensaio

A presença do sincretismo estético

00:00 · 02.11.2014

A obra Aves de arribação, de Antônio Sales, apresenta, além dos traços marcantes do Realismo-Naturalismo, elementos da estética romântica, bem como tendências regionalistas; vejam-se, por exemplo, determinadas passagens, nas quais ganha relevo a marca romântica: (Texto II)

A presença dos aspectos construtivos do movimento romântico faz-se marcante, principalmente, nos momentos em que o elemento descritivo entra na trama, como um valioso auxílio ao narrado: (Texto III)

Realismo & Naturalismo

Quanto à recorrência aos ditames da estética realista, a principal nota recai por sobre os juízos de valor, numa nítida intenção em demolir valores éticos e morais alardeados, incisivamente, pelo discurso burguês: (Texto IV)

Já os recursos inerentes à estética naturalista se depositam na valorização do cientificismo, com destaque para o determinismo, segundo o qual o homem é produto do meio, da hereditariedade e do momento histórico, dominado, assim, pelas forças fatais do universo: (Textos V)

Como um verdadeiro prenunciador do romance a ser cultivado nos 30 do século XX, em especial pelos ficcionistas nordestinos, há, na trama, representações nítidas do regionalismo: (Texto VI)

A linguagem literária

O texto literário, a rigor, cultiva a linguagem conotativa, através da utilização das figuras de linguagem.

Desse modo, são recorrentes recursos como a Comparação ou símile: “A zombaria acompanhava-o como as moscas a um animal chagando”; metáfora: “O atual vigário substituíra o padre Serrão, que pastoreara o rebanho ipuçabense durante treze anos e sete meses”; prosopopeia: “Sentia-se como o bocejar das casas, cujas portas se abriam com uma lentidão de pálpebras sonolentas.”; eufemismo: “Bateu o trinta e um? – troçou ainda o Lucas; metonímia: “É, não foi mal recebido e ainda rendeu um cobrezinho para os charutos”; antonomásia: “Matias aguardava com impaciência a chegado do autor de Pingentes”; onomatopeia: “Isso cá há de ser – pratatá! pratatá! pratatá!

Das personagens

São construídas com o intuito de criticar certas parcelas da sociedade, através da profissão que cada uma delas exerce. São, desse modo, classificadas como personagens-tipo: Asclepíades – o coletor de impostos – por lidar com grande soma de dinheiro é ganancioso, interesseiro; Balbino – o padre – é apresentado como bondoso; Bilinha – a professora – é culta, educada. Alípio “era de estatura mediana e enquanto se polia para atingir o seu ideal de homem fino, continuava a ser para os íntimos o boêmio desabusado”; Matias “Um fraco, em suma. A sua vida era como uma teia sem ponto de apoio nem nos mestres, nem nos condiscípulos: qualquer vento a arrastava e rompia.” Florzinha “criaturinha delicada e distinta... mais retraída e mais silenciosa... maneiras tímidas de adolescente envergonhada das suas formas e do seu vestido comprido...”Benvinda era “estimada pelo seu gênio alegre e serviçal, dera o seu nome a uns famosos beijus de goma, que serviam de pão da manhã à maior parte dos lares de Ipuçaba.” Bilinha era “muito morena, quase trigueira, dentes magníficos, esbelta e flexuosa, seria formosa se a boca fosse menor e o nariz não tivesse o arrebite petulante que lhe dava um ar menos distinto porém mais provocante.”Envolve a trama o conflito entre um código de valores estratificado na sociedade e atitudes marcadamente libertinas. O romance é narrado sob o ponto de vista externo, isto é, a terceira pessoa, o narrador onisciente; os episódios são expostos na linha cronológica – o que não impede ao autor valer-se de recortes temporais.

Considerações finais

Os diálogos comparecem como elementos condutores da trama; entretanto, o autor não visa, em nenhum momento, à reprodução das distorções fonéticas, comuns à fala rural, mas estas aparecem, se necessário. A rigor, os diálogos não chegam a ser usados com muita intensidade, cabendo, portanto, a condução da trama mais ao narrador. (C. A. V.)

Trechos

TEXTO II

“Com a alma de joelhos, começou o Dr. Alípio, agradecia os obséquios da família Asclepíades e nela brindava a família ipuçabense. Nem melhor poderia personificá-la do que em D. Claudina, protótipo de matrona brasileira, e em D. Florzinha, a quem ia tão bem esse nome meigo e perfumoso, porque era realmente uma flor de mocidade e beleza, a embalsamar o ambiente em que desabrochava com a fragrância da sua inocência e da sua bondade.”

TEXTO III

“O dia estava radioso. Chovera à noite e o céu amanhecera fresco e limpidíssimo, com um brilho doce e úmido de cetim novo. Pouco depois o sol se velara sob uma larga barreira de cúmulos flocosos que se dilatavam em mirantes de prata pelo horizonte acima; mas depois um vento rijo varrera tudo, e nem a mais ligeira nuvem pincelara o firmamento.” “A viração vespertina varria a cidade, arrepiando de leve a folhagem da mungubeira e espargindo o aroma das suas flores, que pareciam plumilhas de ouro com as pontas esmaltadas de escarlate.”

TEXTO IV

“Acerca de dinheiro e de família, temos conversado. Excelente para encher os ócios de um exilado; mas quanto a casamento, livra! Fora a pieguice! Preciso de mulher que tenha chelpa e pai alcaide. Casamento de amor já não se usa. O idiota que cair ali ter que, mais dias menos dias, agüentar com o peso daquele exército de crianças de nomes arrevesados. Isso de casar com matutas é bom para o pobre do Gomes da Costa, que tem os pulmões tão fracos como o espírito.” “Era desigual a luta com esse adversário perigoso a cuja atividade diabólica o vigário imprimia a segura direção da sua manhosa habilidade, longo tempo educada à socapa num espírito de ambicioso contido à espera de uma boa ocasião para agir em campo aberto.”

TEXTO V

“- Então - clamava Matias - a mulher é um instrumento de prazer. - Não, é um animal como o homem: o nosso comércio é uma troca de sensações; nenhum fica a dever nada um ao outro por isto. Se ela é fraca, nós não temos nada com isso; faça-se forte, torne-se nossa igual, mas não nos venha entibiar o ânimo com a sua perniciosa sentimentalidade.”

TEXTO VI

“- Acho que deve estar aqui nestes vinte dias. Ele disse em sua carta que pretende tomar o trem para o Quixadá no dia 15; chega ali à tarde, dorme, sai de manhã cedo e vem descansar no Riacho da Ema; sai à tarde e vem dormir na Lagoa; fazendo uma boa madrugada, pode vir descansar no Croatá e dormir na Verge da Onça; no dia 18 vem dormir no Serrote; no dia 19 pode alcançar perfeitamente o Lajeiro, embora ande algumas horas com a lua, que é cheia no dia 16.”
Outro narrava a história de um caboclo que acompanha como pajem um engenheiro e, olhando para os matos, exclamara; “Hei! Patrão, este ano não temos chuva!”

- Por quê?
- Porque as carnaúbas estão fulorando.
- Então quando não floram?
- Quando não fuloram ... é pior!”

Saiba mais

MESQUITA, Samira Nahid. O enredo. São Paulo: Ática, 2006
MOISÉS, Massaud. A análise literária. São Paulo: Cultrix, 1969
SALES, Antônio. Aves de arribação. Fortaleza: UFC, 2006

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