Ensaio

A presença do fado na construção poética

00:00 · 30.03.2014

Estilo musical português, normalmente cantado por uma só pessoa e acompanhado por uma viola e uma guitarra portuguesa, algumas de suas letras de fado foram compostas para a voz de Amália Rodrigues. Baseando-se no tormento que é sentir a falta, o eu lírico se constrói uma personagem que se encontra em saudade do seu amor. Mais uma vez, a presença de figuras náuticas recheia o poema com ventos e praias. O poema se encontra em três estrofes de métricas diferentes, entre rimas toantes e consoantes. "Barco Negro" já traz tormenta até no nome. (Texto IV)

Leitura do poema

Já no primeiro estrofe, o eu lírico se diz acordando e recebendo um raio de sol no peito. A imagem da dúvida, quando diz "temendo que me achasses feia" é acabada quando o sol penetra no coração, significado a clareza de uma certeza, quando o amor, nesse momento passado, diz que não a acha feia. O segundo estrofe retorna à metáfora da claridade apresentado no quarto verso, já que o navio negro que o sujeito poético vê pode ser entendido como a própria saudade sendo percebida e que o amor de longe acena, por já ter partido em alto mar.

Na última estrofe, o eu lírico tenta se reconfortar ao dizer para si próprio que o amor não vai ao longe, está cá dentro do peito e para sempre se encontrar ali. As rimas, por serem cruzadas, criam no leitor uma sensação de vai-e-vem, bem como as ondas que levam para longe o navio que vai a saudade. No segundo e no terceiro estrofe, quando se rima "partir" e "comigo" e "vidros" e "mortiço", vemos exemplo de rima forçada, onde fica expresso a dificuldade que a personagem tem de perceber que ela não está só, já que aquele que parte está com ela, dentro do peito.

Fado peniche

Envolto em tristeza e escuridão, o poema "Fado Peniche" é composto de três estrofes de seis versos cada, carregado de anáforas, enjambements e rimas alternadas. (Texto V)

Conformação e dificuldade

O poema foi composto em seis quartetos de rimas alternadas, com presença de rimas ricas e rimas imperfeitas*. Foi um dos primeiros textos escritos pelo autor diretamente a Amália, logo após o momento em que se conheceram, na década de 50 do século passado. "Libertação" chega como uma salvação, já que mesmo não podendo acontecer as duas saídas que o eu lírico propõe, ele se conforma no final com a maneira que o amor deve acontecer. (Texto VI) A praia é tida como local de reflexão e intriga seres humanos há tempos. A água é o melhor material que dispomos para nos lavar. Já no primeiro momento, nesse mesmo local o eu lírico vai com a finalidade de propor à amada a fuga. Diz ele que se sente observado e julgado, não podendo desviar de todos os olhares.

No segundo momento, ele vai ao campo, que nos traz à mente a imagem de algo interior, que seria uma maneira do eu lírico dizer que foi buscar dentro de si outra solução e, agora, diz que se ficarem sofrerão. O eu lírico, apesar de tudo, deixa claro que apesar de toda a dificuldade ele não abrirá mão daquilo que sente e que aqui nesta terra é somente isso que ele precisa. O enjambement, mais uma vez, é empregado para que o poema ganhe mais velocidade, fique mais veloz quanto à leitura, algo que causa certa inquietação no leitor, bem como no personagem que vemos se questionando no texto.

Do tempo

"Primavera" é composto por quatro estrofes com seis versos em cada. Seu esquema de rimas é bastante complexo e nele encontramos exemplos de interpolação, alternância e emparelhamento com pequenas adaptações: "Todo o amor que nos prendera, /Como se fora de cera, /Se quebrava e desfazia. /Ai, funesta Primavera, /Quem me dera, quem nos dera, /Ter morrido nesse dia". A partir de então, o eu lírico se volta para a sua interioridade: "E condenaram-me a tanto, /Viver comigo meu pranto, /Viver, viver e sem ti. /Vivendo sem, no entanto, /Eu me esquecer desse encanto, /Que nesse dia perdi."

Ganha, então, relevo, uma metáfora sinestésica: "Pão duro da solidão /É somente o que nos dão, /O que nos dão a comer. /Que importa que o coração /Diga que sim ou que não, /Se continua a viver. //Todo o amor que nos prendera, /Se quebrara e desfizera, /Em pavor se convertia. /Ninguém fale em Primavera, /Quem me dera, quem nos dera, /Ter morrido nesse dia"

O eu lírico evoca aqui a figura da Primavera que, agora, contracenará na composição da poesia, deixando de ser apenas um momento do ano e passando a ser um personagem a quem ele se relaciona no texto.

Trechos

Texto IV

De manhã temendo que me achasses feia, /acordei tremendo deitada na areia, /mas logo os teus olhos disseram que não /e o sol penetrou no meu coração. //Vi depois, numa rocha, uma cruz, /e o teu barco negro dançava na luz; /vi teu braço acenando, entre as velas já soltas. /Dizem as velhas da praia que não voltas... /São loucas! São loucas! /Eu sei, meu amor, /que nem chegaste a partir, /pois tudo em meu redor /me diz que estás sempre comigo. //No vento que lança /areia nos vidros, /na água que canta, /no fogo mortiço, /no calor do leito, /nos bancos vazios, /dentro do meu peito /estás sempre comigo.

Texto V

Por teu livre pensamento /Foram-te longe encerrar. /Tão longe que o meu lamento /Não te consegue alcançar. /E apenas ouves o vento /E apenas ouves o mar. //Levaram-te, a meio da noite: /A treva tudo cobria. /Foi de noite, numa noite /De todas a mais sombria. /Foi de noite, foi de noite, /E nunca mais se fez dia. //Ai! Dessa noite o veneno /Persiste em me envenenar. /Oiço apenas o silêncio /Que ficou em teu lugar. /E ao menos ouves o vento /E ao menos ouves o mar.

Já iniciando com um enjambement, o poema está cercado de uma áurea de falta de verdades por causa figura da noite e da técnica que inicia uma frase em um verso e vai terminá-la no verso seguinte. Mais presente no segundo estrofe, a figura da escuridão aumenta ainda mais a sensação de que falta informações ao eu lírico, que reclama do amor que foi tomado e que, agora, resta, apenas, o silêncio e o barulho do vento e do mar. Cada estrofe possui seis versos de sete sílabas com rimas alternadas. Essa metrificação, somando-se à temática da poesia, cria uma sensação claustrofóbica onde falta ar, restando, mais uma vez, apenas o silêncio e o barulho do mar. O eu lírico declama sua dor por não saber o que acontece, a escuridão toma todas as verdades que seriam necessárias.

Texto VI

Fui à praia, e vi nos limos /a nossa vida enredada: /ó meu amor, se fugimos /ninguém saberá de nada. //Na esquina de cada rua, /uma sombra nos espreita, /e nos olhares se insinua, /de repente uma suspeita. //Fui ao campo, e vi os ramos /decepados e torcidos: /ó meu amor, se ficamos, /pobres dos nossos sentidos. //Hão-de transformar o mar /deste amor numa lagoa: /e de logo hão-de a cercar, /porque o mundo não perdoa. //Em tudo vejo fronteiras /fronteiras ao nosso amor. /Longe daqui, onde queiras, /a vida será maior. //Nem as esperanças do céu /me conseguem demover. /Este amor é meu e teu: /só na terra o queremos ter.

Saiba Mais

ADORNO, Theodor. Notas de literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991

GOLDSTEIN, Norma Seltzer. Versos, sons, ritmos. São Paulo, Ática, 14° ed., 2008

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa, São Paulo, Cultrix, 1960; 31° ed., 2001

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