Ensaio

A presença da ironia amorosa

00:00 · 15.11.2013
Conhecido pelo sentimentalismo amoroso apontado para uma amante abstrata, há outra faceta lírica de Álvares de Azevedo: a ironia amorosa. Em "O poeta e as potências abstratas" (Imprensa Nacional, 1956), Hildon Rocha, ao tratar de Azevedo, assim nos informa: (Texto II)

Ao negar a ideia de amor idealizado, pondo em vista o escárnio e o grotesco, o poeta justifica o que chama de binomia, que, segundo o professor Antônio Cândico (2006), significa que o poeta "apresenta a obra como medalha de duas faces, e tal pensamento estabelece a essência da poesia de Álvares de Azevedo, que consiste na coexistência dos contrários". O melhor espécime para isto encontra-se no poema "É ela! É ela! É ela! É ela!": (Texto III)

Leitura do poema

Quando iniciados, os três primeiros versos do primeiro quarteto (o poema mantém a regularidade estrutural: dez quartetos, realizados por versos decassílabos, em versos de esquema ABCB), sobretudo pela caracterização da mulher como "aérea e pura", poder-se-ia imaginar que seria mais um exemplo de um poema tipicamente romântico.

Porém, no verso 4, ainda da primeira estrofe, "Ela" é revelada como uma "lavadeira na janela", o que quebra com a expectativa inicial, porque a mulher é cotidiana e porque não se trata de um "anjo", de uma "donzela". Isto será constante no poema: referências românticas e a imediata quebra de sua expectativa.

Tal quebra semântica é o início de uma materialização irônica do sentimentalismo amoroso do Romantismo, ruptura com os padrões ultrarromânticos.

Dos movimentos

As duas primeiras estrofes marcam um primeiro movimento deste poema-narrativa. Nelas, o sujeito lírico elucida o primeiro contato visual, sarcasticamente descrevendo a amada com "vestidos de chita", que o mantém "suspirando". No movimento seguinte (terceira e quarta estrofes), o voyeur ousa a aproximação, através do "telhado", de onde observa o "sono" da mulher. Em "o ferro do engomado" pode-se notar a intenção irônica e a dessacralização romântica. Mais ainda porque o objeto de desejo "roncava maviosa", o que quase o faz "cair na rua". As últimas estrofes marcam um último movimento. A tensão centra-se no encontro de um "bilhete", "doce página", como imagina o eu-lírico. Há uma mistura entre versos de nítido teor romântico, sempre desfeitos por alguma escolha léxica que deles se distanciam, como a ligação entre "gentis amores", "flores", referindo-se ao "bilhete", em seguida desfeitos pelo fato de tratar-se de um "rol de roupa suja", quando descoberto pelo sujeito lírico, sob o som de uma "coruja". Mesmo assim, a idealização de um objeto de desejo real não é desfeita, já que sonha com que a amada lave suas "camisinhas". Para criar sua ambientação irônica, são feitas algumas referências à personagens clássicas em comparação com a "lavadeira", como a "Carlota" (personagem do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe), "Laura" (musa do poeta Francesco Petrarca), "Beatriz" (musa de Dante). (T. L. B. )

Trechos

TEXTO II

"as manifestações de sua veia poética - irônica e não hilariante - já trazem outra marca, nítida e poderosa como as que nele mais o seja. O sarcasmo, de envolta com o acesso de cinismo e desvario, foi de fato, uma atitude romântica - a influência de Byron".

TEXTO III

É ela! é ela! - murmurei tremendo,/e o eco ao longe murmurou - é ela!/Eu a vi... minha fada aérea e pura -/a minha lavadeira na janela.///Dessas águas furtadas onde eu moro/eu a vejo estendendo no telhado/os vestidos de chita, as saias brancas;

/eu a vejo e suspiro enamorado///Como dormia! que profundo sono!.../Tinha na mão o ferro do engomado.../Como roncava maviosa e pura!.../Quase caí na rua desmaiado!///Afastei a janela, entrei medroso.../Palpitava-lhe o seio adormecido.../Fui beijá-la... roubei do seio dela/um bilhete que estava ali metido...///Oh! decerto... (pensei) é doce página/onde a alma derramou gentis amores;/são versos dela... que amanhã decerto/ela me enviará cheios de flores...///Tremi de febre! Venturosa folha!/Quem pousasse contigo neste seio!/Como Otelo beijando a sua esposa,/eu beijei-a a tremer de devaneio...///É ela! é ela! - repeti tremendo; /mas cantou nesse instante uma coruja.../Abri cioso a página secreta.../Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!///Mas se Werther morreu por ver Carlota/Dando pão com manteiga às criancinhas,/Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro/Sonhando-te a lavar as camisinhas!///É ela! é ela, meu amor, minh´alma,/A Laura, a Beatriz que o céu revela.../É ela! é ela! - murmurei tremendo,/E o eco ao longe suspirou - é ela!

SAIBA MAIS

AZEVEDO, Álvares de. Lira dos Vinte anos. São Paulo: FDT, 1994

BARBOSA, Onédia. C. C. Byron no Brasil: traduções. São Paulo: Ática, 1974

ROCHA, Hildon. Álvares de Azevedo: anjo e demônio do romantismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982

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