Ensaio

A presença da crônica na literatura brasileira

00:00 · 11.10.2013
A crônica é, indubitavelmente, o gênero que mais se utiliza dos fatos do cotidiano humano

Isto, sem, no entanto, deixar-se vencer pela linguagem coloquial, simplória e impregnada de "lugar-comum" característicos desse espaço, optando, ao contrário, pela manifestação de construções "desautomatizantes", pelo trabalho minucioso com a linguagem, pelo recorrente uso da metáfora e por uma boa "dosagem" de ficcionalidade. Todas essas, marcas da produção literária.

Gênero híbrido

A crônica brasileira, especificamente, reúne em si traços característicos do ensaio, do conto e dos antigos folhetins de jornal, tendo como distintivo o de ser um espaço heterogêneo. Exatamente por ter esse aspecto de heterogeneidade, a crônica se apresenta unida a outros gêneros podendo, dessa forma, ser: crônica narrativa ou ficcional onde a diferenciação com o conto, em alguns momentos, praticamente se dissolve; o poema em prosa, bastante recorrente no texto de Rubem Braga, considerado por muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis; a crônica informação, com traços característicos do jornal; a crônica de cunho mais metafísico, filosófico; a crônica comentário, onde se apreciam acontecimentos. Eis, em linhas gerais, o universo da crônica brasileiro.

A partir dessa noção histórica do gênero no Brasil atrelada a uma leve influência da concepção "formalista" de literatura na qual apenas o texto, autotélico, autoreferencial, interessa, é que tencionamos lançar um olhar apreciativo sobre a cronística, realizada nos tempos atuais, no intuito de desvendar relações, algumas nuances textuais, perceber as inúmeras influências e intertextualidades deflagradas em seus textos e tentar discernir a maneira como o autor lida e reproduz em sua obra a heterogeneidade da crônica. Diria "leve influência" por entender ser a crônica um espaço onde sobeja a subjetividade do cronista, sendo impossível analisá-la inteiramente dissociado da intenção autoral.

Singularidades

O termo "crônica" deriva-se da palavra grego "chronos", palavra que indica a noção de tempo.

E é o tempo a principal matéria dessa categoria literária. Mas não o tempo transcendente, mas o imanente, o cotidiano, do dia-a-dia.

O próprio cronista Silas Falcão no texto "Instantâneos" - uma espécie de "metacrônica" - expressa ser o cronista um "coletor de flagrantes", alguém que "esquadrinha instantâneos humanos, dissecando os objetos de sua representação literária" (FALCÃO, 2010). Tais "instantâneos" são colhidos justamente nos eventos banais, na própria vida regular, costumeira.

A crônica foi essencialmente importante no processo de implantação e divulgação de uma literatura propriamente brasileira no século XIX, sobretudo por estar associada ao jornal onde era escrita nos mesmos moldes dos folhetins, sem, contudo, carregar o mesmo traço de sucessividade.

FRANCISCO GEILSON ROCHA
COLABORADOR*
Do Curso de Letras da Uece

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