Ensaio

A ponta do alfinete de João Ubaldo Ribeiro: um universo de diálogos

A ficção concentra ordem de forças poético-estilísticas que revela um grande e especial mundo literário

00:00 · 27.07.2014

A singularíssima metáfora da pequena ponta de um alfinete encerrando todo o universo concretiza-se perfeitamente na obra de Ubaldo Ribeiro. O autor cria uma teia de significações e diálogos que amplia as relações de sentido de seu texto como um universo em expansão. Em seu monumental livro "Viva o Povo Brasileiro", João Ubaldo Ribeiro escreve: (Texto I)

Leitura do excerto

No trecho, Ubaldo Ribeiro associa dois mundos aparentemente inconciliáveis: o mundo físico do universo e o mundo imaterial da criação artística. A associação está justamente no que há de impalpável e incomensurável nos dois. A intangibilidade do momento primeiro da criação do universo e da poesia (re) instauram o elo significativo entre ambos e no texto.

A poesia, só e muda, em estado de dicionário, segundo Drummond, está esperando ser aceita para existir e revelar-se do segredo do mundo original da poesia. É o singular mundo primeiro, mundo do antes, do não conhecido, em outras palavras, do antes, quando da criação poética. O universo origina-se, no marco zero do mundo, quando toda a matéria coexiste e concentra-se ininteligivelmente, onde as leis da física e da matéria não se aplicam aos corpos atômicos, tão quentes e vibrantes que, ao não se conterem explodem. Estes dois mundos paradoxalmente distintos e comuns trazem consigo a marca do inalcançável aos limites de nossa compreensão e beiram às especulações abstratas, porquanto, de plenitudes imaginativas e criativas.

A coexistência dos diversos corpos que compõem o mundo, num momento singular, e a intangibilidade compreensiva da criação são apropriadas por Ribeiro como instâncias estilísticas na composição de sua peça literária.

Ao aproximar as representações e discursos da física quanto à origem do universo e da arte quanto à criação poética, o autor cria o seu mundo literário carregado de potências e/ou energias significativas que lançarão e/ou expandir-se-ão em cadeias de relações de sentido surpreendentes. Tudo isso, assim sendo, cingindo a polissemia poética e a dinâmica do universo.

Recursos expressivos

O campo semântico do discurso científico da física afirma-se no texto pelo uso dos vocábulos "partículas de matéria", "moderníssima ciência", "corpo", "pressão", "temperatura", "catalisadores". Já o termo "alminha", por seu teor significativo que se associa ao imaterial, impalpável, metafísico, enfim, que foge à experiência empírica do ser humano remete à experiência da incompreensão do homem a respeito do mundo primeiro do antes de existir o universo, do desconhecido.

Tais expressões semânticas relativas ao tangível e intangível possibilitam a criação poética, quando João Ubaldo Ribeiro agrega-os nas expressões neológicas "inquantidade de nada", "incomposição" e "reações de nada com nada", "não-massas de nada". A partir de termos estranhos e inexistentes na língua, cria-se uma nova linguagem no texto, e nesta o texto poética se instaura. A ligação entre os campos semânticos da ciência e da metafísica, comumente concebidos radical e diametralmente opondo-se, possibilitam, portanto, a criação de um novo mundo, o do universo poético.

Qual o universo, este mundo poético apresenta uma dinâmica caótica. As pulsões de criação e destruição desenvolvem-se no texto inextricavelmente de modo que apenas com a desconstrução do discurso instaurado ao início e longo do texto a poesia realiza-se. Uma expressão bem ao sabor carnavalesco modernista traduz o potencial significativo do texto: "poleiro das almas". Igualmente, a paródia e ironia são que encerram o trecho, numa espécie de desfecho irresistivelmente apolínio e dionisíaco. Que não se esqueça que as teorias modernas sobre o universo preveem em sua expansão o seu fim, ou seja, como um ciclo cósmico poderoso e inevitável.

FIQUE POR DENTRO

O s sentidos e os diálogos no tecido ficcional

João Ubaldo Ribeiro adjetiva o mundo espiritual - cujas representações em si, em tese, já desautorizam o mundo racional-empírico-científico -, que origina a vida, com o epíteto escarnecedor "poleiro", descontruindo toda a seriedade da discussão científica em torno do tema da intangibilidade do momento zero da criação, além de relacionar o espiritual com o material, numa tirada irreverente e irônica da especificidade empírica da metodologia científica. Disto posto, a última frase é exemplo cabal: "que ele se transmuta num nada crítico e desta maneira surge algo desse nada", (p 18). A relativização das construções de sentido do texto ocorrem por modalizadores dúbios e ambíguos tais "com quase toda a certeza", "não há como saber", "nada com nada". De fato o que se constitui é um anti-discurso de uma anti-história. A ordem poética estabelece-se na (des) ordem e (des) construção dos sentidos e diálogos do texto.

Trechos

TEXTO I

"As alminhas são como certas partículas de matéria, também descritas pela moderníssima ciência, que têm cor, sabor e preferências, mas não têm corpo nem carga. Tanto as alminhas quanto as partículas não obstante existem, tudo dependendo da inquantidade de nada que não entra em sua incomposição e, com quase toda a certeza, de outras condições científicas, tais como pressão, temperatura e a presença de bons catalisadores para reações de nada com nada. Então, nas amplidões siderais, imensuráveis e copiosas não-massas de nada escorrem, obviamente sem qualquer velocidade que lhes seja inerente, para juntar-se nas proximidades de algum poleiro d'almas. Se o nada procura os poleiros d'almas ou se os poleiros d'almas procuram o nada, não há como saber. O fato é que, nas vizinhanças de um poleiro d'almas, o que ocorre é nada, nada por todos os lados, uma infinitude de nada inimaginável em toda a sua inextensão. Nada e mais nada e mais nada e mais nada ali se vai aglomerando, até o ponto em que se acumula tanto nada que ele se transmuta num nada crítico

E desta maneira surge algo desse nada". (p 17-8)

Marcos Roberto dos Santos Amaral*
Especial para o Ler

*Ensaísta e professor

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