Ensaio

A poética da margem final

00:00 · 27.12.2013
Manuel Bandeira apresenta vários momentos em que põe em relevo a reflexão que faz sobre a morte

Não se trata, porém, à moda dos românticos, de uma evocação idealizada. O poeta, desde jovem, conviveu com a sombra de uma tuberculose que o perseguiu e influiu sobre sua poética. Não precisou, para isso, de uma eloquência desesperada e verborrágica. O poeta reduz a forma e as cenas ao essencial, buscando tirar delas a máxima significação poética, também quando tematiza a morte, como o que ocorre em "Momento num café" (Texto I):

Leitura do poema

O título do poema remete a uma circunstância cotidiana. O apelo a ambientações dessa natureza concorda com as iniciativas modernistas de retirar arte do aparentemente banal. O indefinido "num" do título sugere que o acontecimento poderia ter-se passado em qualquer Café. O poema-narração inicia-se com uma marca temporal indefinida: "Quando". Nota-se, então, que a referência circunstancial é um recorte de um instante. Nos versos 02 e 03, duas escolhas referenciam uma época passada: o "Café", estabelecimento onde a sociedade (intelectuais, burgueses) encontrava-se; e o (ainda) uso do "chapéu". Diante do "enterro" que passa fora, "os homens", de dentro do café, "tiram o chapéu" e saúdam "o morto".

O Eu, plurissignificando esses gestos com advérbio "maquinalmente" e o adjetivo "distraídos", denota, da parte daqueles, apenas uma automação ritualística da sociedade, e não manifestação de pesar, porque, afinal, todos estavam e precisavam continuar a estar "voltados", "absortos" e "confiantes na vida". Há, portanto, um contraste entre o café a rua. Oposição intensificada pela palavra "vida", reiterada três vezes como palavra final dos versos 05 ao 07. Na segunda estrofe, após a adversativa "no entanto", surge uma personagem, identificada como "Um", que, diferente de seus pares, é absorvido pelo fato de fora.

O Eu poético caracteriza seu gesto com os adjetivos "largo", "demorado" e, para identificar esse olhar lançado, o advérbio "longamente".

A polissemia

Observam-se, pois, dois significados atribuídos ao "enterro": o do grupo indiferente e o de apenas um indivíduo, voltado e absorto em sua reflexão. Como um narrador onisciente, o Eu traduz a conclusão metafísica daquele, definindo a vida como "agitação sem finalidade" e "traição".

Alegoricamente, expõe uma visão pessimista da vida, resultante da trágica tarefa de sobreviver a sua tuberculose mal curada. Aqueles da primeira estrofe, portanto, estariam confiantes no que é perecível e irreversível e traídos pela esperança no nada. A saudação feita pela personagem sensível, dá-se de modo espiritual, íntimo, e não convencional e frio. Nos dois últimos versos, ao atribuir liberdade à matéria e extinção à alma, subentende-se que o peso carregado pela vida não está no que nela há de orgânico, mas no que há de oculto.

Do Curso de Letras da Uece

TEÓFILO BEVILÁQUA
COLABORADOR*

Trechos

TEXTO I

Quando o enterro passou/Os homens que se achavam no café/Tiraram o chapéu maquinalmente/Saudavam o morto distraídos/Estavam todos voltados para a vida/Absortos na vida/Confiantes na vida.///Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado/Olhando o esquife longamente/Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade/Que a vida é traição/E saudava a matéria que passava/Liberta para sempre da alma extinta.

FIQUE POR DENTRO

Aspectos da vida do autor e ainda de sua obra

Manuel Bandeira nasceu (PE, 1886; RJ, 1968), uma vez eliminados os resíduos parnasianos e simbolistas dos primeiros livros (A cinza das horas; Carnaval), enquadra-se na vertente mais clássica do espirito modernista: tece, com a mesma habilidade, versos brancos e livres ou rimados e metrificados; rompe as barreiras entre a prosa e a poesia. Predomina em sua escritura o lirismo do eu, confessional, mas o cotidiano jamais desaparece de seus textos. Desenvolveu, principalmente, os temas da morte, do cotidiano, da infância, com pessimismo, humor e ironia. Seu poema Os Sapos (crítica ao formalismo parnasiano) foi declamado por Ronald de Carvalho, quando da abertura da Semana de Arte Moderna.

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