Ensaio

A poesia como espaço da invenção

00:00 · 04.10.2013
Mais à frente, o autor confirma que a criança faz uso inapropriado do verbo; contudo, Manoel de Barros orienta o leitor, ao afirmar, no poema, que a poesia "é a voz de fazer nascimentos", isto é, a poesia é o lugar da criação. Assim, podemos concluir que Manoel de Barros desfaz em sua poética a antiga concepção que se tinha acerca da criança, isto é, de que esta seria um ser "sem voz". Assim, em seus poemas, a criança tem a liberdade de brincar com as palavras, reinventando-as e dando a elas novos sentidos.

O lúdico

No "Poema XIX", observaremos que, novamente, o eu lírico se utilizará do verso livre e da divisão do texto em uma única estrofe. Além disso, o poeta fará uso de algumas metáforas, no intuito de compor certos recursos imagéticos, que vão sendo formados no decorrer de todo o texto. Nesse poema, a criança, mais uma vez, é vista por Manoel de Barros, como sendo a responsável pela criação e pela inventividade de novos vocábulos, consoante: (Texto II)

A criança, para Manoel de Barros, não é caracterizada como sendo um ser ingênuo e incompetente, sendo, para além disso, um ser inquieto, inventivo e transgressor, capaz de criar um mundo inserido no mundo maior. Logo, tendo em vista os primeiros versos do poema, observaremos que a criança em sua, "ingenuidade transgressora" criará diferentes conceitos, para o rio que corre atrás de sua casa "O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole...".

A criança não tem, portanto, a preocupação de saber o verdadeiro nome da curva do rio, uma vez que o mais interessante para ela é o fato de poder dar nome às coisas, tendo em vista o cenário de imagens que estas oferecem, assim, aos olhos.

Mundos opostos

O poeta nos mostra, ainda, um pouco da incompreensão do adulto, que não ouve a criança, considerando-a como ser incompetente e incompleto, ignorando a capacidade da mesma de estabelecer semelhanças. Observemos os versos: "Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada.". Nos versos seguintes, perceberemos que a conceituação feita pelo adulto desencoraja um pouco a imaginação da criança ("Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada."). No último verso do poema, vemos que, embora desencorajada em sua fantasia e imaginação, a criança não concorda com o conceito dado pelo adulto e diz: "Acho que o nome empobreceu a imagem.", o que nos mostra, a liberdade inventiva dada à criança nos poemas de Manoel de Barros.

Por fim, podemos concluir que a criança será vista pelo poeta como aquela que melhor dispõe da capacidade de estabelecer semelhanças, possuindo o dom da imaginação, característica que a difere totalmente dos adultos.

O sabor do nada

Manoel de Barros, ao longo de todas as suas obras, constitui uma poética voltada para o uso de neologismos sem, porém, deixar de apresentar a língua portuguesa em suas origens. O poeta, assim como afirma Larrosa (2002), possui uma poesia de caráter singular: "suas opções poéticas têm algo da anti-retórica e da anti-erudição da poesia pau-brasil, que se traduzem em liberdade, alegria, rebeldia linguística, ironia, minimalismo, gosto pela surpresa verbal, pelo lúdico, pelo coloquial e pelo exercício poético de fazer insólito o cotidiano e cotidiano o insólito.".

Assim, podemos dizer que a poesia de Manoel está intimamente relacionada ao universo infantil, pois apresenta "o gosto por nadas", isto é, o poeta, tal qual a criança, tem a capacidade de enxergar a poesia, onde todos só conseguem ver a realidade e o senso comum. Tendo em vista isso, torna-se, assim, mais claro o gosto do poeta por falar em suas poesias de latas, parafusos velhos, cisco, lagartixas e formigas. (M. F. L.)

Trechos

TEXTO II

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás/ de casa./ Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada./ Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada./ Acho que o nome empobreceu a imagem.

Saiba mais

ARIÈS,
Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981

BARROS, Manoel. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010

LARROSA, Jorge. Introducción. BARROS, Manoel de. Todo lo que no invento es falso (Antología). Tradução de Jorge Larrosa. Edicion bilingüe. Málaga: C. E. D. M., 2002

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