Ensaio

A paisagem em dois planos

00:00 · 29.11.2013
Nas décadas de 40/50, do século passado, o Arraia Moura Brasil, especialmente a descida da Rua General Sampaio, Gasômetro, e, Bar São Jorge, representava a escória do "habitat" do baixo meretrício, comentada nas páginas dos jornais da Cidade, por ser o "bas fond" ilhado de promiscuidade. Conhecida como zona perigosa e temida, se confundia com a medida do perigo de vida com o da morte. Quem por ali caminhava, sabia que, ao lado da descida do curral, havia um dos mais famosos "Chateaux" da redondeza - o camuflado "Oitão Preto", ao lado da Pensão da Olímpia, a meia quadra da Cadeia Pública ou Casa de Detenção. Ali, os cidadãos de meia idade faziam seus idílios vesperais.

A outra face

A Pensão da Olímpia era pousada das selecionadas mulheres por madames que as mandavam buscar fora, cobrando os mais caros michês, cujo proxeneta Paulet se encarregava de facilitar com o cambio entre Estados. Por ser ambiente de certo recato, era frequentado por cidadãos de alto coturno, cuja posição social não permitia transpirar as escapadelas junto as suas famílias para entregar-se ao clandestino amor aventurado. Assim, o horário, reservado para esses encontros, era geralmente no espaço de expedientes matinal ou véspera, l segredado o resguardo entre parceiros.

Era verdadeira aventura dos interioranos, deslocando-se da terra natal para enfrentar a urbe antes nunca vista abismando-se muitas vezes da civilização aqui encontrada repentinamente, apreciando cenários inéditos num deslumbro de sucessivas paisagens na Capital.

Tentações da paisagem

O matuto que nunca vira as nossas paisagens, cada vez mais se abismava diante daquela amplidão de céu e mar, com apoteose deslumbre, o azul e verde imposta pela natureza. O sertanejo meditava naquele mundo fantástico, como se descobria onírico lugar que lhe fora reservado pela natureza. Era um paraíso na terra, ver comensurar com os olhos tanta beleza que rodeava aquele mapa de surpreendente visão que vinha do céu. A praia se banha de uma espuma que desfaz rolando sobre a terra até se infiltrar no solo que acabara de se esquentar do calor de um dia causticado por mormo sopro da aragem que vinha do mar.

Os sertanejos, quase enfileirados, desciam a rampa quase íngreme em direção ao mar, para apreciar abismadamente aquele "açude do Sr. Boris - o "marzão". Ademais, o sertanejo cearense já nasce com o corpo e alma preparados para suportar intempéries da vida, porque calejado pelas vicissitudes enfrenta com galhardia e destemor por está na sua sina predestinada para cumprir na terra com intrepidez e coragem. Taz a bravura no sangue É o nosso Ceará revestido pelo cinza plúmbeo e no céu cravejado de estrelas cintilantes faíscas na abobada.

Considerações finais

Assim a natureza em festa de uma noite cujas "serranas" mais típicas "camponesas" fazem orações, acendem velas em redor das fogueiras armadas, que servem para assar batata doce, carne salgada, sapecada, num ambiente que cheirava a mato verde, perfumado com mangerioba, vinagreira, carrapateira, flores rasteiras de "nove-horas" vermelhas e brancas, verbenas deixando o odor características das plantas, e flores que nas noites serenas abriam perfumadas "estrelas", espargindo o cercado, cujo odor tinha a suavidade de uma essência embriagadora misturando-se no solo da terra úmida banhado pelo cheiro de mato.

Por sua vez, nas tardes plúmbeas e melancólicas, os pássaros voavam em busca dos ninhos, situados nas mais altas galhas aconchegando-se uns aos outros entre as asas preparadas para voo, por ser na colina, difícil dizimar na amplidão orvalhada com gotinha, deixavam a folha para se sustentar no cálice da flor virgem desabrochando despida receber os raios solares banhando pétalas, pistilos fortalecendo o androceu.

O perfume que se expande no ar, inebriando o cume da igreja, suavizava; pirilampos, voando com a fosforescência, ziguezagueiam no escuro da noite com luminosidade quase invisível, dando ao luar prateado a silhueta dos casais que trocam carícias, com os corações suavizando todos os perfis com aroma embalando as horas e o mar. (Z. A.)

Saiba Mais

DIAS, Mílton. Entre a boca da noite e a madrugada. Fortaleza: UFC, 2006

ESPÍNIOLA, Adriano. Beira-Sol. Rio de Janeiro: Topbooks, 2006

Olímpio, Domingos. Luzia-Homem. Rio de Janeiro: Ática, 2009

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