ENTREVISTA COM Camilo Cavalcante

A odisseia da persistência

Contemplado por um edital para filmes de baixo orçamento do MinC, o longa-metragem pernambucano "A História da Eternidade" coleciona prêmios e elogios. O cineasta Camilo Cavalcante, que vem a Fortaleza para o lançamento do filme no Dragão do Mar, fala dos desafios enfrentados

00:00 · 06.03.2015
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Camilo Cavalcante: "Viajei bastante para encontrar essa 'alma sertaneja'. Conversava com muitas pessoas, anotava tudo, para dar mais densidade ao roteiro"

"A História da Eternidade" levou 12 anos para ser feito. Em outras entrevistas, você disse que a maior dificuldade foi a captar recursos. A demora deveu-se a isso?

Sim. Demorou por questões financeiras mesmo. Eu inscrevia o projeto em concursos, editais e não dava certo. Até que, em 2010, fomos contemplados num edital do Ministério da Cultura (MinC) para filmes de baixo orçamento, e também conseguimos uma verba do Funcultura, do Governo de Pernambuco. Com isso, conseguimos o valor para as filmagens, que aconteceram em 2012. Finalizamos em 2013, ainda com parte desses recursos e com parte do Canal Brasil, que entrou como pós-produtor. Em 2014, o filme circulou em festivais do Brasil e exterior, e agora estreia no circuito. Na verdade, o longa foi um gesto de insistência, persistência.

> O sertão se faz universal

Por que o projeto do filme encontrou esta resistência?

Porque é um funil muito grande, muita gente inscrita para poucas premiações. São cerca de 200 projetos para sete vagas. A concorrência é grande.

Há algum caminho para o Brasil desenvolver um mercado cinematográfico menos dependente de políticas públicas? É algo que você vislumbra ou que ainda está muito longe?

Está muito longe. Se você observar, até os filmes realizados com muitos recursos e que têm, por exemplo, grande empresas por trás, como a Globo Filmes, utilizam recursos públicos. Para nós, produtores independentes, é fundamental a participação do Estado. Por enquanto, é a única forma de realizar trabalhos. Há ainda uma questão mais grave que é a distribuição no Brasil. Costumo dizer que não lançamos, nós "ocupamos" as salas. Conseguir um espaço para exibir os filmes dentro dessa estrutura de distribuição quase mafiosa é difícil, há inclusive sabotagem para você não chegar às salas. O mercado está completamente loteado e fechado pelas grandes distribuidoras. Furar esse bloqueio é complexo. Em cidades como Recife e Fortaleza, que têm salas como as da Fundação Joaquim Nabuco, é tranquilo, mas chegar às salas de shopping é complicado.

Qual sua relação com o sertão para falar sobre ele?

Morei boa parte da infância no interior do Piauí e da Paraíba. Tenho uma vivência pessoal do sertão. Mas, ainda que o filme se passe neste espaço, ele tem temáticas completamente universais. Fala sobre desejo, sobre amor, sonhos. Costumo dizer que, mais do que uma região seca, árida, onde as pessoas precisam se sacrificar pela subsistência, o sertão representa um território da alma humana, onde as relações interpessoais acontecem de maneira mais direta e franca. Então é possível que ali nasçam histórias de amor sem lapidação, em estado bruto. Mas o filme poderia ocorrer, por exemplo, no deserto do Atacama, no Irã, em lugares onde a chuva seja elemento transformador.

O fato de o lugar ter essa relação peculiar com o tempo, que parece obedecer a um ritmo diferente, é algo essencial para o filme, não?

Sim, filmamos num vilarejo chamado Santa Fé, a 60 km de Petrolina, sertão pernambucano. A única forma de comunicação é por um telefone público, que até usamos como elemento cênico. Foi importante podermos estar nesse lugar para os laboratórios do elenco, quando pudemos construir os personagens com mais profundidade. São personagens dos quais todo mundo já ouviu falar, mas ressignificados. Cego Aderaldo, por exemplo, foi um poeta que viveu no Ceará e que faz parte da mitologia do Estado. No filme, ressignificamos ele. Há vários desses arquétipos, o filme traz uma visão de dentro pra fora do sertão, não aquela do estrangeiro.

Você tem um curta homônimo, de 2003, que também aborda o sertão. A despeito de ele ser mais experimental, pode-se dizer que o longa é uma extensão dele?

Não diria uma extensão, mas um desdobramento. As histórias do longa começaram a surgir a partir da realização do curta. Os dois também têm em comum essa necessidade de sinestesia, com propostas de provocar sensações nos espectadores, físicas e sentimentais. Essa proposta é muito clara nos dois, mas em termos narrativos são realmente bem diferentes. O longa tem narrativa mais clássica, linear.

Você já falou que, em algum momento do processo, depois do curta, voltou ao sertão para fazer pesquisa. Pode falar um pouco sobre ela?

Fui procurar me alimentar para escrever as histórias do roteiro. Viajei bastante para encontrar essa "alma sertaneja". Conversava com muitas pessoas, anotava frases, situações que ouvia, para dar mais densidade ao roteiro.

Para você, o envolvimento da equipe com a comunidade foi algo especial, marcado por um clima de comunhão e respeito. No vilarejo mesmo só há duas senhoras morando, que adicionaram mais três casas cenográficas. Vocês ficavam hospedados em cidades próximas? Como foi partir e deixar aquelas pessoa ali?

Essas senhoras moram ali, mas as famílias moram nas comunidades próximas, aí voltam nos fins de semana ou folgas, pra fazer festa, almoçar. Para nós, ficou aquele ar de saudades, passamos quase três meses lá, entre pré-produção e filmagens. Temos obrigação de voltar e fazer uma exibição do filme lá. No processo de laboratório chegamos a dormir lá, mas normalmente ficávamos em Juazeiro da Bahia.

Como conseguiu a participação do polonês Zbigniew Preisner na trilha?

Pra mim foi um grande sonho trabalhar com ele, que compôs trilhas para Krzysztof Kies'lowski, que fez a trilogia das cores ("A liberdade é azul", "A igualdade é branca", "A fraternidade é vermelha"), fez a série "Decálogo", "A Dupla Vida de Véronique". Ele era um colaborador muito próximo desse diretor. Chegamos até ele por seu agente. Num primeiro momento era impossível conseguir contratá-lo, completamente fora do nosso orçamento Mas depois, até por conta da crise europeia, ele ficou mais acessível financeiramente. Mostramos um corte do filme, ele gostou e aceitou trabalhar conosco. Ficamos felizes, porque é um profissional exigente.

A trilha também teve colaboração de Dominguinhos, um ícone da cultura sertaneja. Os dois representam contextos muito distintos. Como foi esse casamento?

Dominguinhos compôs todos os temas do cego Aderaldo. Foi se último trabalho antes de ele falecer. Pra nós, foi mágico. A música nesse filme também é um personagem, é muito forte, fala muito, expressa muito. É engraçado porque essa melancolia do europeu comunga com a melancolia do sertão. Elas se complementam.

A fotografia também foi elogiada.

A fotografia é de Beto Martins, fotógrafo nascido no sertão da Bahia. A família dele ainda mora lá, mas ele construiu carreira em Recife. Pesquisamos muito na pintura de Caravaggio, que tem essa coisa do claro e escuro muito bem definida. Por conta da vivência de Beto, sua fotografia não é aquela da pupila que se dilata pelo sol sertanejo, mas aquela de quem já está acostumado com isso. Ele traz o sol natural do sertão. Não tratamos de adornar nem estetizar o ambiente, permitimos que sua beleza respirasse e impregnasse a tela.

Sobre a atriz cearense Debora Ingrid, como a encontrou?

Fizemos muitos testes, em Recife, João Pessoa, Salvador, Natal. Por último fomos a Fortaleza. Recebi um filme do qual ela participa, "Doce de coco", do Allan Deberton. Achei ela interessante como atriz. Quando fizemos o teste, não tive dúvidas. Ela tem um talento nato e é uma jovem dedicada.

Adriana Martins
Repórter

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