romance

A natureza frágil e pastosa da nossa subjetividade

00:51 · 31.08.2013
As personagens parecem existir tão somente de cima para baixo; interessa o universo da intimidade

A ficcionista Virginia Woolf nasceu na cidade de Londres em 1882, onde, sofrendo de grave depressão, cometeu suicídio em 1941. Filha de um editor, recebeu esmerada educação, tendo, desde cedo, convivido com o mundo literário.

Detalhe da capa do romance "Ao Farol", de Virginia Woolf. A narrativa percorre o universo da burguesia vitoriana e tem como pano de fundo os valores que envolvem o universo em meio à Primeira Guerra Mundial

Um de seus romances mais notáveis é Orlando - uma alegoria da era vitoriana. É, sem sombra de dúvidas, uma das mais importantes escritoras da literatura inglesa do século passado, bem como uma das mais atuantes personalidades culturais do grupo Bloomsbury - entidade que abrigava, no empós da Primeira Guerra Mundial, artistas que iam de encontro às tradições literárias que, de uma forma ou de outra, gravitavam em torno dos elementos-chave que traduziam a era vitoriana.

As marcas de sua escritura fazem com que se apresente como uma voz singularíssima; desse modo, de seu texto, evola-se a presença de metáforas insólitas, da mesma forma como se inscrevem os sinais efetivos do fluxo da consciência, do monólogo interior, bem como a ruptura com o enredo notadamente factual.

Por conta disso, suas personagens estão mergulhadas, constantemente, em profunda introspecção, vivendo, assim, a experiência de uma existência nebulosa, apresentando-se como castradas para o mundo real e concreto.

O enredo

Nesta narrativa, "O Farol", assoma a vida em comum da família Ramsay, cercada por seus amigos, numa casa de veraneio nas ilhas Hébridas; o cenário que se inscreve ao redor dessas relações sociais configura o que decorre, em termos psíquicos, sociais, políticos e econômicos, da Primeira Guerra Mundial. A trama é construída a partir de uma multiplicidade de vozes narrativas, numa alternância de personagens, de tempo e de espaço: "Agora, todas as velas estavam acesas, e sua luz aproximava os rostos em cada lado da mesa, compondo, coisa que não acontecia durante o crepúsculo, um grupo ao redor da mesa. Pois a noite fora isolada lá fora pelas vidraças, que, longe de proporcionar uma visão precisa do mundo exterior, ondulava-o de modo tão estranho, que ali, dentro da sala, parecia haver ordem e terra firme; lá fora, apenas um reflexo onde as coisas oscilavam e se desvaneciam, fluidamente". Como se percebe, tudo isso encontra aliança numa linguagem bem trabalhada, que, constantemente, toca o poético, eliminando, assim, as fronteiras entre a prosa e a poesia.

Traços ficcionais

A escritura de Virginia Woolf concentra-se, sobretudo, nas regiões mais profundas do inconsciente de suas personagens; desse modo, ela investiga os desejos e as volições que, as mais das vezes, são ignoradas até mesmos por elas próprias. Assim, o espaço exterior perde importância para o que sentem e vivenciam os protagonistas dos enredo.

A forma

Este romance se divide em três partes, apesar de a personagem Mrs. Ramsay converter para si a condução maior do ponto de vista. Tudo envolve uma alegoria acerca da compreensão da vida como uma sucessão de perdas, ganhando relevo o vazio que, a rigor, parece alimentar o cotidiano das personagens.

Considerações finais

Ainda que a trama seja narrada em terceira pessoa, isto é, a partir de um ponto de vista onisciente e onipresente, o fato de que as personagens são, constantemente, flagradas em profundas reflexões sobre si mesmas ou sobre os acontecimentos ao redor, faz com que o emprego reiterado do discurso indireto livre dê a falsa impressão de uma primeira pessoa. Como consequência desse recurso expressivo, a narrativa é banhada por uma multiplicidade de vozes, implicando uma intensa polifonia.

Uma das sensações mais permanentes nesta narrativa é a da dissolução do tempo; é como se as coisas não estivessem sob a égide de uma mesura. As estranhas alianças que as palavras estabelecem umas com as outras configuram o estado poético. A linguagem, assim, tem a força viva de uma personagem.

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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