Ensaio

A mulher vista em Soneto de Devoção

00:00 · 25.10.2013
A história nos mostra que a mulher sempre foi um tema recorrente na literatura, não se restringindo a uma época nem a um lugar específico. A beleza feminina é causa da beleza literária. A mulher ideal, inexistente na realidade, ganha vida na arte da palavra. Tal movimento pode ser notado de maneira especial nos escritos de Vinícius de Moraes, em que a mulher é reverenciada, mesmo divinizada. A mulher é a esperança, a razão de ser do poeta.

Ao lado de toda essa idealização, encontramos também traços de erotismo e sensualismo, o que confere aos versos amorosos de Vinícius de Moraes um certo aspecto realista. É nesse estilo contrastante, tenso, que se dá a escrita de Vinícius.

Leo Spitzer escreveu que os neologismos criados por Rabelais em Gargantua teriam origem em seu psiquismo. Talvez o linguista austríaco também viesse a afirmar que muitos dos poemas de Vinícius de Moraes estão relacionados com um sentimento que lhe é predominante: o amor absoluto pela mulher ideal. A partir do pensamento de Leo Spitzer, tomemos o "Soneto de Devoção", de Vinícius de Moraes: (Texto I)

Leitura do poema

Neste soneto vê-se um forte teor erótico. Essa mulher que se arremessa, fria e lúbrica, nos braços do "eu" poético e lhe arrebata e lhe beija e balbucia versos, votos de amor e nomes feios. Essa mulher que guarda a marca dos dentes do amante. Tal é a mulher do soneto: sensual, arrebatadora; tal é a criatura que envolve totalmente o poeta.

É possível notar um certo resquício da formação religiosa de Vinícius de Moraes. O impasse entre as realidades carnais e espirituais verifica-se no tom hesitante dos dois primeiros versos da segunda estrofe: "Essa mulher, flor de melancolia / Que se ri dos meus pálidos receios".

O conflito entre o sentimento religioso e as inclinações da carne também pode se vê no seguinte trecho: "Essa mulher que a cada amor proclama / A miséria e a grandeza de quem ama". É a miséria da carne que impede a libertação do espírito. Nos mesmos versos, a mulher, aquela que proclama a cada amor a miséria e a grandeza de quem ama, assume uma posição de superioridade, de quem submete o homem, de quem é a causa de sentimentos tão intensos.

Elementos-chave

No soneto em análise, nota-se que a figura feminina tem um caráter de unicidade, um ser que arrebata os sentimentos do "eu" lírico, de modo que só a ela a sua atenção é dedicada: "A única entre todas a quem dei / Os carinhos que nunca a outra daria". A sua beleza é superior a de todas as outras mulheres: "mas na moldura de uma cama / Nunca mulher nenhuma foi tão bela!". Salta aos olhos a vivacidade do seguinte verso: "Essa mulher é um mundo!". A mulher é tomada como um ser divino, capaz de sustentar a existência do "eu" lírico, ou este se vê de tal maneira apaixonado, que chega a conferir a esse amor a grandeza de um mundo. Logo em seguida: "uma cadela / talvez...". Pode ser que, assim, o poeta esteja a lamentar a sua condição, uma vez que essa sua paixão o prende aos deleites da carne.

Considerações finais

Enfim, figura em "Soneto de Devoção" a imagem da mulher arrebatadora, fascinante, de uma sensualidade realista e erótica. Mulher de uma notável superioridade, inclusive em relação a outras mulheres. O "eu" poético encontra-se totalmente encantado com a singular beleza da mulher amada, com seus versos, votos de amor e nomes feios. Para essa mulher, a mais bela, o "eu" lírico dedica os carinhos que nunca daria a outra. Com seu estilo hesitante e, por vezes, exagerado, o soneto analisado traz em si marcas da formação religiosa do seu autor. É a formação do seu autor interferindo no fazer poético. Entendemos que as teorias da Estilística Literária, sobretudo quanto ao pensamento de Leo Spitzer, encontram amparo na poesia de Vinícius de Moraes. Em "Soneto de Devoção", percebemos a influência da formação religiosa do poeta ao fazer referência à mulher que lhe desperta desejos, o que resulta num estilo marcado por uma forte tensão. A fixação de Vinícius de Moraes, a mulher, foi decisiva na construção de uma poesia cujo estilo é sensual e contemplativo. É, como defendia Leo Spitzer, o sentimento predominante do autor sendo a causa de aspectos da sua literatura. (A.V. S & F. G. R. )

Trechos

TEXTO I

Essa mulher que se arremessa, fria / E lúbrica em meus braços, e nos seios / Me arrebata e me beija e balbucia / Versos, votos de amor e nomes feios /// Essa mulher, flor de melancolia / Que se ri dos meus pálidos receio / A única entre todas a quem dei / Os carinhos que nunca a outra daria. /// Essa mulher que a cada amor proclam / A miséria e a grandeza de quem ama / E guarda a marca dos meus dentes nela. /// Essa mulher é mundo! - uma cadela / Talvez... - mas na moldura de uma cama / Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

SAIBA MAIS

EAGLETON
, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1983

MARTINS, Nilce Sant´Anna. Introdução à Estilística: a expressividade na língua portuguesa. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1997

MOISÉS, Carlos Felipe. Literatura Comentada: Vinícius de Moraes: seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico. São Paulo: Abril, 1980

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