Cinema

A morte por companhia

Dirigido por Susanna Nicchiarelli, drama recria os anos de decadência da cantora e modelo alemã Nico

A atriz e cantor a dinamarquesa Trine Dyrholm recria Nico com primor, nos palcos e fora deles
00:00 · 03.09.2018 por Dellano Rios - Editor de área

Nico parece ter vivido tudo o que viveu para que suas histórias fossem imortalizadas em canções, livros ou filmes. Sua passagem por Nova York, nos anos 1960, quando participou do álbum "The Velvet Underground & Nico" (1967), já seria o suficiente para lhe garantir um lugar no panteão de heróis e heroínas do rock. Mas a cantora, compositora, modelo e atriz alemã parecia ter o poder de atrair personagens e situações com vocação histórica.

A italiana Susanna Nicchiarelli conhecia bem estes episódios e, ainda assim, fez uma escolha inusitada para sua cinebiografia da artista. Escrito e dirigido pela cineasta, "Nico, 1988" inscreve sua trama entre 1986 e 1988. O recorte tira de cena todo o panteão de estrelas com quem Nico cruzou e que fizeram parte de sua vida. Com a dinamarquesa Trine Dyrholm no papel principal, o filme estreou nesta quinta-feira, 30, no Cinema do Dragão.

A escolha de Susanna Nicchiarelli faz como que seja mais fácil ver Nico como protagonista (e antagonista também) de sua própria história. Afinal, há sempre o risco de pensar nela como uma coadjuvante de luxo, uma espécie de Forrest Gump que está sempre há poucos metros dos grandes personagens e acontecimentos históricos.

Vida heroica

Nascida Christa Päffgen, em 1938, Nico viu sua Alemanha natal arder sob bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Aos 16 anos, ganhou o mundo como modelo, sendo fotografada para revistas como Vogue e Elle e virando garota-propaganda de Coco Chanel. A beleza de Nico fascinou o cineasta Federico Fellini, que a colocou no filme "La Dolce Vita" (1960), e o pianista Bill Evans (é o rosto dela que se vê na capa do álbum "Moon Beams", de 1962).

Nos anos 1960, a aspirante a atriz começou sua carreira na música. Não faltaram entusiastas famosos. O mítico cantautor francês Serge Gainsbourg escreveu uma canção para ela. O primeiro compacto de Nico, "I'm not Sayin'"/"The Last Mile", foi produzido por Jimmy Page (que mais tarde formaria o Led Zeppelin) e bancado pelo rolling stone Brian Jones.

Nico vivia num ziguezague entre os EUA e a Europa. Foi em Paris que ela viveu seu romance com o ator Alain Delon e onde nasceu seu filho, Ari. Delon negou a paternidade do menino - que, adulto se veria, é idêntico ao ator; semelhança que a avó reconheceria bem antes, quando passou a criar o menino.

Na segunda metade dos anos 1960, Nico conquistou Andy Warhol. Estrela da Pop Art, ele mantinha em Nova York um séquito de protegidos/seguidores. À época, Warhol andava interessado no rock'n'roll e tinha uma banda sob sua influência, o Velvet Underground, encabeçado por Lou Reed e John Cale. Warhol pensou que seria uma boa ideia botar Nico no Velvet. Apesar de não gostarem da ideia, os músicos toparam a parceria e a alemã pode ser ouvida em quatro canções do LP de estreia da banda (em três, é dela o vocal principal).

No filme, todo esse passado surge em flashs - ora documentais, ora encenados. Atravessam a narrativa como lampejos da mente quase sempre narcotizada da protagonista. E é neste vai e vem do tempo que a cineasta traduz a infelicidade da personagem. Os dias que ficaram para trás não foram mais felizes, apenas ajudam a mostrar as raízes das dores que insistem em acompanhá-la. Trine Dyrholm encarna uma personagem romântica, inscrita na tradição boêmia dos poetas malditos do século XIX, nascida sob o signo de Saturno e acompanhada, a cada passo, pela Morte.

Solo

A passagem de Nico pelo Velvet Underground marcaria sua vida até o fim. No filme, em mais de um momento, vê-se a Nico de Trine Dyrholm contrariada, confrontando fãs e jornalistas que querem saber de sua fase gloriosa com a banda. É fácil entender que ela não quisesse ser reduzida àquele momento.

Mas Nico soube valorizar sua conquistas da época. "All tomorow's party", uma das canções que Lou Reed escreveu pra ela, estavam presentes em seus shows da década de 1980, retratados no filme, em espaços decadentes e com a cantora envelhecidas e dependente de heroína.

A presença da canção, percebe-se no longa, não se deve a oportunismo ou uma colher de chá para fãs saudosistas. Das três que cantou no Velvet, é a que mais se aproxima de sua estética solo.

Ponto fraco na maior parte das cinebiografias de astros da música, a recriação de performances de palco em "Nico, 1988" são cheias de vigor. Trine Dyrholm assume os vocais e canta em cena, e parece possuída pelo espírito de alemã

Ao seu lado, o público vai viver o inferno da decadência de uma ex-estrela, presa à dependência química, vivendo em espeluncas e se apresentando em lugares piores ainda. Vai enfrentar o passado, com um filho abandonado que hoje sobrevive aos trancos e barrancos aos traumas a ele legados.

Mas, para não mergulhar junto no desespero, este mesmo espectador vai ver, no palco que a tela recria, uma artista que merece o culto que se antecipou a sua morte e foi amplificado com ela.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.