Ensaio

A morte e as representações simbólicas

23:46 · 29.03.2013
Os carros funerários do ano de 1960 e anos anteriores, alguns, fabricados em 1938, eram ornamentados na parte superior com penachos de cor preta com inscrição em letras graúdas de fôrma com desenhos enriquecidos por contorno em alto relevo traduzia a tristeza da família enlutada, cujas coroas em letras de papel cuchê com variadas cores indicava de seguinte convenção: azul para recém nascidos ou crianças; prateada para jovens, donzelas ou solteiras; roxa ou anilada para senhoras ou jovens senhoras que faleciam no primeiro parto, ou, do óbito motivado pelo nascimento do filho; e, preta para senhores, senhoras e idosos.

As coroas confeccionadas aos moldes de coração, cruz, oval, circunferência, ramalhete ou buquê, e separando algumas rosas para serem lançadas na hora do sepultamento como sinal de ultimo adeus. Dependendo da situação econômica, alguns mortos eram acompanhados por banda de música fúnebre a pé ou empurrados à mão por grande número de parentes, amigos e admiradores que vão levar a ultima despedida. A família manifestava o maior tédio, a imensa dor, aqueles momentos antecessores de sepultamento.

O fogo fátuo

A tristeza era maior quando de certa distância se avistava a chegada do "carro fúnebre" que iria conduzir o féretro inerte há algum tempo estampava a esqualidez de um ente, cuja chamada ao Céu se consumou findado o tempo na terra, para caminhar o trilhar e chegar à eternidade. Ali teremos de Deus a sentença final declarando: Tu és pó e em pó te tornarás, prestar-Lhe contas do que praticou entre irmãos e, agora compungidos em busca do estado de purificação. Quando não sabemos o caminho que nos leva ao Criador, o mais fácil e certeiro é palmilhar com as mãos, e com os pés pisar com esperança de alcançar a benfazejas mãos dos bons amigos que estão sempre as nos segurar nos tortuosos caminhos mostrando a subida para o Céu. Por isso o que nos impressiona é se nosso sepultamento que teve várias formas de nos enterrar teremos a feliz ventura de não ser sepultados com o ritual do século passado, na vala comum a esperar que o fogo fátuo caía sobre nós, subindo em grande labareda aos altos evaporando-se, então, como tochas.

Personalidades

Desde a fundação do Cemitério São João Batista em 1888, no local em que ainda permanece, a Santa Casa de Misericórdia, por seu grupo de mordomos, se encarregava de cuidar deste campo santo, dando divisões de vários planos territoriais. O primeiro se iniciava na entrada com túmulos, mausoléus das primeiras famílias e mais nobres e com maior poder aquisitivo.

A começar por túmulos de Carrara- Itália - com imagens e adornos do mais puro mármore e escultura de anjos ou imagens de tamanho natural. Eram túmulos de barões, condes e alta autoridade como o da família Távora, Sombra, Dr. José Lourenço, Dias da Rocha, Fiúza, Capistrano de Abreu, Visconde Cauipe, Barão de Studart, Barão de Camocim, Barão de Ibiapaba, Barão de Aquiraz, Barão do Crato, Irmandades, Maçonaria, Asilo de Mendicidade. Havia outras irmandades - Frei Marcelino, de literatos, pessoas nobres, que eram incrustadas nas paredes que rodeiam a Igreja, com locais apropriados para acender velas em pequenos nichos, com inscrição expressando a data do nascimento e falecimento do de cujus. Eram assim o plano extra: seguia a proporção que se adentrava, o primeiro, segundo, terceiro plano até a chegar aos tanques onde se depositava grande quantidade d´água que era utilizada pelas pessoas pagas para aguar as plantas. Para isso eram contratadas e pagas mensalmente sem nenhuma obrigação laboral para com os proprietários dos túmulos e capelas, carneiros ou outro tipo de catacumbas.

A mensagem

Era também acima de tudo uma demonstração das famílias do apreço e respeitos aos entes que daqui partiram para o plano superior. Já no final havia os ossuários, onde em determinado tempo era retirado e colocado para ser incinerados os ossos, momento em que exalava odor desagradável, subindo para o alto fumaça de cor cinza escura, quase preta, que causava tédio aos que passavam ou entravam no Cemitério São João Batista.

No cemitério

Para se ter ideia da rudimentabilidade erigido no final do Cemitério, de frente para Av. Filomeno Gomes, uma edificação aos moldes de capela, para ali servir de necrotério para exame cadavérico com aplicação nos féretros de formal, quando houvesse necessidade de ser periciado pelo médico legista.

Naquela época existiam dois médicos para atender a esse serviço - Dr. Pedro Herbster Menescal e Dr. Amadeu Furtado Ali, os parentes e amigos poderiam permanecer durante algum tempo do dia ou da noite, aguardando o corpo ser embalsamado, a ser remetido para outras cidades ou Estados. Era de uma precariedade tamanha, e nem oferecia condições condizentes para assistência legal quando faleciam de desastre, suicídios, assassinatos e doenças contagiosas.

Era de causar nojo, e ter o necessário cuidado com as doenças transmissíveis que se tornava necessária imediato sepultamento. Bem diferente do Serviço de Medicina Legal hoje existente na Av. Leste Oeste, bairro Jacarecanga próximo a Escola de Aprendizes Marinheiros, vizinho a Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, ao lado do trilho do trem em direção das diversas linhas que cortam as varias cidades interioranas do Ceará. Quem viajava de trem passava por nosso Campo Santo. A morte por ser traiçoeira, não faz aviso e quando sinaliza todas as esperanças desapareceram antes de sua chegada. No meu túmulo porei: "Nesta lousa sepulcral banhada por lágrimas, Deus as enxugará com seu manto Divino, consolando os padecentes das tristezas, ofegantes lamurias que dilaceram nossos corações".´ Por isso não haverá adeus entre nós, mas um até breve na entrada do Céu, quando formos abordados à Corte Celeste.

Retrato de uma atitude grave e pitoresca

Há muitos anos surgiu aqui um cidadão de aspecto ainda jovial. Tinha grande poder de armazenar fatos e nomes de família ilustre do nosso Estado, das quais se aproximava, apurando laços consanguíneos e divulgando parentesco próximo. Eram pessoas de elevados coturnos sociais.

Esse poder de gravar os nomes das famílias era tão grande que todos quanto o conhecessem e não fossem bem abalizados tinham certeza de tal parentesco, diante do conhecimento que proclamava como verdadeiro Usava um terno de cor preto, como se fora luto fechado; já desbotado o tecido, embranquecendo, substituía-o por outro já usado, que lhe fora oferecido por pessoas caridosas.

Certas pessoas o achavam aziago e se esquivavam dele. Não falava dos defeitos de quem os possuía, mas conhecia o das diversas pessoas, com insinuações e dando sempre uma de "João sem braço", para com pseudo- ingenuidade captar mais subsídios, robustecendo sua fértil imaginação e sarcástico sorriso.

Era um verdadeiro tartufo da comédia de Molière Comparecia à hora das refeições à casa da Sra. Maria de Jesus Dias da Rocha Girão; bondosa, não se negava em saciar a fome de Girãozinho. Por várias vezes, desaparecia não se sabendo seu paradeiro. Depois voltava alegando ter ido a São Paulo a convite de amigos passar período de férias. Infelizmente não se podia dar muito crédito, diante do hábito de "botar a perua para rodar", dizer mentiras que , assim, o descredenciavam.

Ato recorrente

Tinha por hábito visitar o Cemitério São João Batista e, por obrigação as lápides, mesmo sem fazer anotações dos nomes de antigas famílias. Quando muito debruçava-se sobre inscrições dos carneiros nas pedras de mármore de Carrara, como a que se lê no túmulo de Quintino Cunha: "O Padre Eterno segundo refere a história sagrada, tirou o mundo do nada e eu nada tirei do mundo". Girãozinho conhecia na palma da mão as famílias que ali jazem.

Imaginemos a frequência aos túmulos, capelas e carneiros, volteando os que daqui partiram e ficam nas noites de luar sob o balançar dos ciprestes aos ventos que se entrelaçam nas árvores; vão agora trocar de "bem no fim" abraçados pelo esqueleto ósseo, os espíritos ainda cheio de amor que não tem mesmo ânimo sem o tilintar das orações.

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