Ensaio

A metonímia de uma dupla corrosão

00:00 · 27.12.2013
Sobre a poesia de Manuel Bandeira, Antônio Cândido e Gilda de Mello e Souza, na introdução de Estrela da Vida Inteira (Nova Fronteira, 1993) dizem-nos que a natureza de seu discurso literário apresenta: (Texto II):
Alargando “o âmbito normal do poema”, Bandeira transcende os elementos mínimos da realidade, conferindo a eles uma multiplicidade significativa que toca a simplicidade, mesmo quando esta beleza se mistura à morte. Exemplo disso é o poema “O Crucifixo” (Texto III):

Leitura do poema

O poema com versos octossílabos, com oitos sílabas poéticas, com o número de versos de um soneto, mas dividido entre dois quartetos e um sexteto, é iniciado pela fixação temporal da descrição objetiva do “crucifixo”. O tempo presente do verbo ser sugere uma relação, além de temporal, espacial imediata entre o objeto e a voz lírica. Em seu aspecto objetivo, a representação daquele elemento da tradição cristã é caracterizada de forma mínima, demonstrando sua singeleza, nos três primeiros versos: “de marfim” (portanto, provido de uma rigidez concreta) e “ligeiramente amarelado” porque “pátina do tempo escoado”. O quarto verso revela que a presença do crucifixo é anterior ao eu-lírico, já que “sempre” o viu no estado físico em que os três versos anteriores apresentam-no. A segunda estrofe estende a relação do crucifixo para a esfera familiar do sujeito lírico, na medida em que a tríade “mãe-irmã-pai” também o teve como elemento presente.

Recursos expressivos

No entanto, a escolha feita pela voz poética coloca-o na condição de vigia fúnebre, comprovada pelo eufêmico “chegar ao fim”, do verso 02, que alegoriza o momento da morte. Assim, é lícito concluir que o crucifixo é retirado da simples condição de objeto, para representar a metonímia de uma dupla corrosão: a do objeto e a da família. “Hoje” ratifica a impressão do presente e o que se segue com “em meu quarto colocado” faz com que o objeto cumpra a função de velar a morte, não de uma pessoa fisicamente morta, mas espiritualmente inerte, à espera, enquanto (como a terceira estrofe registra) não se cumpre “aquele instante, que tardando vai”. Para um poeta que descobrira na adolescência a tuberculose, tida como fatal, e que só viera a morrer aos 82 anos, fica evidente o entrelaçamento entre o autor e sua voz lírica.

Conclusão

Quer “morrer agarrado com ele” justamente porque o crucifixo carrega em sua concretude a fonte das abstrações e da memória familiar de afeto do Eu. É como se morrer com ele fosse o caminho mais seguro para um reencontro transcendental com os parentes, que “talvez” estejam salvos, assim como espera que se salve a voz lírica. Se sim ou não, fica nos labirintos do mistério final humano. O certo é que ter contato e ler a obra completa de Bandeira é como um encontro com primeira namorada; é ver páginas espelhando a magia da infância. (T. B.)

Trechos
TEXTO II

certo tipo de materialismo que o faz aderir à realidade terrena, limitada, dos seres e das coisas, sem precisar explicá-los para além da sua fronteira; mas denotando um tal fervor, que bane qualquer vulgaridade e chega, paradoxalmente, a criar uma espécie de transcendência, uma ressonância misteriosa que alarga o âmbito normal do poema.

TEXTO III

É um crucifixo de marfim/ligeiramente amarelado,/pátina do tempo escoado./Sempre o vi patinado assim.///Mãe, irmã, pais meus estreitando/tiveram-no ao chegar ao fim./Hoje, em meu quarto colocado,/ei-lo velando sobre mim.///E quando se cumprir aquele/instante, que tardando vai,/de eu deixar esta vida, quero/morrer agarrado com ele./Talvez me salve. Como -espero-/minha mãe, minha irmã, meu pai.

SAIBA MAIS

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993
MARTINS, Wilson. A literatura brasileira: o Modernismo: 1916-1945. São Paulo: Cultrix, 1977
ROSENBAUM, Yudith. Manuel Bandeira: uma Poesia da Ausência. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002

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