BIOGRAFIA

A Marquesa de Santos: a mulher e a criação do mito

00:49 · 20.07.2013
A Marquesa de Santos - uma das mais intrigantes personagens do Primeiro Império - tem a vida reconstruída

O historiador Paulo Rezzutti, ao reconstruir um tempo do passado como espelho para o presente, acrescenta ao título de seu livro "Domitila", uma interrogação que, a rigor, gera ambiguidades: "Marquesa de Santos ou dos Demônios?". Com isso, anuncia ao que veio: nada mais do que à empreitada de construir um retrato definitivo de uma das mais intrigantes personagens da História de nosso País, de extrema influência a partir da terceira década do século XIX, uma vez que Domitila foi amante do nosso primeiro Imperador.

Detalhe da capa do da biografia "Domitila - a verdadeira história da Marquesa de Santos", de Paulo Rezzutti, com prefácio da historiadora Mary Del Priore. O Brasil imperial viveu uma experiência ímpar em torno dessa persoangem

A gênese

Antes, o autor escreveu "Titília e o Demonão", cujo interesse central reside no estabelecimento dos vasos comunicantes entre as correspondências de Domitila de Castro com Pedro de Alcântara, e o cenário percorria os corredores do poder. O leitor, àquela ocasião, depara uma personagem intrigante e complexa: a princípio, vítima da violência doméstica; empós, a mulher fatal que, ao envolver-se com o Imperador, lança a frágil princesa Leopoldina à humilhação pública; por fim, a que cai em desgraça, com o novo casamento de D. Pedro I, mas que, em breve tempo, torna-se a primeira dama de São Paulo.

Os caminhos

Para a reconstrução, no tempo e no espaço, da vida de Domitila, o autor percorre dois espaços que se alternam: São Paulo, Rio de Janeiro e São Paulo, como elos de uma cadeia que não se dissolve. O propósito de tal escolha delineia uma postura do autor: a deliberação em dissolver mitos, uma vez que, até então, a passagem da Marquesa de Santos pelos então mais importantes espaços sociais, econômicos e políticos do Império era, sobretudo, embotada pela profusão de gestos e atitudes míticas.

A partir da consulta de documentos oficiais, consoante os ditames da historiografia positivista, os elementos lendários que cercavam a marquesa vão, pouco a pouco, sendo dissolvidos, e um retrato humano, com experiências na queda e no paraíso, descortina-se aos olhos do leitor: "Os bilhetes e as cartas trocadas entre os amantes eram enviados lacrados, como provam as marcas antigas de cera. Não se esperava que algum mensageiro fosse violar a correspondência sem punição. Domitila não foi cortês e reverente devido ao risco de alguém lê-las. Aliás, ninguém as deveria ter lido, se a marquesa houvesse feito o que d. Pedro mandou: queimar as missivas".

A tessitura

A ensaísta e historiadora Mart Del Priore, à guisa de apresentação, ressalta, antes, a paixão que se evola da leitura desse livro, além da peripécia de haver o autor dissolvido o mito para que a realidade se inscrevesse sem contornos: "Apoiado numa escrita eficaz, num estilo vivo, sem efeitos de retórica, texto, portanto, que se com curiosidade e emoção, Rezzutti remonta às origens da bela nascida ´na formosa sem dote´, a pequena São Paulo, decifrando seu passado: bodas infelizes, encontro com um jovem príncipe quase encantado e ida para a corte do Rio de Janeiro, a consolidação no papel de favorita, seu poder e fascínio". Em contraponto, a instabilidade emocional de D. Pedro, o sofrimento de D. Leopoldina, os mistérios da morte desta, as armadilhas do poder.

Considerações finais

Um dos elementos que merecem destaque no que tange aos recursos expressivos da construção deste livro é, sem sombra de dúvida, a naturalidade com que o autor domina a linguagem, pois, na frase, as palavras estabelecem umas com as outras singulares alianças, de tal sorte que tanto o cenário quanto encenação do conflito entre todas as personagens que, de uma forma ou de outra, compuseram as cenas de um passado consideravelmente distante, surgem com extrema nitidez, e tudo se imprime com muita vivacidade. Por exemplo, na primeira aparição da marquesa, esta não surge em carne e osso, mas num tempo mais à frente, estampada num quadro, cuja presença deste no Museu Paulista já antecipa os sentimentos contrastantes.

LIVRO

Domitila
Paulo Rezzutti
GERAÇÃO
2013, 352 Páginas
R$ 39,90

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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