Ensaio

A lusofonia: conceitos e percursos

00:18 · 13.04.2013
Não é fácil definir lusofonia com precisão. Com o passar do tempo, a ideia contida neste termo foi se ampliando e tornou-se muito abrangente, complexa e, às vezes, polêmica

Consideramos que para tentar esta definição é importante atentarmos, a princípio, para o sentido maior e mais geral do termo que nos autoriza a pensá-lo como sinônimo de "mitologia", uma vez que a lusofonia representa também, assim como a mitologia, a tentativa de manutenção do conjunto dos mitos de um povo (HOUAISS, 2009, p. 1203), neste caso, do povo português. Lusofonia é, como diz Padilha (2005, p. 14), um "constructo simbólico" que condensa em si todos os elementos que fazem o nacionalismo luso. Embora se entenda facilmente o termo neste sentido de mitologia, para compreendê-lo mais amiúde é necessário que esta noção seja aprofundada e que se acompanhe a sua evolução desde a sua popularização, por volta dos anos 70, até os dias atuais. Com esta finalidade, traçaremos um breve histórico da sua existência, a fim de que se torne suficientemente claro em si próprio e nos seus desdobramentos. Antes da revisão histórica, convém lembrar que, entre os elementos que compõem os mitos lusitanos definidores da lusofonia, a língua portuguesa é o elemento mais marcante e significativo desta mitologia e é a partir dela que se constrói a lusofonia. É a língua portuguesa, portanto, pelo menos em tese, o primeiro e maior elemento agregador entre os países que compõem a comunidade lusófona: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Uma visão

Segundo Freixo (2009, p. 26) a lusofonia seria "uma reinvenção do ´império´ por meio da língua, com a ressignificação dos antigos mitos presentes no imaginário social português". Nesse sentido, a ideia de lusofonia faz ressurgir os valores que, no passado, fizeram o orgulho e a marca cultural identitária dos portugueses, tais como: a língua, a bravura, a tecnologia da navegação, as grandes descobertas marítimas, as conquistas das colônias etc. Por sua vez, a lusofonia reforça a ideia da responsabilidade histórica conferida a Portugal que o fez carregar, durante muito tempo, o peso de uma "missão-messiânica" extremamente onerosa e que se expandiu, muitas vezes, para além das fronteiras lusitanas, chegando a contagiar até mesmo as suas próprias colônias, como é o caso do Brasil, referido na canção de Chico Buarque, Fado português, que epigrafa este artigo, na qual o enunciador delega ao nosso país uma missão que descende e se assemelha à de Portugal: "Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal: Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!".

Parafraseando, assim, Freixo (2009, p. 140) e seguindo com a reflexão sobre esta "missão" portuguesa, diríamos que, entre os ideais da lusofonia, estaria também o de ser Portugal o responsável pela articulação da paz mundial, em função dos laços construídos por ele, com outros povos do mundo, no passado, por meio das grandes navegações. Em outro comentário, Freixo, ainda desenvolvendo esta ideia, refere-se à repercussão dessa missão portuguesa sobre o Brasil e a importância da língua neste processo. É oportuno citar aqui o fragmento, porque ele será referência para nós em parte da análise de A Jangada de Pedra: (Texto I)

Outras leituraas

Freixo (2009, p. 147) acrescenta ainda que a lusofonia constituiu-se na base sobre a qual se sustenta a CPLP, Comunidade dos Países Falantes de Língua Portuguesa. Para ele, a lusofonia reflete as ideias de "identidade cultural" e da "herança histórica comum", ideias estas sobre as quais a lusofonia foi edificada. Lourenço (2001, p. 176), também conceitua lusofonia, mas, ao fazê-lo, inicia seu comentário com uma sentença negativa na qual é possível perceber-se um leve tom irônico, que, logo em seguida, assume profunda seriedade na seguinte reflexão: (Texto II)

Dois caminhos

Feitas essas considerações conceituais sobre a lusofonia, seguiremos com a reflexão, afirmando ser possível dividir, para fins didáticos, o tempo de existência desse fenômeno em dois percursos, um primeiro, que chamamos de período de exaltação e, outro, que definimos como período de desconstrução. O que aqui estamos definindo como períodos são, na verdade, representações de vozes que Freixo (2009, p. 150) nominou como dissonantes.

Ele nos aponta os dois principais representantes dessa dissonância: Eduardo Lourenço e Alfredo Margarido. O primeiro, a princípio, defendeu acirradamente a lusofonia, numa época em que a postura predominante era de exaltação.

Destaca-se aqui, neste momento de exaltação, o pensamento de intelectuais como Agostinho da Silva e Roberto Freyre. A voz de Lourenço, até certo momento, foi mais uma entre as de muitos que pregaram o estímulo à utopia lusófona.

Fique por dentro

A orientação metodológica do ensaio

O tema lusofonia tem gerado inúmeros debates e suscitado, por conta disso, o aparecimento de muitas pesquisas. Com a intenção de contribuir com essa linha de investigação linguística, este ensaio tem como um dos seus objetivos principais, apontar a presença da lusofonia no romance A Jangada de Pedra, de José Saramago, já pode ser visto, em parte, como uma metáfora do tema. Apresentamos um conceito de lusofonia, seguido de duas visões. Assim, será possível melhor entendê-la e mais seguramente analisar a relação entre ela e suas representações em distintas abordagens. Discorreremos também sobre outros dois fenômenos político-sociais: o iberismo e o europeísmo; porque, no romance, A Jangada de Pedra, essas duas questões são abordadas de forma incisiva, embora figurada.

Trechos

TEXTO I

Nessa nova era a língua portuguesa desempenharia um papel fundamental por ser falada em todas as partes do globo e representar o símbolo da expansão portuguesa que lançou as bases da construção de um "novo mundo", do "Reino do espírito". Nessa nova ordem o Brasil teria um papel fundamental, pois traria em si os elementos do verdadeiro Portugal, aquele Portugal arcaico que se perdeu com o fracasso histórico da nação. Para ele, o Brasil é a concretização do sonho do Quinto Império, é a Ilha dos Amores de Camões, o não-lugar capaz de ser o centro de uma nova civilização por ser o ponto de encontro de diversas culturas, onde a miscigenação favoreceu a tolerância e a moderação. (FREIXO, 2009, p. 142).

TEXTO II

A lusofonia não é nenhum reino, mesmo encartadamente folclórico. É só - e não é pouco, nem simples - aquela esfera de comunicação e compreensão determinada pelo uso da língua portuguesa com a genealogia que a distingue entre outras línguas românicas e a memória cultural que, consciente ou inconsciente, a ela se vincula. Nesse sentido, é um continente imaterial disperso pelos vários continentes onde a língua dos cancioneiros, de Fernão Lopes, de Gil Vicente, de Bernardim, de Pero Vaz de caminha, de João de Barros e de Camões se perpetuou essencialmente a mesma, para lhe chamarmos ainda portuguesa, e outra na modulação que o contato com novas áreas linguísticas lhe imprimiu ao longo dos séculos.

HERMÍNIA LIMA
COLABORADORA

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