Ensaio

A leitura dos irmãos Ethan e Joe Coen Ensaio

01:54 · 27.04.2013
Essa é a adaptação mais fiel ao espírito da obra de Charles Portis, os irmãos Coen trazem para o cinema de maneira brilhante e ainda deixando a sua marca pessoal que é o humor negro conhecido nos seus filmes. O seu início há uma citação da Bíblia e a narração da adulta Mattie Ross mostrando o cadáver do pai com uma canção triste e distanciando a câmera para acentuar a solidão do morto na noite, isso é o oposto da adaptação de 69.

Ambas têm cenas parecidas, mas o tom que este filme traz é o grande diferencial, por focar a história em Mattie Ross, acompanhado-a até o final do filme, sem desviar o foco para outro personagem, para compensar a ausente narrativa que só tem no começo e no final do filme.

Duas marcas

A história é bastante concisa, corta cenas desnecessárias, como as conversas, as quais não iriam acrescentar em nada para a história, e acrescentando outras que demonstram o humor negro dos Coen, como a cena do enforcamento no qual o índio é enforcado no meio do seu discurso, sendo uma execução bastante crua. Isso já denota que a violência do velho oeste não terá atenuações, mostrando as mortes com realismo, maus tratos a animais e a língua quase cortada de Leboeuf. Outro ponto interessante é o fato de Leboeuf se separar do grupo, isso serviu para acentuar a relação entre Mattie e Rooster. Ele conta toda a sua vida pregressa, como a sua separação de sua família, os seus anos na prisão por um crime que não cometeu e a sua luta na guerra civil americana, tornando a garota Mattie íntima dele.

Singularidades

A caracterização do figurino é impecável, com roupas de época sujas e maltratadas mostrando que naquele meio a preocupação com aparência se limitava aos negócios ou encontros oficiais. Aqui fica bem claro o quanto Cogburn é um alcoólatra pelo seu visual desgrenhado, quando Mattie o visita na adega do chinês.

O texa ranger sempre usa a sua roupa desgastada, suja de terra, mas demonstra educação, apesar de muitas vezes rude com Mattie por essa ser apenas uma garota. Há uma cena íntima quando ele diz que vai partir por pensar que não iriam capturar Tom Chaney, admitindo o fato de ele ser um perdedor.

A construção de Rooster Cogburn é peculiar, o delegado da cidade o descreve como um homem temido, mas isso se desconstrói no primeiro encontro com Mattie, que conversa com ele dentro no banheiro do bar fazendo necessidades. Isso não acontece no livro, ela só o encontra no julgamento, mas serviu para mostrar para o espectador como esse homem beberrão pode ser impiedoso nas horas de perigo. A sua preocupação com a garota é genuína, quando corre desesperadamente para salva-la montado no cavalo até o escurecer, mostrando um homem que tenta fazer o certo, apesar de parecer uma pessoa amarga e indiferente, tendo um senso de justiça do tipo "Aqui se faz, aqui se paga."

A protagonista

Mattie Ross é representada com sobriedade, negociando com afinco e tendo uma forte personalidade, pode-se dizer que é que ela contém no seu espírito uma "bravura indômita" homônima ao filme. Ela não se intimida contra os criminosos como Tom Chaney, procura a todo instante negociar para conseguir uma situação favorável. Ela só chora, quando recebe os objetos do seu falecido pai, no momento que fica sozinha no quarto ou quando vê Rooster sacrificar Litlle Black, são os poucos momentos que a mostram como uma garotinha que perdeu o pai recentemente.

Observa-se o fato dela está apaixonada por Cogburn depois de crescida, salva e sem um braço. Procura-o, mas só o encontra morto, resolve levar o seu cadáver para enterrar no cemitério da família, criando um burburinho entre os locais de ela mal conhecer aquele homem.

Aspectos formais

A estrutura do filme é coesa, passando a sensação de solidão na caminhada, a mudança de clima, o sol forte nas montanhas e a sensação de frio na noite. Condizente com a época o fato de qualquer ferida poderia significar a morte, por causa da ausência de médicos em um lugar tão isolado como o território indígena. A ambientação áspera misturada ao emocional dos personagens cria uma história agridoce, onde as pessoas procuram sobreviver a qualquer custo, em tentativas, muitas vezes frustradas, de fazer o correto, procurando punir o injusto para evitar a barbárie. Uma linha bem tênue nesta sociedade que surgiu fragilmente que é o velho oeste americano.

A essência do áspero

Nestas duas adaptações cinematográficas do livro, observa-se um fenômeno que a adaptação de uma obra traz um enriquecimento para sua reinterpretação, acentuando vários pontos, diminuindo outros, ou mudando a época em que a história se passa, mas sempre tendo a obra como base, seja para reforçar a sua ideia ou reinterpretá-la de maneira transgressora.

Além da cultura de determinada época pode alterar a obra para torná-la mais aceitável, percebe-se pelos tipos de histórias eram reproduzidas, de teor mais infantil e maniqueísta e como esse conteúdo vai se transformando ao se enriquecer com novos elementos que ainda eram visíveis em 1969, mesmo com o advento da contracultura e de comportamentos vistos como transgressores.

O que demonstra essas adaptações como uma mesma história ganha tonalidades diferentes nas mãos de autores de outras mídias, tendo até mesmo modificar para ser fiel ao original, para acentuar o principal aspecto da obra, como é o caso da aspereza do livro que fica marcante na sua versão de 2010 acentuado mais pelo humor negro dos irmãos diretores, como nas cenas do enforcamento e Leboeuf mordendo a própria língua e Rooster ameaçando arrancá-la com a voz em tom jocoso. Isso foi possível graças aos movimentos de 1968 que quebraram paradigmas, dando maturidade para a plateia recepcionar, sem grande repercussão, filmes politicamente incorretos.

Nenhuma obra é isolada, isso fica mais claro nesta contemporaneidade, uma obra sempre vai entrar em diálogo com outros meios para expressar e enriquecer a sua história. Livros, Cinema, Quadrinhos estarão em constante diálogo ao utilizar mesma história usando recursos narrativos diferentes que trará em comum a essência da obra original, mas todos esses autores de meios diferentes iram deixar a sua própria marca. E Isso irá variar mais ainda dependendo do contexto cultural e época em que é feito, como vimos no caso de Bravura Indômita.

Considerações finais

Observa-se nesta análise que vários fatores foram responsáveis na modificação da obra que se aglomeram ao contexto da época, e essa influência é inescapável para a adaptação, e vai estar sempre inerente a obra. Uma história em si carrega toda uma bagagem cultural de seu tempo que é delineada e trabalhada pela visão do autor, além dos recursos disponíveis no seu tempo para produzir recursos narrativos para reproduzirem os efeitos desejados.

Serão esses fatores na constante adaptação que poderão demonstrar o quão é universal e atemporal a história ao ser contada, dando espaço para explorar de outras formas de expressão para o enriquecimento desta obra ao ser recontada de formas diferentes, criando uma diversidade de histórias da mesma versão original, denotando a liquidez da cultura. (A.L.B.N.)

SAIBA MAIS

CHALHUB, Samira. Funções da linguagem. São Paulo: Ática, 2011

KOFFMAN, Sarah. Resumir, interpretar. Rio de Janeiro: PUC, 1975

LAURENT, Jullier. Lendo as imagens do cinema. São Paulo: Senac, 2009

POUIOLLON, Jean. O tempo no romance. São Paulo: Cultrix, 1974

Roberts-BRESLIN, Jan. Produção de imagens e som. São Paulo: Campus, 2010

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