ENTREVISTA

A lâmina da voz de Belchior

00:46 · 30.08.2007

O cantor cearense concedeu entrevista, cantou e encantou o público do programa ´Nomes do Nordeste´, no Centro Cultural Banco do Nordeste


Brasileiramente lindo. Foi desta forma que o cantor Belchior subiu ao palco do cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste, na noite desta terça-feira, para um programa que mesclou conversa, música e interatividade da platéia. Com os característicos cabelos desgrenhados e o ´bigode a la Carlitos´, comparação feita por uma pessoa da platéia e muito bem aceita pelo compositor, Belchior concedeu uma deliciosa entrevista, aberta ao público, ao jornalista Moacir Maia. A apresentação fez parte do programa ´Nomes do Nordeste´, iniciativa do Banco do Nordeste, que chegou a sua 20ª edição.

Com bom humor e serenidade, o sobralense entitulado cidadão de Fortaleza recordou momentos de sua infância no interior do Ceará, da vida estudantil na capital, o encontro com o ´Pessoal´ e a ´fuga para o sul´. Falou ainda de latinidade, cultura, política e futuros projetos.

A entrevista seguiu uma ordem cronológica. O cantor, compositor, poeta, desenhista e pintor começou falando das recordações dos tempos de criança que influenciaram em sua obra. Pinturas na igreja, tios boêmios, Albert Einstein e a teoria da relatividade, a rádio de Sobral, a viagem a Fortaleza especialmente para conhecer o mar... Belchior citou este emaranhado de recordações e falou da influência de outros compositores em sua música, sobretudo John Lennon e Bob Dylan.

Em seguida, Moacir Maia conduziu o bate-papo para a carreira musical, que segundo o próprio Belchior, só virou profissional por acaso. Belchior falou de sua relação romântica com a música. Afirmou que só pensou em viver dela após vencer o IV Festival Universitário da MPB, em 1971, com ´Na hora do almoço´. Aliás, a primeira música cantada pelo artista no ´Nomes do Nordeste´. Belchior cantou ainda ´Velha roupa colorida´ e ´Como nossos pais´ - após falar da importância de Elis Regina na sua carreira - ´Pequeno perfil de um cidadão comum´, ´Comentários a respeito de John´, ´Velas do Mucuripe´ e ´Paralelas´. Sempre acompanhado de um forte coro da platéia dentro do teatro e das pessoas que assistiam à apresentação por telões instalados em outros espaços do CCBN.

´Apenas um rapaz latino americano´ foi cantada duas vezes. ´À palo seco´, assim como todas as canções, foi interpretada, de fato, à palo seco. ´Só com a lâmina da voz, sem a arma do braço´, definiu Belchior citando João Cabral de Melo Neto. Forte e vigorosa, a voz do cantor de pouco mais de 60 anos arrepiou os presentes. E a voz do público parece ter arrepiado o cantor, que falou da importância do reconhecimento do trabalho de sua geração e a continuidade que vem sendo dada graças ao grande número de jovens fãs. A maioria da platéia provavelmente não havia nascido quando da composição de muitas das músicas apresentadas.

Um rapaz latino-americano

Sobre os jovens talentos do Ceará, o cantor confessou não ter profundo conhecimento do que está sendo produzido hoje no estado, mas disse confiar na sensibilidade cearense. Ele ressaltou ainda a necessidade de investimento na cultura. Belchior elogiou o ministro Gilberto Gil e disse acreditar nos projetos de incentivo à cultura no Brasil. Segundo ele, só o fato de ter Gilberto Gil no Ministério já é uma grande vitória.

Quando perguntado sobre seu lado ´artista plástico´. O cantor foi firme ao dizer que não sabia o que significava tal termo. Para ele, pintar e desenhar tem haver com sentimento, não com disciplina. ´Para a arte é preciso ter uma sublime indisciplina´, afirmou. Sobre seus sentimentos, o cantor disse levar suas mágoas ´para as águas fundas do mar´. O Futuro? O cantor e compositor prefere não pensar. Mas está preparando um DVD especial sobre sua obra, ´que será lançado logo que ficar pronto´.

Para finalizar, Belchior escolheu ´Galos, noites e quintais´. Ele dedicou a canção a Chico Anysio, que inclusive já gravou esta música, e é mais um entre os numerosos artistas que já interpretaram composições de Belchior.

O público pôde fazer perguntas, mas infelizmente não teve controle sobre o repertório do programa. Por ter um número de canções reduzidas, algumas ausências foram bastante sentidas. ´Alucinação´, ´Tudo outra vez´ e ´Medo de avião´ fizeram falta. Mas entre prosa, poesia e canções, a noite foi se esvaindo. A boemia foi tomando conta do público que certamente passaria a noite ouvindo a lâmina da voz de Belchior.

MARA SEMYRA
Do Portal Verdes Mares

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.