Cinema

A impunidade da PM do Rio

00:00 · 17.04.2018 por Luiz Zanin Oricchio - Agência Estado
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Em detrimento da palavra de especialistas, "Auto de Resistência" escolhe dar voz às vítimas da violência policial: os sobreviventes das chacinas e seus parentes

No momento em que a violência no Rio entra na pauta nacional, um filme como "Auto de Resistência", de Natasha Neri e Lula Carvalho, ganha novo relevo. No festival É Tudo Verdade, o documentário será exibido nesta quinta (19).

O título técnico refere-se a esse limbo jurídico no qual se perdem os verdadeiros números da violência policial carioca. Define homicídios da polícia não contabilizados sob alegação de que foram reações em legítima defesa. O filme mostra que não é bem assim. Elege casos tristemente famosos, como a "chacina de Costa Barros", em que cinco rapazes foram confundidos com ladrões de carga. Em outra cena, uma gravação de celular flagra um policial pondo a arma na mão de um jovem já morto, para simular que ele havia disparado contra a tropa.

São gravadas cenas com as mães indignadas e inconsoláveis pelos filhos assassinados. E também algumas sequências de tribunal, quando policiais e seus advogados tentam se defender das acusações. Naquele caso em que a arma foi "plantada" na mão da vítima, o policial diz que o fez porque o revólver apresentava defeito e poderia disparar, ferindo alguém. Surreal.

O filme mostra como os alvos preferenciais se encontram entre a população pobre e negra do Rio. A pretexto do combate ao tráfico, toda uma parcela da população e bairros inteiros da cidade são criminalizados. E os "autos de resistência" servem para que grande parte dos processos seja arquivada.

Natasha é socióloga, com mestrado em violência urbana. Lula é um dos grandes fotógrafos do cinema brasileiro. A parceria produz um filme consistente do ponto de vista conceitual e potente em termos de imagem. Não privilegia a palavra de especialistas, mas a de sobreviventes de chacinas e seus parentes.

Construído ao longo de dez anos de trabalho, "Auto de Resistência" incorpora uma cena de passagem, mas muito significativa, quando a vereadora Marielle Franco aparece em protesto, ao lado de mães de vítimas da violência policial. Passado mais de um mês, o assassinato continua sem solução.

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