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A falta que nos faz

Gilmar de Carvalho lembra do olhar atento de Patativa à política e de seu desejo de legar uma obra impressa

00:00 · 08.07.2017 por Gilmar de Carvalho* - Especial para o Caderno 3
Patativa, em sua casa em Assaré, ao lado do pesquisador Gilmar de Carvalho ( Fotos: Lizaldo Maia )

Patativa era o homem do verso livre, que nos levava a pensar. No período da ditadura militar, teve um mandato de prisão não cumprido, e safou-se de ter de dar explicações por um poema publicado por um jornal de estudantes de esquerda.

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Isso não o inibiu de brincar com Castelo Branco, o "presidente" cearense do período autoritário. Anos depois, já em outro contexto, provocou Collor e ainda achando pouco associou Fernando Henrique ao político alagoano, pelo fato de ambos se chamarem Fernando. Hoje, certamente, estaria improvisando com o Temer, incisivo, como sempre, mas mantendo a elegância da ética sertaneja e uma conotação política que não resvalava para a vida pessoal.

Patativa não chegou a viver um governo petista. Eleitor de Lula em 1989, 1994 e 1998, morreu poucos meses antes das eleições de outubro de 2002. Era um entusiasta do torneiro mecânico nascido em Garanhuns, que chegou à Presidência da República, em meio a uma onda de temores, por parte de uns, e de otimismo, por parte das camadas subalternas. Fica a curiosidade para saber como Patativa avaliaria os dois mandatos de Lula e algumas de suas bandeiras.

Fará sempre falta aquele Patativa, com pouco mais de um metro e meio de altura, que se agigantava nas praças públicas. Ele será sempre lembrado como alguém que cantou em favor da anistia aos presos políticos, em favor das Diretas-Já, e participou de outras lutas que mobilizaram a população brasileira em tempos recentes.

Gostava de Castro Alves, para ele sinônimo de poesia engajada. Patativa soube atualizar o canto do poeta baiano e desfraldou outras bandeiras. A luta pela terra talvez tenha sido a mais importante. Ele sabia as razões da luta e de que lado estava: o do irmão roceiro, de mãos calejadas como as dele, eternamente desassistido pelas políticas governamentais.

Patativa também verberava em favor de um papel mais educativo para a mídia eletrônica, denunciava os factóides do avião que fazia chover, lamentava a perda das formas de sociabilidade trazidas pelas casas de farinha e engenhos movidos pela eletricidade. Não era uma defesa de posições anacrônicas, mas um libelo em favor do momento de encontro quando da raspa da mandioca e dos engenhos de madeira a ranger triturando a cana.

Cordel e cantoria

Patativa largou a cantoria porque queria deixar uma obra impressa. Enquanto esteve entre nós, lutou sempre para ter seus títulos nas bibliotecas e nas gôndolas das livrarias. Conseguiu.

Quando ele completa quinze anos de morte, a sua falta faz com que temamos que, aos poucos, ele entre em uma espécie de "limbo", uma zona nebulosa. Não está mais na mídia, seus livros não são mais publicados com o mesmo ritmo de quando ele estava aqui, fazendo seu trabalho de formiguinha, de "promoter" de sua obra.

Ele depreciava, de certo modo, o cordel. Recusava-se a chamar os cordelistas de poetas. Para ele, seriam apenas "escrevinhadores". Do ponto de vista de quem considera o cordel como poesia da voz, a obra de Patativa, toda ela, seria um imenso cordel. Curioso e irônico como os folhetos de feira, de autoria dele, ganharam evidência ao longo do tempo, depois de sua partida.

A caixa lançada em 1993, pela Secult (gestão Paulo Linhares) tornou-se livro, em 1999, quando o poeta recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Ceará. Em 2006, foi publicado, também pelas Edições UFC, "Cordéis e alguns poemas", indicado ao então exame vestibular aos cursos da UFC. Em 2009, "Cordéis do Patativa" ganhou edição revista e ampliada. Curioso este percurso, com ênfase no cordel, como estratégia de fazer o poeta ser sempre lembrado.

Memória e esquecimento

O que fazer para que Patativa não caía no esquecimento? Santa Catarina rodou uma grande tiragem (150 mil exemplares) de uma coletânea de poemas de Cruz e Sousa, distribuída, gratuitamente, inclusive no centro de turismo de Florianópolis. Esta iniciativa, bancada pela AMBEV, marcou o traslado dos restos mortais do poeta do Rio de Janeiro para seu estado natal.

Por que não uma edição do Patativa, em grande tiragem, como um esforço conjunto da Secretaria de Cultura e da Secretaria de Educação do Estado? Por que não adotar Patativa como paradidático nas escolas públicas? Por que não distribuí-lo nas bibliotecas municipais?

Patativa pode contribuir para despertar a veia poética de algum jovem, ser objeto de esquetes e performances, de leituras em voz alta, tema de redações, pretexto para a feitura de fotos com câmeras de celulares ou de vídeos curtos, ponto de partida para grafites. Vale tudo para manter Patativa em evidência.

Não custa tão caro fazer isso. Temos empresas de porte nacional que poderiam bancar este investimento. Não apenas como estratégia de marketing ou por conta da renúncia fiscal, mas para promover um dos maiores nomes da poesia brasileira de todos os tempos. Os ganhos serão imensos em relação aos valores investidos. Este não poderia ser um presente para Patativa nos quinze anos de sua chegada aos céus?

Saiba Mais

Evento

"A Vida como Poesia - Quinze Anos sem Patativa do Assaré", com curadoria do pesquisador Gilmar de Carvalho. Sábado (8) e domingo (9), das 11h às 16h, no Café Passeio, no Passeio Público (Rua Dr. João Moreira, s/n, Centro)

Programação

Lançamento do livro "Patativa do Assaré - Uma biografia", de Gilmar de Carvalho; execução de poemas de Patativa e canções baseadas em seus versos; exposição de xilogravuras de João Pedro de Juazeiro; e venda de cordéis e roupas da grife Formosa Bandida

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