Ensaio

A estética da expressão lírica

00:00 · 23.02.2014

Florbela Espanca, sendo um expoente da poesia moderna em Portugal, lança um novo olhar sobre temas como amor e também sobre o que estamos tratando no trabalho em questão: a dor, como podemos observar na construção dos versos do poema " Angústia" (Texto III)

Leitura do poema

Nesta composição, observa-se, nos primeiros versos da primeira estrofe, a aliteração com a repetição da consoante "t", o que revela um fazer poético estrutural. O eu lírico revela um desejo que parece não se realizar, uma vontade não cumprida. A dor de não ter o que se deseja - o que se vê não é a realidade -, a realidade é que não existe mais nada, veja em: "Vem sempre perguntando: "O que te resta? ..."///Ah! não ser mais que o vago, o infinito!". O sentimento de dor, reconhece o eu lírico, é sempre presente na vida, inclusive nos pensamentos. No poema conseguimos ver que a dor, a destruição são presentes e que é preciso sonhar para abandonar os sentimentos ruins.

Do estilo

Apesar de a poetisa ser contemporânea do modernismo, ela em nada segue as características desse segmento, pois enquanto os modernistas abandonam todas as tradições, Florbela apreciava a estrutura, tendo em vista ela optar pelo soneto e manter, rimas perfeitas, rebuscamento nas escolhas lexicais, semânticas e sintáticas, e apelo sentimental. A autora aproxima-se muito mais do simbolismo, onde encontramos nos versos a subjetividade, traço que é bastante perceptível nas composições poéticas de Espanca, a musicalidade também é forte nos textos, por meio da aliteração e da assonância

Marcas do discurso

Outra traço de sua poética é o transcendentalismo, usando palavras que sugeriam palavras sem nomear objetivamente os elementos da realidade, como em "Castelã da Tristeza"(Texto IV)

O uso da palavra branco, é reiterado em várias poesias desse livro, como observado no verso 2 do segundo terceto. A repetição também é um artifício linguístico nessa poesia, as palavras "castelo", "por que" e "tristezas" são usadas para demonstrar a dor da solidão e de viver sozinho à espera da "luz de todo amor".

As palavras névoa e esvanecido no primeiro verso do segundo quarteto da poesia "Eu": (Texto V)

A preferência pelo uso das palavras "névoa", "esvanecido", "branco" e uma característica também simbolista, conotam a ideia de algo vago, indefinido, assim como são os sentimentos da autora.

Florbela em seus sonetos retrata a dor e o sofrimento, o tema repete-se em diversos poemas e mostra várias faces de um mesmo sentimento. A suspensão da fala de Espanca, revelada pelas reticências, mostra sua indefinição diante dos sentimentos manifestados. O sentimento de solidão aumentava ainda mais a dor o eu lírico, visto que ela não era percebida pelos demais.

Considerações finais

O eu lírico reconhece sua profunda dor, e através dos versos quer expor seus mais profundos sentimentos. O uso da repetição, bem como da aliteração, assonância reforçam a ideia do sofrimento repetido, cíclico e que não a abandonava.

Em "Livro de Mágoas" a vida é uma constante de sofrimento, é um pesar e muito dolorosa. Logo, a publicação é um apanhado de poesias que nada mais retrata os mais profundos sentimentos da autora, e é possível qualquer um identificar-se com as questões tratadas ali.

Trechos

TEXTO III

Tortura do pensar! Triste lamento!/Quem nos dera calar a tua voz!/Quem nos dera cá dentro

, muito a sós,/Estrangular a hidra num momento!///E não se quer pensar! ... E o pensamento/Sempre a morder-nos bem, dentro de nós .../Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -/O brilho duma estrela, com o vento! ...///E não se apaga, não ... Nada se apaga!/Vem sempre rastejando como a vaga .../Vem sempre perguntando: "O que te resta? ..."///Ah! não ser mais que o vago, o infinito!/Ser pedaço de gelo, ser granito,/Ser rugido de tigre na floresta! 

TEXTO IV

Altiva e couraçada de desdém,/Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!/Passa por ele a luz de todo o amor .../E nunca em meu castelo entrou alguém!///Castelã da Tristeza, vês? ... A quem? .../- E o meu olhar é interrogador -/Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr .../Chora o silêncio ... Nada ... Ninguém vem ...///Castelã da Tristeza, porque choras/Lendo, toda de branco, um livro de horas,/À sombra rendilhada dos vitrais? ...///À noite, debruçada, plas ameias,/Porque rezas baixinho? ... Porque anseias? .../Que sonho afagam tuas mãos reais?

TEXTO V

Eu sou a que no mundo anda perdida,/Eu sou a que na vida não tem norte,/Sou a irmã do Sonho, e desta sorte/Sou a crucificada ... A dolorida ...///Sombra de névoa ténue e esvaecida,/E que o destino amargo, triste e forte,/Impele brutalmente para a morte!/Alma de luto sempre incompreendida! ...///Sou aquela que passa e ninguém vê .../Sou a que chamam triste sem o ser .../Sou a que chora sem saber porquê ...///Sou talvez a visão que Alguém sonhou,/Alguém que veio ao mundo pra me ver/E que nunca na vida me encontrou!

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