Ensaio

A escritura lírica de Mário de Sá-Carneiro

00:00 · 09.03.2014

Dono de insólita sensibilidade, aguçada ao extremo do delírio e da loucura, o poeta português, contemporâneo de Fernando Pessoa, imprimiu sua marca de individualidade e originalidade a tudo quanto escreveu. Vinculado à tradição francesa a Rimbaud (Simbolismo) e, notadamente, a Baudelaire (Simbolismo / decadentismo) , dotou a poesia portuguesa de temas e de fórmulas expressivas que fazem dele um grande poeta moderno, consoante a leitura do poema "Partida" (Texto I)

Leitura do poema

Este poema, escrito por volta do ano de 1913, e que foi depois escolhido para abrir o conjunto de "Dispersão" por constituir uma espécie de prefácio, representa sem dúvida um poema-síntese; e, uma espécie de ponto de partida, quanto às principais características em seu trabalho poético. Uma ideia básica predominante é a da ânsia de subir.

Já na primeira estrofe percebemos a impossibilidade do eu lírico conviver com a esfera vulgar da vida, impossibilidade representada pela dicotomia entre "escoar-se a vida humanamente" e "as coisas geniais em que medito" O poeta renuncia à forma cristalizada de viver, assim alimenta os contrastes. A saída da condição vulgar da vida somente é concebida pela esfera individual, a meta é reconquistar a plenitude de viver. "Mas logo me triunfo". O uso do pronome oblíquo, aqui, não é ocasional, mas significativo. De certo modo, ele transfere o conflito e sua transcendência desejante para o centro do sujeito poético, que se torna ele tão-somente - a superação das "águas certas" do cotidiano. A dimensão coletiva fica no plano do trivial da existência. A partir da quinta estrofe, presenciamos a ascensão ao sonho desejado. Esta sucessão de evocações sensoriais delineia o ideal que está na concepção diferente de existência do eu lírico.

Do Curso de Letras da UECE

Trechos

TEXTO I

Ao ver escoar-se a vida humanamente / Em suas águas certas, eu hesito, / E detenho-me às vezes na torrente / Das coisas geniais em que medito. /// Afronta-me um desejo de fugir / Ao mistério que é meu e me seduz. / Mas logo me triunfo. A sua luz / Não há muitos que a saibam refletir. /// A minh'alma nostálgica de além, / Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto, / Aos meus olhos ungidos sobe um pranto / Que tenho a força de sumir também. /// Porque eu reajo. A vida, a natureza, / Que são para o artista? Coisa alguma. / O que devemos é saltar na bruma, / Correr no azul a busca da beleza. /// É subir, é subir além dos céus / Que as nossas almas só acumularam, / E prostrados rezar, em sonho, ao Deus / Que as nossas mãos de auréola lá douraram. /// É partir sem temor contra a montanha / Cingidos de quimera e de irreal; / Brandir a espada fulva e medieval, / A cada hora acastelando em Espanha. /// É suscitar cores endoidecidas, / Ser garra imperial enclavinhada, / E numa extrema-unção d'alma ampliada, / Viajar outros sentidos, outras vidas. /// Ser coluna de fumo, astro perdido, / Forçar os turbilhões aladamente, / Ser ramo de palmeira, água nascente / E arco de ouro e chama distendido... /// Asa longínqua a sacudir loucura, / Nuvem precoce de subtil vapor, / Ânsia revolta de mistério e olor, / Sombra, vertigem, ascensão - Altura! /// E eu dou-me todo neste fim de tarde / À espira aérea que me eleva aos cumes. / Doido de esfinges o horizonte arde, / Mas fico ileso entre clarões e gumes!... /// Miragem roxa de nimbado encanto - / Sinto os meus olhos a volver-se em espaço! / Alastro, venço, chego e ultrapasso; / Sou labirinto, sou licorne e acanto. /// Sei a distância, compreendo o Ar; / Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz; / Sou taça de cristal lançada ao mar, / Diadema e timbre, elmo real e cruz... /// O bando das quimeras longe assoma... / Que apoteose imensa pelos céus! / A cor já não é cor - é som e aroma! / Vem-me saudades de ter sido Deus... /// Ao triunfo maior, avante pois! / O meu destino é outro - é alto e é raro. / Unicamente custa muito caro: / A tristeza de nunca sermos dois...

FIQUE POR DENTRO

Aspectos acerca autor e de sua literatura

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, a 19 de maio de 1890. Filho único dum engenheiro. Depois dos estudos secundários, seguiu para Paris em 1912, com o fito de seguir o curso de Direito. No mesmo ano começa a escrever poesia. Em 1914, de férias em Lisboa, junta-se a Fernando Pessoa e aos demais que viriam a lançar a revista de literatura Orpheu (1915). Publica a poesia Dispersão, 1914, a que se juntaram os poemas de indícios de Oiro, formando as Poesias Completas, publicadas em 1946). Publicou também outras obras como conto, narrativa e teatro. Sá-Carneiro percorreu caminho oposto ao de Fernando Pessoa, este de maneira racional escapou do caos, mas aquele tornou-se egocêntrico, no labirinto da solidão, tendendo para o autodesprezo, jogado por suas emoções o racionalismo não tem muita força, deixando a emoção reinar.

Luiz Fernando Almeida do Nascimento
Especial para o Ler

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