Ensaio

A educação e a realidade brasileira

00:00 · 09.11.2014

Na terceira dimensão, focada no aprender a conviver, há um apelo pela cooperação, desde a escola tradicional. Embora este apelo esteja fundamentado numa base capitalista de produção, tal dimensão não teria encontrado na escola formal sua realização prática. O grande problema que o tradicionalismo não conseguiu trespassar está concentrado na incapacidade de produzir estratégias de transmissão sistemática e explícita dos valores, bem como de desenvolver instrumentos sólidos de avaliação de capacidades e planos de convivência.

A proposta sugerida para a nova escola destaca três missões: transmissão de saberes sobre a diversidade humana, conscientizando os estudantes quanto à semelhança e à interdependência entre os povos; o cultivo, através do ensino, do reconhecimento - sem preconceito - do outro; a viabilização, no âmbito da escola, de projetos em comum, fundados na cooperação e na motivação não habitual.

Da exclusão

O que podemos observar, no vídeo, quanto a esse aspecto, é que, numa sociedade marcada pela exclusão social, pelo desconhecimento dos direitos que garantam a cidadania de todos, e pelo acesso desigual aos bens culturais e materiais, não há como evitar conflitos, confrontos e violência. O abismo entre as classes sociais provoca um "apartheid" intransponível. Os problemas de convivência humana, presentes nas sociedades, encontram-se também na escola, já que esta reflete o contexto social mais amplo. (O vídeo, no entanto, mostra uma via alternativa, que são os projetos culturais, geralmente desenvolvidos por instâncias comunitárias, fora da escola).

Integração e desenvolvimento

A quarta dimensão educacional: "aprender a ser", está voltada para a integração, exigindo para a sua concretização o desenvolvimento total da pessoa. Nesse sentido, a nova escola deve preparar a juventude para a construção da sua autonomia intelectual, através da formação de uma consciência crítica, que possibilite aos jovens desenvolver seus próprios juízos de valor. A integração pressupõe o reconhecimento da singularidade e das diferenças, numa condição de igualdade.

Dois problemas centrais se colocam, quanto à concretização dessa proposta: a crescente desumanização do mundo, provocada por um desenvolvimento técnico que submete o sujeito a uma condição de objeto e pelo comprometimento da diversidade e da singularidade dos povos, em razão do processo crescente de padronização da produção de bens simbólicos, pelas tecnologias da comunicação. No vídeo, a distância entre as escolas públicas e a privada é tão intensa, que fica difícil imaginar como essa integração se daria. Na fala de algumas adolescentes do Colégio Santa Cruz esse fato é explicitado, quando elas reconhecem seus privilégios de classe e a impossibilidade de transpor os muros de uma existência protegida do confronto com aquele que está do lado de lá.

Algumas cenas do filme mostram, em escolas públicas, tanto o descaso de alguns professores com a figura do aluno, como também professores muito engajados, embora sejam massacrados pelas condições estruturais existentes. Não há suporte geral para os professores e para o ambiente em que trabalham, a começar pela formação.

Quanto à questão da padronização, acima mencionada, podemos identificar, no filme, um tipo de comportamento que está presente tanto nos colégios destinados aos populares, como na escola privada. No Colégio Santa Cruz, de São Paulo, existem também agressões, alunos sonolentos, pichações, mal-estar com a escola e desinteresse pelo estudo. O artigo "A chave do saber" e o filme "Pro dia nascer feliz" abordam, pois as desigualdades na educação brasileira, mostrando os dramas e as dificuldades dos professores e jovens de diversas regiões do Brasil. Coerente com o quadrante com a problemática da formação de professores, retratam a importância do professor para o desenvolvimento dos indivíduos e da sociedade como o todo.

Considerações finais

O investimento na formação docente é compreendido como fundamental para preparar os jovens no enfrentamento dos desafios do fenômeno da globalização, o que em última instância favoreceria a coesão social. É importante lembrar que a crise na educação é reflexo da crise estrutural do capital, introduzindo, assim, elementos de massificação e despolitização para o indivíduo, que por sua vez, leva ao esvaziamento dos conteúdos e dos conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade, distanciando cada vez mais o homem do ideal de uma formação omnilateral.

FIQUE POR DENTRO

Reflexões críticas sobre o artigo "A Chave do Saber"
No Capitalismo as ações estão orquestradas em prol do interesse dos grupos dominantes e o sistema capitalista tende a uma globalização que é atravessada por desigualdades de poder e de riqueza material. Os países vivem uma interdependência perversa que os afeta em todas as suas instâncias. A educação não está fora e a ela se atribui importância crucial nesses processos. Mas, como "ensinar a aprender" e "a fazer", numa perspectiva mais complexa, buscando a omnilateralidade, se na lógica do sistema prevalece o reducionismo e a especialização? A própria ciência que se propôs a um projeto emancipatório está reduzida a uma razão instrumental! A proposta da ONU não leva em conta nem as determinações da base material da sociedade, que resultam em profundas desigualdades e contradições, nem considera o caráter ideológico dos diversos discursos sociais (dentre eles o das ciências) que dão sustentação a essa base material.

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