MÚSICA

À distância do lugar-comum

Juliano Gauche (ES) lança seu terceiro álbum. O disco conta com produção de Fernando Catatau (CE)

00:00 · 16.05.2018 / atualizado às 10:35 por Felipe Gurgel - Repórter
Juliano Gauche
O músico Juliano Gauche: ele conta que a riqueza do novo álbum passa por uma postura mais flexível ligada à composição e à edição das canções. Em parceria com Catatau, o artista testou uma diversidade maior de referências

O título do novo disco do capixaba Juliano Gauche, "Afastamento", pode convidar um ouvinte mais desavisado ao isolamento. Mas é só adentrar o universo das oito faixas do álbum que a percepção muda: o afastamento, no caso, é uma abertura. Uma distância daquilo que já se conhece.

O terceiro álbum da carreira do compositor (sucessor do primeiro disco, homônimo, de 2013; e do ótimo "Nas Estâncias de Dzyan", 2016) teve a produção dividida entre Juliano Gauche e o músico cearense Fernando Catatau. As canções de "Afastamento" envolvem um processo em que Gauche se permitiu compartilhar mais toda a concepção do disco, da feitura dos primeiros arranjos ao acabamento do repertório.

Catatau, segundo o capixaba conta por telefone, já era uma espécie de "conselheiro informal" durante a produção do segundo álbum (assinada por Gauche, sozinho).

"Para esse álbum, convidei ele oficialmente. Ele atuou muito na coisa dos arranjos, na timbragem. Entreguei uma demo que tinha violão e bateria. Tinha pedido um espaço: para criar essas linhas de bateria antes, e ele respeitou muito esse primeiro desenho do disco. E construiu os arranjos em cima disso", detalha Juliano Gauche.

Entre este álbum e o anterior, com uma diferença de dois anos de lançamento, o compositor observa o que "permanece" em relação ao segundo álbum, embora o "Afastamento" permita um desligamento de referências passadas.

"Nesse aspecto (do afastamento) acho que houve uma fuga de ouvir as coisas que eu ouvia todo dia. E, do 'Dzyan' para esse álbum, ficou um tipo de levada mecânica, de faixas como 'Animal', 'Clarão', 'Canção de um mundo maior'", exemplifica o músico.

Gauche aponta que se encontrou com esse cenário no disco passado, e resolveu consolidar essa paisagem no novo trabalho. "Daí ficou esse lado reto, mântrico, mecânico. O 'Afastamento' ficou todo nessa onda", reforça o compositor.

Flexibilidade

Ligado à composição e à edição das canções, normalmente com a mesma ênfase, Juliano Gauche conta que a riqueza do novo álbum passa por uma postura mais flexível nesse ponto. Em parceria com Catatau, eles descobriram o caminho - de se abrir para uma diversidade maior de interferências - até pela astrologia.

"Esse foi um dos pontos que mais enriqueceu o disco. O Catatau leu meu mapa astral antes (de produzir o álbum), e ele me disse que eu tinha de abrir mais o resultado, entregar mais o processo", recapitula Gauche, sobre o apelo do coletivo.

Além de Fernando Catatau, o álbum traz o acento de outros artistas do Ceará, tanto na concepção musical (a exemplo de Dustan Gallas, parceiro de Catatau no Cidadão Instigado, e do baixista Daniel Lima), quanto na identidade visual (com colaboração do fotógrafo Haroldo Saboia e da figurinista Lia Damasceno).

Afastamento

Ainda antes de lançar "Nas Estâncias de Dzyan", Juliano Gauche fez uma participação especial no registro da música "Pasto", do álbum "Romance pra Depois" (2015), do também cearense Daniel Groove. Em fevereiro passado, o capixaba esteve em Fortaleza e se apresentou ao lado dos cearenses Vitor Colares e Soledad Brandão.

Busca

No segundo álbum, a poética de Gauche sondava a questão da "morte" em vida. Não a morte do corpo físico, mas, conforme ele mesmo destaca, "a cultura da eternidade, digamos assim. Uma parte da filosofia que leva a gente a estudar esses aspectos que não morrem, imortais. No 'Dzyan' eu estava sondando um pouco o espaço, o inconsciente, tudo que parecia distante", reflete.

Para o "Afastamento", ele observa que se trata da "intensificação dessa procura. De se afastar do lugar comum, o indivíduo se afastando do meio, das pessoas. Se afastando até dele mesmo, para se aproximar mais de outro ambiente, de outro lugar".

Outros ares

O rumo de "Afastamento" se volta a não repetir certos arranjos que, para Juliano Gauche, parecem saturados no contexto da música popular. A bateria, por exemplo, se distancia do modo convencional do rock (repleto de viradas e outros recursos de preenchimento da sonoridade) e segue num modo minimalista, coerente com o próprio perfil criativo do compositor.

Para ampliar as possibilidades de criação, ele dá um aperitivo do que escutou até conceber o terceiro álbum. "Uma banda francesa The Do. Ela já tinha uma referência de base moderna, brincando com eletrônico, e que a canção se mantinha. O disco 'Smile' (1967), dos Beach Boys: tinha uma coisa orquestral de arranjo, e ao mesmo tempo parecia uma música só", observa.

Embora aponte para "muita coisa" que lhe afeta como ouvinte, Gauche coloca que a sombra maior, nesse sentido, ainda é o Pink Floyd. "Que sempre está acima de todas as referências que vou citar, (sobretudo) a fase mais mecânica deles. O Stereolab também ouço muito", complementa.

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