Ensaio

A coragem e o processo criativo

No ato da criação, envolvem-se elementos que se misturam na subjetividade do agente criador

00:00 · 01.06.2014

A coragem de criar é tema que intitula um livro de Rollo May, psicólogo existencialista nascido em 1909, em Ohio, Estados Unidos. Neste texto, May apresenta seus pensamentos acerca da coragem e da criatividade, argumentando que o processo criativo implica necessariamente uma postura de coragem para que aconteça genuinamente. Nos próximos parágrafos, nos deteremos, portanto, na intenção de resgatar os significados propostos pelo autor aos vocábulos "coragem" e "criatividade", bem como resumir a tese proposta no referido livro.

O primeiro capítulo do livro também se intitula "A coragem de criar", e nele todo texto é direcionado. Segundo May (1982, pág. 9), a época em que ele próprio vive é uma época de mudança. Para sua percepção, o mundo aparece tomado por mudanças radicais, no campo da educação, religião, tecnologia e sexualidade, entre diversos outros aspectos que trazem perspectivas inteiramente novas e que o colocam, juntamente com grande parte da humanidade, em um limbo. Na edição em inglês é escrito "To live with sensitivity in this age of limbo indeed requires courage" (MAY, 1980, pág. 4). A palavra "limbo", ainda que se refira à igreja católica e sua doutrina, pode ser entendida também como um lugar entre lugares ou estado intermediário de ser. Para Rollo May, viver com sensibilidade em uma época de limbo requer coragem. (Texto I)

Uma alegoria

Diante desta citação é conveniente lembrar uma história arturiana de um romance intitulado "A busca do Santo Graal", de um sacerdote anônimo do séc. XIII, trazida por Campbell (2008), em uma de suas palestras.

A história conta que, certa vez, os cavaleiros estavam reunidos em volta da távola redonda do rei Arthur quando, antes de iniciarem uma refeição, presenciaram o aparecimento do Santo Graal, coberto por um tecido bonito e brilhante, desaparecendo logo em seguida. Os cavaleiros ficaram arrebatados e deslumbrados. Logo em seguida, Gawain, sobrinho de Arthur, levantou-se e propôs que todos os cavaleiros saíssem em busca do Graal para contemplá-lo descoberto e desvelado, e assim foi feito. Os cavaleiros, contudo, acharam que seria uma desgraça partir em grupo. Dessa forma, cada um entrou na Floresta Aventurosa em um ponto escolhido, onde era mais escuro e não havia caminho nem trilha.

Essa história da mitologia inglesa retrata bem algumas intercessões aqui trabalhadas, tais como o estabelecimento do contato entre o conhecido o desconhecido e o valor do símbolo nesta conexão. Se entendermos que a investigação de May centra-se na experiência do indivíduo que vivencia esta conexão, ou como ele cita, essa angustia do nada, podemos buscar em seus estudos mais informações sobre a disposição subjetiva frente o estabelecimento do fluxo entre o consciente e o inconsciente.

A persistência

A coragem, tal como entende Rollo May, não será vista aqui como o contrário do desespero, mas como a capacidade de seguir em frente mesmo diante do sofrimento e do desespero. Em geral, tende-se a entender a coragem como uma virtude ou um valor. Esta não será nossa perspectiva. Por coragem também significamos uma base de sustentação das virtudes e valores. Segundo May (1982, pág. 11) sem a coragem, por exemplo, o amor empalidece e se transforma em dependência e a fidelidade é apenas conformismo. A coragem movimenta o homem socialmente, moralmente, emocionalmente e fisicamente. Não é teimosia nem tampouco temeridade. Em suma, a coragem é uma força que direciona o ser em um caminho desconhecido e diante do qual, sem ela, não se caminharia. Sendo a vida inédita, toda coragem encerra em si um paradoxo. Nas palavras de Rollo May (1982, pág. 18), "não se pode assegurar que a coragem leva necessariamente a um crescimento, e poder se comprometer mesmo diante da dúvida é o que caracteriza a verdadeira coragem".

A criatividade, por sua vez, é trabalhada pelo autor a partir do contraste entre criatividade autentica e a criatividade como estetismo superficial. Para adiantarmos o debate, tem-se nesta ultima criatividade uma preocupação com a imagem e com os elementos decorativos, enquanto que na primeira criatividade, busca-se a expressão do ser. Segundo a definição de May, os artistas autênticos são aqueles que alargam as fronteiras da consciência humana. "Sua criatividade é a manifestação básica de um homem realizando seu eu no mundo" (MAY, 1982, pág. 38). Chegamos então à coragem de criar que, pensada do ponto de vista do desenvolvimento psicológico, diz respeito ao movimento de sustentação e enfrentamento diante das incertezas inconscientes e, ao mesmo tempo, de acolhimento dos novos elementos em vista de uma reorganização psíquica. Para May (1982), a coragem criativa é a descoberta de novas formas, novos símbolos e novos padrões segundo os quais um novo homem e uma nova sociedade pode ser construída.

Considerações Finais

A partir das interlocuções teóricas percebemos a importância de uma mitologia viva. Em uma mitologia viva, naturalmente permeada por símbolos vivos, tem-se claramente um potencial latente de mobilização inconsciente num grupo de indivíduos, o que facilitaria o processo de desenvolvimento e amadurecimento dos indivíduos psicológicos deste grupo. Em outras palavras, uma mitologia viva age em prol do processo de individuação, na medida em que representa para um grupo de indivíduos uma ponte para o alargamento de suas consciências e seu autoconhecimento.

Podemos também vislumbrar com mais propriedade o processo de vivência de um símbolo - este posiciona o indivíduo frente a um desconhecido, a um inconsciente. Este não aparece concretamente, mas é percebido tal como a Floresta Aventurosa em seu ponto mais escuro. A experiência de um símbolo vivo requer coragem, que sustenta o indivíduo frente a um símbolo quer seja dos mistérios do mundo, quer seja dos mistérios de si.

*Graduando em Psicologia pela Unifor
** Doutor em música antiga pelo Conservatório Nacional de Rancy

Trechos

TEXTO I

Somos chamados a realizar algo novo, a enfrentar a terra de ninguém, a penetrar na floresta onde não há trilhas feitas pelo homem, e da qual ninguém jamais voltou que possa nos servir de guia. Os existencialistas chamam a isso angústia do nada. Viver no futuro significa um salto para o desconhecido, e isso exige coragem, uma coragem sem precedentes imediatos e compreendida por poucos.
(MAY, 1982, pág. 9)

SAIBA MAIS

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987

MAY, Rollo. A coragem de criar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982

MAY, Rollo. The courage to create. New York: Bantam Books, 1980

José Krishnamurti e Carlos Velázquez
Especial para o Ler*

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.