Fotopintura

A cor da memória

"Quadro ampliado", filme do fotógrafo Luiz Santos, será lançado sexta (8), às 19, no Cinema do Dragão

00:00 · 07.12.2017 por Iracema Sales - Repórter

Nesta sexta-feira (8), a fotopintura será abordada no documentário de curta-metragem "Quadro ampliado", dirigido pelo fotógrafo pernambucano Luiz Santos. A técnica foi criada pelo francês André Adolphe Eugène Disdéri (1819-1889), por volta de 1863.

A exibição da filme, que mostra a trajetória desse ofício, acontece às 19h, no Cinema do Dragão. Após a sessão, o diretor conduzirá uma conversa com a participação do fotógrafo Tiago Santana e mestre Júlio dos Santos, um cultor da fotopintura.

Artesania

"A fotopintura podia ser observada em todas as casas das famílias tradicionais", lembra. Ele faz referência a esses personagens, responsáveis pela preservação da memória afetiva de muitas famílias, que encontravam na fotografia popular, uma maneira de perpetuar suas histórias de vida.

O trabalho feito de maneira artesanal, que consiste em levar cor à fotografia, não tardou a cruzar o Atlântico e chegar ao Brasil. Os primeiros fotopintores aportaram aqui já em 1886, conforme informações da Enciclopédia Itaú Cultural Artes Visuais.

As regiões Norte e Nordeste concentraram um bom número de profissionais que trabalhavam com a técnica. Até hoje, há um número deles que continua oferecendo, de porta em porta, seus serviços, embora de maneira mais acanhada.

A entrada em cena da fotografia digital representou um golpe não apenas na fotopintura - que se encontra quase em "extinção" - mas, também, na sobrevivência desses retratistas ambulantes.

Mestre

Considerado um dos principais nomes da fotopintura brasileira, mestre Júlio dos Santos trabalha com a arte de colorir fotos desde 1956. "A fotopintura acabou. O que existe hoje é a fotomontagem", desabafa o veterano.

Ele lamenta não haver renovação de fotopintores, profissionais que se destacam pela artimanha de transformar sonho em realidade. Ou seja, modificar o visual de anônimos, a exemplo do homem do sertão.

Numa demonstração de resistência, mestre Júlio dos Santos conta com demanda em seu estúdio, recebendo encomendas que ultrapassam as fronteiras do Ceará.

A programação inclui, ainda, o lançamento do livro "Casou no papel/ A match on paper", trabalho realizado a quatro mãos, pelos artistas Luiz Santos e mestre Júlio dos Santos. Dividido em dois volumes, edição bilíngue, a publicação mostra 25 fotopinturas, realizadas com internos do hospital psiquiátrico da Tamarineira, um dos mais conhecidos de Recife e antigos do Brasil.

Rasgos

As fotografias sofreram intervenções do fotógrafo, que se autodenomina retratista. Luiz Santos realizou rasgos que representam uma carga simbólica muito forte.

"Para mim, os rasgos têm um sentido", explica o fotógrafo, admitindo que as pessoas em sofrimento psíquico estão sujeitas a interferências da família, do psiquiatra e da instituição, deixando marcas no corpo", justifica.

Com 248 páginas, lançado pela editora Aurora 21, no outro volume do livro, apresentado em uma caixa, o artista publica ensaio composto por fotos em preto e branco. As obras fazem parte de pesquisa realizada durante oito anos, com os manipuladores de bonecos gigantes de Olinda.

O trabalho tem o objetivo de chamar a atenção para o caráter de invisibilidade dessas pessoas. "Invisíveis aos olhos do público, elas dão alma aos bonecos", assinala.

Os eventos fazem parte da 5ª Mostra de Artes do Porto Iracema, cuja programação continua na segunda (11), com o início dos trabalhos da oficina "RUDMOV - requalificação do uso de dispositivos móveis", que terminará na quinta (14).

A formação acontecerá no ateliê da escola, sempre das 8h30 às 11h30, e receberá inscrições por ordem de chegada com o limite de 16 vagas. A oficina consiste em mostrar as possibilidades do uso de smartphone e tablet para a realização de filmes e fotografias.

A tecnologia digital é interessante como base para a fotopintura, enquanto a tecnologia do smartphone é considerada precária para cinema.

Mestre Júlio dos Santos, que acabou de entregar para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) 16 fotopinturas dos idealizadores da Tropicália, em comemoração aos 50 anos do movimento, considerou surpreendente o resultado do trabalho realizado no hospital psiquiátrico de Recife.

"A gente os via de um jeito, mas eles tinham outra visão deles próprios", admite o fotopintor, que expressa o desejo de repassar o ofício às novas gerações. No entanto, faz uma ressalva, pouco adianta ensinar a alguém que não exercerá o trabalho como profissão. Essa necessidade é que garante a permanência do ofício.

Grosso modo, pode-se afirmar que a fotopintura nasceu junto com a fotografia, na primeira metade do século XIX, explica mestre Júlio dos Santos, completando que a cor sempre foi um elemento a fazer parte desses "instantes eternizados".

O fotopintor trabalha com autoestima das pessoas: "a gente muda a indumentária e elas acham que ascenderam socialmente", compara.

Mesmo com restrições ao recurso tecnológico a exemplo do Photoshop, desde 2003, mestre Júlio dos Santos começou a utilizar o computador para fazer sua fotopintura. Entretanto, a tecnologia digital não acabou com a arte do retrato popular, "obtida de uma base fotográfica em baixo contraste - que tanto pode ser uma tela quanto uma imagem sobre papel - sobre a qual o pintor aplica as tintas de sua preferência, geralmente guache, para o papel, e óleo, para as telas".

A técnica tem duas vantagens: dispensa a exigência de talento do pintor para gênero do retrato, uma vez que assume, muitas vezes, o papel de "colorista". Além de dispensar o cliente das demoradas sessões de posar para o artista, conforme pedia a pintura acadêmica.

Sem contar que poucos podiam pagar por um retrato tradicional, cabendo aos fotopintores a popularização do retrato, negociação feita de porta em porta.

Mestre Júlio dos Santos, afirma que a fotopintura sempre esteve presente junto aos movimentos artísticos do Estado, citando a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap), nos anos 1940, lembrando de nomes como Estrigas, Barrica e Mário Barata, "são grandes artistas que passaram por ela".

O documentário "Quadro ampliado", com 25 minutos de duração, foi realizado em 2012, tendo como cenário o Ceará. A proposta do filme é enaltecer a fotopintura tradicional feita de maneira analógica. Com o passar do tempo, a técnica migrou para o campo da tecnologia digital, fazendo com que alguns pintores recorram ao Photoshop. "O filme aborda o aspecto mais contemporâneo", revela Luiz Santos.

Montagem

O diretor percorreu os municípios de Juazeiro do Norte, Nova Olinda, entre outros, não ficando restrito apenas ao Cariri. "O filme mostra a atualização da fotopintura", resume. Nos dias atuais, o ofício virou "pura montagem, não tem nada feito à mão. Fora o mestre Júlio dos Santos não conheço outro fotopintor", confessa.

Atualmente, os profissionais usam a palheta de cores do computador, recorrendo ao mecanismo de colar. O documentário conta com participação dos mestres cearenses Júlio dos Santos e Tonho Ceará, além de depoimentos dos fotógrafos Tiago Santana, Rinaldo Silva e Milton Guran.

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