Ensaio

A construção de uma identidade cultural

00:00 · 09.02.2014

Vinícius sugere a peça Orfeu da Conceição, caso fosse novamente montada, fizesse uso da adequação de gírias e outras formas de identificação "moderna" da classe negra. A construção de uma identidade nacional passa, assim, por uma série de mediações que permitem a invenção do que é comumente chamado de "alma nacional", ou seja, parâmetros simbólicos que funcionam como provas da existência desse Estado, e que determinam sua originalidade: uma língua comum, uma história cujas raízes sejam as mais longínquas possíveis, um panteão de heróis que encarnem as virtudes nacionais, um folclore, uma natureza particular, uma bandeira e outros símbolos oficiais ou populares.

As duas faces

Por ser Universal, o mito é revitalizado em formas de brasilidades invertida partindo do princípio de que uma história só pode ser adaptada e novamente contada quando une o contexto universal e nacional. Vinícius transpõe toda a narrativa para a festa carnavalesca como cenário principal, mostrando assim que o carnaval poderia ser o momento em que a cultura diversificada brasileira poderia reinar absoluta. O carnaval surge como o exemplar da ilusão humana, a história de amor de Orfeu e Eurídice é curta, porém é curta de felicidade e constante de tristeza. O objetivo é situar a história em um ambiente carnavalesco acaba ganhando outro patamar e, apesar de tudo de ruim que a favela pode oferecer, ela se torna na peça um ambiente mítico contado com poesia e emoção. O personagem "Plutão", que, na ocasião da adaptação do mito ao Brasil ocupa o lugar do dono do inferno, ou, como melhor dizer, o presidente do "clube dos maiorais do inferno", diz que "Triste de quem não quer brincar, que fica a labutar ou a pensar o dia inteiro! Triste de quem leva a vida a sério, acaba num cemitério, trabalhando de coveiro."

O arquétipo mitológico

Orfeu, ao sair da favela, ambiente um tanto surreal, onde o músico tem diversos contatos "mágicos", primeiro com a magia de seu violão e depois do contato com a morte, para ir procurar Eurídice na festa de carnaval do clube dos maiorais do inferno, vê que não é dono da mesma igualdade de poder que possui no morro, ao ser barrado na porta pelo cão guardião Cérbero, o mesmo que pergunta a Orfeu se ele tem ingresso para entrar na festa, e ele, dizendo que não tem, não é bem-vindo.

O espaço em que se consagra a festa de carnaval situa-se no arquétipo mitológico, em que a vida festiva é, portanto, a vida em que se busca obter, pelo menos na imaginação, a mesma vida que o mito sugere, como se esse fosse um exemplo/modelo a ser devidamente seguido. Em meio ao rito carnavalesco, o morro se despe de todo o seu papel social para se tornar apenas num local em que vivem indivíduos em busca de felicidade. Apesar de ser uma adaptação, a peça, conserva vários de seus elementos clássicos do mito, como na crença no poder da arte, que se encontra no mítico violão de Orfeu, podendo se crer, assim, especialmente, no poder exercido pela arte popular, tornando Orfeu um representante da música popular brasileira e de sua própria identidade nacional, colocando em seus sambas alegres todas as contradições sociais do país e exibindo na letra de seus sons o mais fiel retrato da situação social do morro perante a cidade e apresentando as perspectivas um tanto ideológicas implícitas no processo de adaptação brasileira dada ao mito.

Atmosfera alegórica

Na adaptação da peça para o mito, deve-se claramente levar em consideração que os seres míticos que constituem os personagens, ambientados no morro, são transfigurações de criaturas ancestrais, estas que, de uma forma ou de outra, pertencem ao imaginário coletivo da cultura de um povo. Na peça, a cidade repleta de figuras míticas fantasiadas durante o carnaval, podem, nesse caso, ser claramente aceitas como em um espaço sobrenatural; o carnaval juntamente com a cidade surgem, ambos, como uma espécie de inferno simbólico.

A atmosfera

Na noite no morro, Orfeu é cercado por sons míticos e enigmáticos que surgem da natureza, sons estes que servem de inspiração ao músico e que logo o fazem criar novas melodias providas de seu violão mágico. Enquanto os Apolíneos sons do violão de Orfeu são tocados para levar paz a todo o morro, surgem frenéticas batidas que geram o caos e a desordem vindas da festa de carnaval, que podem ser associadas a batidas dionisíacas, contrapondo estas com a calmaria, emitindo por sua vez sons primitivos vindos de uma África tão longínqua em comparação com a suave e poética Grécia.

A construção desse herói negro e ao mesmo tempo tão europeizado, devido às circunstâncias, deixa claramente explícito o surgimento de uma ideologia de 'embranquecimento' por que vinham passando as manifestações artísticas culturais vindas das classes afro brasileiras da época.

Explicitando intimamente o poder da música de Orfeu como a fazer um elogio à sua arte e, ao mesmo tempo, mostrando a imperfeição da realidade mundana, apresentando ao Orfeu brasileiro que, na arte, as perdas poderão ser reversíveis, afirmando assim que o poder de sua música é capaz de curar, Vinícius apresenta a parte essencial do mito, em que se pode desenvolver um sentimento de pertença, como no caso cultural da comunidade negra e moradora do morro, juntando ao "seu" Orfeu negro, um violão tipicamente brasileiro e a composição de animados sambas.

Considerações finais

O movimento dos negros brasileiros focava fazer de forma essencialista a afirmação racial cultivava um discurso que colocasse em evidência um conteúdo político e privilegie a arena da luta desses povos pelos direitos civis.

Michel Hanchard (2001) discorre sobre a política de hegemonia racial desenvolvida pelos brancos, analisando que o movimento negro sempre buscou, inutilmente, um projeto contra isso. Em sua pesquisa, nos diz que a base principal da sustentação dessa hegemonia teria sido a ideologia da democracia racial, esta que sempre perpetuou uma falsa premissa de igualdade entre negros e brancos.

Saiba Mais

CAMPBELL, Joseph. Mito e transformação. São Paulo, Ágora, 2008.

HANCHARD, Michael. Orfeu e Poder. Movimento Negro no Rio e São Paulo. Rio de Janeiro, Eduerj, 2001

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2006

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