Ensaio

A construção de um tipo feminino

00:00 · 17.01.2014
Apesar de demonstrar características de comportamento um pouco à frente de seu tempo, Helena ainda traz consigo o espiritualismo da mulher idealizada pelo Romantismo do século XIX. Muitos eram os dotes e qualidades exigidos das mulheres durante o século XIX, já que para elas a única ocupação era a de conseguir casar, de cuidar do lar e do marido e o prestígio social só vinha através do casamento (SOUZA, 1987, p. 92). Para demonstrar que estavam aptas para a vida de casadas, as moças tinham que saber demonstrar diversos talentos, tais como: saber ler corretamente, saber costurar, saber pintar, cantar, saber ler partitura, falar outras línguas, entre outros, como nos aponta Rodrigues (2011, p. 190): (Texto IV)
Helena do Vale traz todas essas qualidades de forma exagerada, típica das personagens femininas do Romantismo, tornando-a um símbolo de perfeição. Todos esses dons (que parecem ser atávicos) vão conquistando e surpreendendo toda a família ao longo da obra. Mais uma vez, vemos como Machado sugere como deve ser o comportamento das moças corretas de sua época.

Observa-se como Helena consegue preencher alguns requisitos de uma jovem dama burguesa: (Texto V)[TEX_CAP2] A protagonista, Helena, ainda demonstrava habilidade na regência da casa, administrando de forma exemplar os serviços e ocupações de todos, enquanto a matriarca D. Úrsula se encontrava doente: (Texto VI)

Ainda com relação à importância do casamento naquela época, Souza (1987, p.90) afirma que o casamento era o objetivo não só das mocinhas, mas também das mães delas, que viam no casamento das filhas uma possibilidade de ascensão social e um meio das mesmas conseguirem status econômico, pois “aquela que não se casava era a mulher fracassada e tinha de se conformar à vida cinzenta de solteirona.”. Em Helena, a família da namorada de Estácio, Eugênia, recebe à mesa uma carta do moço com a proposta de casamento. A importância do casório pode ser observada no seguinte trecho, onde vemos, então, o reconhecimento do valor moral que o casamento traria à jovem: (Texto VII)

Considerações finais

Estácio também se enquadra no comportamento ideal de quem pertence à classe burguesa, possuidor de educação e demonstrando conhecimento acerca de etiqueta.

A educação de Estácio se deve à criação feminina e à influência da mãe do jovem, já que durante o século XIX, não cabia ao pai os deveres de cuidar dos filhos pequenos, mesmo dentro de uma sociedade paternalista, como aponta Daltro (2010): (Texto VIII)

Assim como a educação estava inserida no que era tido como de bom tom na época, o vestuário também era influenciado pelos códigos de comportamento impostos pela sociedade durante o século XIX.

As regras civilizadas do vestir-se regiam os hábitos de moças e rapazes e caracterizavam a qual classe social cada um pertencia. Na obra Helena, o autor se apropria da descrição das vestimentas dos personagens ora para reforçar suas características burguesas, ora para enfatizar a extrema pobreza em que viviam. Machado de Assis faz uso de acontecimentos do cotidiano para inserir elementos do vestuário e expor o que era vivenciado pela sociedade da época no que se refere aos seus modismos e costumes.

Trechos

TEXTO IV

Além de saber cantar é exigido das mocinhas que expressem seus dotes em outras línguas, pois ao lado e concorrendo com as modinhas e lundus nacionais estão as árias italianas, as canções francesas. Tocar bem um piano é essencial àquelas de boa família que deverão ler e executar diversas partituras. (RODRIGUES, p.190, 2011)

TEXTO V

Além das qualidades naturais, possuía Helena algumas prendas de sociedade, que a tornavam aceita a todos, e mudaram em parte o teor da vida da família. Não falo da magnífica voz de contralto, nem da correção com que sabia usar dela (...). Era pianista distinta, sabia desenho, falava corretamente a língua francesa, um pouco a inglesa e a italiana. Entendia de costura, de bordados e toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com graça e lia admiravelmente. (Machado de Assis, Helena, 1987).

TEXTO VI

O que completava a pessoa de Helena, e ainda mais lhe mereceu o respeito de todos, é que, no meio das ocupações e preocupações daqueles dias, não fez padecer um só instante a disciplina da casa. Ela regeu a família e serviu a doente, com igual desvelo e benefício. (Machado de Assis, Helena, 1987)

TEXTO VII

A satisfação do médico precisava do silêncio e do recolhimento para saborear-se. Foi então que Eugênia passou às mãos de D. Tomásia. A mulher do Dr. Camargo via aquele casamento com olhos diferentes do marido. O que ela sobretudo via, eram as vantagens morais da filha. (Machado de Assis, Helena, 1987).

TEXTO VIII

A criação dos filhos pequenos era responsabilidade da mãe, mas por mais que eles convivessem a maior parte do tempo com ela, a sociedade paternalista dominava mesmo dentro das famílias, e a vontade dos pais, dos senhores, sempre era soberana. (DALTRO, p. 7, 2010)

SAIBA MAIS

ASSIS, J. M. Machado de. Helena. Ed. Elevação, 1876

CHALHOUB, Sidney. Diálogos Políticos em Machado de Assis. In: A História Contada: capítulos de história social da literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998

RODRIGUES, Mariana Tavares, Mancebos e Mocinhas – Moda na Literatura Brasileira do Século XIX.Estação das Letras e Cores, 2010

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